segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Argemiro

Argemiro era o responsável por cuidar de estrelas do Setor 7BNNB - 0099; o nosso sintema solar. Seu trabalho era fazer com que elas brilhassem o mais nítido possível. Ria dos humanos cientistas, pois com todo o seu avanço, haviam deixado de reparar em como elas eram bonitas e o quanto deu esperanças para todos os homens, em outras eras. Mas esta aqui é uma Era Cinza, pensou, onde as esperanças se esvaem pelos dedos como areia no deserto e se perdem misturadas aos grãos da incerteza.

Em seus passeios, além de ornamentar as estrelas e dar-lhes luz, gostava de observar os seres da Terra, como um pequeno passatempo. Ficou particularmente encantado com uma cientista. O que o fascinou não era apenas o seu intelecto, mas o que tinha por dentro - uma doçura e compaixão com o ser humano - e os seus medos - achar que estava ficando velha e sua insegurança em relação a sua felicidade. Ela era como um motor industrial, desses que trabalham vários dias seguidos.

Observava que ela tentava ser feliz no seu cotidiano: procurava se relacionar com seus amigos no trabalho, procurava ter namoros e cuidar dos pais. Ah, e tinha cães. Matilde gostava da paz e da quietude que aqueles animais tinham por ela, sabendo que eles sempre poderiam ser fiéis a ela. Neste quesito, precisava demais da conta da segurança. Deixou alguns namoros para trás por vários motivos, mas o principal era o da segurança.

Ou como ela o camuflava. Argemiro percebeu a aproximação de Thobias, um rapaz que tinha tocado o seu coração. Ela permitiu que ele o fizesse, na verdade. O nosso observador até ficou exultante - ela agora poderia dar-se o prazer de ser feliz, de poder se entregar a um amor verdadeiro e com ele estabelecer laços. Laços que Argemiro tinha com Astelfa - mas que por causa do árduo trabalho, apenas se viam de éon em éon. Na verdade, a aproximação dos dois lembrava a sua amada. Matilde a lembrava dela.

Após terem se afetuado, se amado e formado uma egrégora entre eles, Matilde se assustou deveras com isto. Imaginava se podia ser feliz ao seu lado, o que deveria fazer... E se ele descobrisse algo de que não gostasse? E se ele pudesse magoá-la? Outros poderiam tê-la magoada, mas ele... Ele era especial demais para fazer isto com ela. Foi deste ponto em diante que tudo se degringolou. Ela pediu que ele saísse de sua vida.

Ele saiu. Sentido, machucado, magoado... Assim como ela também estava. Na verdade, ela estava até em um estado pior: ela não tinha tido a coragem de lutar pela felicidade de ambos, deixou que o medo a levasse pelo caminho escuro da negação. Argemiro aproximou-se da Terra, ficando sob aquele local. Nesta hora, permitiu-se ser humano de novo e escorreu uma única lágrima de sua essência; rezando por eles, fez-se uma chuva. Uma chuva meio esverdeada de esperança e meio cinza da dor do não-realizado. Matilde fez o mesmo, assim como Tobias.

Das metades

O nosso herói era um jovem adulto sonhador. Seus comportamentos sempre alegres e carismáticos atraíam várias pessoas; e pensar que, quando adolescente, era tímido e sofria de baixa estima. Tinha se tornado um adulto mais confiante e um pouco menos inseguro. Buscava ainda a tão esperada transição profissional, para que pudesse desabrochar para poder sair da casa de seus pais.

Godofredo conheceu Bethania em uma sala de bate-papo virtual. Ela, de vez em nunca entrava, resolveu naquele primeiro dia da primavera entrar. Ele, solteiro, estava ali apenas para curtir uma noite de um modo despretencioso. Entrosaram-se. Resolveram, após muita conversa e telefonemas, se encontrarem para jantar. Ela nunca havia saído com alguém totalmente desconhecido da internet e ansiava por uma coisa boa e nova na sua vida. Ele estava ainda curando-se de um antigo amor.

A conversa foi longa e boa. Os beijos, calorosos e apaixonantes. O sexo que seguiu foi indescritível. Ela saiu de lá querendo mais dele, assim como ele dela. Ela era sempre reticente com relação ao futuro dos dois, apenas vez por outra fazia um plano. Apesar de ter épocas em que ela completamente surtava e declarava o amor dos dois aos quatro ventos. Ele, um eterno romântico, apreciava e a acarinhava como ela nunca havia sido.

Bethania sabia que tinha algo bom e puro, especial demais para ser verdade. Mas era. O amor de filmes que ela havia, a paixão desmedida e a sinceridade que eles tinham um para com o outro apenas a tornava mais mulher, mais bem-aceita; contou-lhe todos os seus segredos. Assim como as pequenas coisas do dia-a-dia, as pesquenas inseguranças; tudo era tratado por ele com um amor inenarrável. Ela, por sua vez, fazia de tudo para locupletá-lo. Era sábia a decisão de ficar com ele.

Godofredo, por sua vez, percebia a iminência de se estabelecer. Embora fosse tudo o que ela precisava, ele necessitava de um emprego. Havia conseguido um; ficou exultante. Deixou uma pequena controvérsia passar para que pudesse falar com ela. Com isto, poderiam casar e ter os filhos que desejavam. Toda vez que falava com ela, deixava passar a oportunidade apenas para que ele pudesse contar no momento apropriado. Porém, o momento apropriado nunca chegou.

Ela impediu que isto acontecesse. Pediu para que ele fosse embora da vida dela. Aturdido, perdeu o chão. Queria falar com ela, conversar. Ela negou. Ele não sabia se por ser especial demais, ela o estava mandando embora. Como poderia, se fosse por isso? Como podemos mandar a nossa felicidade embora? Ele não sabia. Uma infinidade de perguntas rodeavam seu coração e nenhuma com resposta. A única resposta era: ela não mais o queria.

Ele, resignado, aceitou. Não tinha mais forças para lutar por alguém que o rejeitava. Doía perder alguém que fora especial, mas doía ainda mais o desejo dela para que ele saísse de sua vida. Ele imaginou todo o futuro planejado pelos dois, todos os quereres, tudo o que amavam um no outro descer ralo abaixo. Ela própria tinha tomado esta atitude.

Debulhou-se em lágrimas. Parecia um adolescente ao perder o seu primeiro amor. Não sabia se ela fazia o mesmo; com certeza não, pensou. Ela tomou a atitude de uma maneira fria e controlada, como se já o quisesse fazer há muito. Cogitou, então, que tudo o que prometeram um para o outro fosse apenas ilusão, um desejo transitório de um pedaço de esperança, o qual ela precisava para sub-existir naquele momento de sua vida. E, como já o tinha, poderia descartá-lo.

Dobrou seu corpo no chuveiro e tentou conter os soluços de sua dor. Sorriu. Não sabia porque, mas sorriu. Um pequeno, de canto de boca. Estava feliz por sua dor ter sido sincera, por ele ter se doado de uma maneira tão honesta e pura, de ter sido quem sempre foi: uma pessoa proba e especial. Fazia questão de ser assim. Era de coração aberto que tinha começado aquela relação e fora assim que terminara. Sorriu, de novo.

Afinal, sabia o quanto era especial. Não naquele momento de dor... Mas sabia que realmente era um ótimo partido para ser posto de lado. No futuro, ele saberia disto. E não mais se importaria se Bethania se arrependeria do fato. O pedido foi feito por ela. Ainda a amava, mas o que poderia fazer com tamanho sentimento que lhe tomava? Não poderia insistir, bater naquela porta fechada... Bethania a havia trancado com um cadeado, intransponível para todo e qualquer Godofredo que ousasse chegar perto. Havia até colocado cinco cães para guardar aquela prisão sentimental na qual estava.

A ele, apenas restara o fato de ser feliz com outra pessoa. Alguém que pudesse aceitar ser feliz com ele, de uma maneira integral, romântica e para toda vida. Alguém que quisesse ser a mãe de seus filhos, em um relacionamento onde ela não precisasse mentir, apenas ser ela mesma. E ser amada por ser quem ela é. Isto assusta, pois passa pelo princípio de auto-aceitação. Godofredo ria de suas cogitações, algumas pareciam absurdas. Como não podemos ousar ser felizes com alguém que nos ama pelo que somos e nos respeita? Resolveu, apenas, dizer para si mesmo: "Vida que segue...".

sábado, 9 de outubro de 2010

Tirinhas De Datas Comemorativas

Dia das Bruxas

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Do processo decisório

Berenice tinha tomado a decisão mais importante da sua vida até o momento. Era um ano de mudanças, pensara ela. E ela riu na cara da cigana quando ela lhe disse que um viajante mudaria o seu destino e que seu trabalho sofreria uma expansão enorme. Ledo engano. A primeira flecha, a do amor, começou a tomar o seu coração protegido pelos anos de sofrimento de um modo tão leve e tão despudorado que ela mesma se surpreendia até com suas atitudes.

Lembrou-se de que via filmes românticos para projetar seus desejos e realizá-los, mesmo que fosse por conta da atriz que, enfim, encontrara um amor de verdade na sua vida de mentira. Agora, ela tinha uma pequena mentira para ter um amor de verdade. Ia-se vivendo aquilo até o momento de saber exatamente o que fazer com aquilo. Ela enganava-se, já sabia exatamente o que fazer. E não que tivesse medo de tomar coragem: apenas agia como uma típica capricorniana (deixava o copo d´água encher até a borda para transbordar). Sempre fora assim na sua vida, necessitava de alguma certeza para poder dar o passo naquela direção.

Além disto, sentia-se imensamente feliz com o seu rumo profissional. O seu pequeno amor sempre lhe falara que coisas boas iriam sempre acontecer com ela enquanto estivessem juntos. Não como uma carência afetiva dele, como ela inicialmente pensou. Apenas porque a vibração dos dois era tão boa e diferente que fazia com que ela própria quisesse mudar o seu modus operandi de vida em relação a várias coisas. E já estava mudando. Tratamento para corpo, academia e a tão sacrificiosa dieta. Além disto, iria começar a frequentar terapia na próxima semana.

Ela sorria para si mesma. Sentia-se uma adolescente quando lhe contava algo, com olhos sempre atentos, tentando encontrar o apoio simples de um namorado. Encontrava mais do que isto - a verdadeira felicidade do afeto de um companheiro para a vida toda. Engoliu a seco ao pensar isto. Respirou com calma. Está certo de que o sexo, o papo, o cheiro, o carinho, a gentileza, a delicadeza, a beleza... Riu-se de si mesma. Tudo lembrava ele. Ela não mais podia negar que o amava.

Não se permitia falar de futuro com ele - mentira, eles sempre falavam de forma velada ou explícita, apenas pegando mais leve agora para poder construir uma sólida base para o futuro. A notícia de sua promoção veio em uma excelente hora. Seria um novo desafio na vida de uma guerreira de verdade, mas nada que não pudesse ser direcionado para melhorar ainda mais a sua qualidade de vida. Riu de novo de si mesma. Apesar de estar viajando, não o conseguia tirar de seus pensamentos. Mordiscou os lábios e fechou os olhos, lembrando do toque dele em sua pele e de suas línguas se entrelaçando. Seu coração até acelerou e sua barriga se retesou.

Lavou o rosto no banheiro. Precisava se concentrar em outras coisas, precisava trabalhar. Havia feito aquela viagem com o exato desejo de decidir sobre tudo. O profissional sempre fora o mais fácil em sua vida. Já o pessoal... Culpava-se por desastres causados pelo meio do caminho enquanto outros não a compreendiam, não a esperavam se abrir e nem sabiam como lidar com suas crises pessoais como Altaíson. Ao chegar a esta conclusão, olhou-se novamente no espelho e enxagou seu rosto. Ainda se espantava o quanto ele se tornara importante em sua vida. Olhou-se longamente no espelho, olhando seus traços ítalo-brasileiros. Achava-se charmosa, mesmo passando por todo aquele vendaval.

Resolveu, então, respirar fundo de novo. Toda aquela pressão não a ajudaria tomar as decisões necessárias. Ao abrir a sua mala para procurar sua maquiagem, encontrou um papel pardo. Estava somente escrito abra. Estranhou e o fez. Retirou uma carta, na qual havia: "Amo você. Muito. Sinto a sua falta, simplesmente porque está longe de mim ou quando estamos separados pelo trabalho ou quando está viajando ou quando... Sempre sinto a sua falta. Você me é muito cara e especial. Dentro, do envelope, há uma pequena besteirinha."

Ela procurou. Era uma foto dele que ela própria havia tirado recentemente. Lembrou que em quase um ano de relacionamento, nunca tinha tirado nenhuma foto dele e impresso. Ele o fez. Reparou que embaixo da foto, na margem direita, havia uma seta vermelha. Atrás, outra mensagem: "Sei que detesta dormir solitária e nem sempre poderei estar contigo, ao menos por enquanto. Quero que saibas que sempre serei sua companhia, mesmo que seja apenas no nosso sentimento."

Ela balançou a cabeça, ruborizando a sua face. Será que merecia ser feliz? Acharia-se tola por fazer esta pergunta a si mesma anos atrás, mas agora... Agora, ele era especial de verdade, como uma fruta que temos que acondicionar de maneira adequada, após retirada do pé, para poder ser degustada pela vida inteira. Quantos pensamentos e sentimentos invadiram-lhe. De todos eles, de tudo o que sabia, sabia que era um amor verdadeiro. Isto seria o seu norteador até o seu novo porto seguro. Sorriu, agora, daquela situação em que se sentia uma adolescente. Boba e tola, pensou. Desejou que ele estivesse ali, só para poder dizer o quanto estava bonita e o quanto tudo iria dar certo. Mandou-lhe um sms. Acabou de se arrumar e foi de encontro a mais uma decisão.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Das pequenas miudezas

Juarez era um caso típico de alguém que não sabia se expressar na área afetiva. Tímido e reservado, poderíamos dizer que só conseguia se abrir quando não havia ninguém desconhecido por perto. Nunca tinha namorado ninguém que não conhece há anos e fazia questão de dar um passo de cada vez, com um rumo certo para cada pequeno encaminhamento afetivo. Se ele acreditasse em astrologia, diria que seu signo capricórnio cairia-lhe feito uma luva.

Outra faceta deste signo, contudo, é a de trabalhar de maneira árdua. O excesso, normalmente para esconder uma mágoa, tornou-se gigantesco quando separou-se de sua ex-esposa. Divorciado há algum tempo, decidiu alavancar sua carreira profissional. Não saía e as poucas horas de relaxamento social que obtinha era através de uma saída mensal com os amigos da sua antiga escola técnica de engenharia. Deseja apenas paz.

Em um desses feriados prolongados, onde já havia adiantado todos os seus projetos, ele resolveu entrar em uma sala de bate-papo. Perda de tempo, pensara. Até que observou uma mulher entrar com o nome de Atenas. Achou atrativo e começou a dialogar com ela. De um bate-papo genérico, foram a um reservado, onde troca-se o e-mail. Dali, algumas horas depois, viram-se através das câmeras. Conversaram ainda mais alguns bons minutos e trocaram telefone. Falaram-se.

Passaram alguns dias assim, até que Dalila aceitou o seu convite para sair. Pareciam dois adolescentes apaixonados: os corações palpitavam apaixonados, pupilas dilatadas, o cheiro de um inebriava o outro... Amaram-se. Passaram alguns dias sempre se telefonando, sempre se visitando e se divertindo juntos. Era uma avalanche sentimental tão grande que era indescritível. Ele refugava, por vezes... Descontava seu stress do trabalho nela. Ela, por sua vez, o direcionava para fora da relação, sempre com amor e atenção. Por vezes, sendo dura também.

Foi curioso uma vez, em que ele viajava e ela perguntou se poderia fazer algo para que pudesse ajudar. Ele esbravejou, falou que não poderia fazer nada, que o seu dia estava ruim e que ele não estava bem. Disse que precisava ficar no seu canto. Ela, então, deixou que isto acontecesse. A grande questão é que ele não parava de pensar em Dalila. Lembrou que se abriu com ela como nenhuma outra pessoa. Estava modificando-se e assustava-se com isto. Será que isto seria bom? Respirou fundo, voltando a pensar em seus sentimentos, coisa que deixara de fazer: tinha passado a viver a vida no automático, sem se questionar. Ele, então, deu-se conta do que estava acontecendo.

Aos poucos, Juarez foi largando sua armadura emocional de lado. Percebeu que poderia entregar o seu coração para ela que ele seria muito bem cuidado. Dalila tinha feito o que as mulheres fazem de melhor, o que as pessoas que são verdadeiras companheiras fazem; ela o deixou à vontade para que ele pudesse se abrir. Ela também aprendeu com ele a ser mais centrada e direcionada. Ambos eram ansiosos e foram ajudando um ao outro. Casaram em aproximadamente um ano. Estão juntos até hoje. Ah, quase me esqueço: mês que vem irá nascer Sofia, a segunda filha do casal.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Dos sofrimentos que valem a pena

Thobias chorava em um bar, solitário. Deixava as lágrimas rolarem por seu rosto sofrido com as marcas do tempo. Colocava na balança, entre um chopp e outro, o que tinha perdido na sua vida. Tinha um trabalho pífio, pouco contato com a família e quase nenhuma vida pessoal. A única reunião que ia era a anual do Colégio Pedro II e uma mensal da Autarquia Estadual na qual trabalhara toda a sua vida. Sua pretensão em se formar em direito se esvairia por suas mãos.

Foi quando Helenice apareceu em sua vida. Uma pessoa que conhecera na internet, em uma dessas salas de bate-papo tão comuns para um intimidade restrita e limitada pelo medo dos dois de fisicalizarem aquele encontro. Porém, algo diferente tinha ocorrido entre aquelas duas almas: elas se interessaram mutuamente - ele, pela espontaneidade dela e ela pelo seu senso de humor. Os tipos físicos um pelo outro uma atração indiscritível. Ele adorava o nariz de descendência italiana dela e ela o nariz de descendência árabe dele. Resolveram, então, após alguns dias de bate-papo e telefonemas, jantarem.

Foi indescritível o que ocorrera naquela mágica noite: atração à primeira vista, amor em algumas semanas. Atracavam-se sempre que podiam, de uma maneira pagã e longa. Exauriam-se de tanto se amarem. Discutiam planos e imaginavam filhos, um sempre puxando alguma característica de sua família, um pouco para implicar de uma maneira sadia com o outro e um pouco para, logo após, fazer preferência pelo outro. Levavam assim o relacionamento deles.

Ele havia decidido pedi-la em casamento. Seria entregando o anel para ela, no mesmo restaurante no qual tinha comparecido a primeira vez. Ele iria pedir para que ela olhasse para trás e, dentro da rosa vermelha, lá estaria o anel de noivado. Seria a coisa mais romântica que alguém teria feito por ela, que na altura de seus quase trinta e cinco nunca tinha recebido uma rosa sequer em um relacionamento afetivo. Nunca, em sua vida, Helenice havia experimentado o que tinha com Thobias. Era um amor de novela.

Ao chegarem no restaurante, Thobias estava nervoso. Ao entregar o anel, fez sua amada se debulhar em lágrimas. Saíram dali rapidamente para a casa dela. Depois de uma madrugada inteira acordados, dormiram abraçados com o nascer do sol. Naquela mesma semana, já se procediam planos. Thobias a encontrou na loja de móveis planejados para poderem mobiliar um apartamento pequeno que ele tinha comprado. Ambos venderiam seus imóveis maiores para poderem investir no futuro.

Foi quando ela desmaiou. Desesperado, levou-a no hospital. O pior aconteceu: foi diagnosticado um tumor irreversível no cerebelo. Foi tentado de tudo: quimioterapia, radioterapia, até mesmo terapia de cristais... Mas nada funcinou. Ela pediu que Thobias se afastasse dela. Ele negou. Não abandonaria o amor da vida dele daquele jeito. Fez tudo o que podia: loucuras de amor, tratamentos sérios, aproveitou para realizar todos os sonhos que ela tinha.

Ela faleceu duas semanas depois. A dor que Thobias sentia era maior do que a sua própria existência. Cambaleante e embriagado, sentou na sarjeta. Observou um cão de rua passar e afagar-se em sua perna. Ele deixou. Ao menos, abreviaria o sofrimento de algum ser. Suas lágrimas vertiam por seu rosto. Tinha tido o seu grande amor por tempo curto demais. Algo tão pelo e tão puro escapou-lhe por entre os dedos. Sentia-se ludibriado pelo destino Sentiu-se um joguete na mãos dos deuses, imaginou-os rindo do alto de seus palecetes, apontando para o trôpego mortal.

Sabia que tinha dado para Helenice mais do que ela poderia ter de qualquer homem. Percebeu-se da finitude de todos os momentos pelos quais passamos, do quanto deixou deperdiçar a sua vida com pequenas coisas, picunhas sem sentido; iria procurar reaver o que havia deixado para trás. Aproveitou tudo o que poderia ter aproveitado com ela e o faria de novo, mesmo sabendo o seu desfecho. O seu amor por ela era maior do que o seu sofrimento.

Agradeceu a Deus por tê-la encontrado - levaria-a para sempre no seu coração. Ele, ao menos uma vez, havia amado uma pessoa de verdade, sem que ela nem ele usassem máscaras. Trocaria de lugar com ele, tal era o seu prezar por ela. Ele definira o que ela era para ele; amor verdadeiro. Ele iria imortalizá-la em um texto, para que sempre ela pudesse ser lembrada e por todos conhecida. Ele contaria a história de amor dos dois para o mundo. Seria o seu presente para ela. Uma obra de amor.

domingo, 3 de outubro de 2010

Das pequenas paródias pessoais

Clemente era um excelente exemplo de ser humano. Um exímio psicólogo, capaz de ajudar os pacientes solucionar os seus problemas mais profundos. Suas observações sobre o cotidiano e acerca dos seus comportamentos era exímia como o olho do falcão. Tinha demorado alguns anos para desenvolver este bom senso, mas o esmero na sua realização trouxe, em seu bojo, uma elevada ascensão profissional tão desejada pela sua história de vida tão sôfrega.

A sua necessidade laborial advinha da necessidade da sua figura paterna ter perdido sua capacidade laborial mediante um acidente, o qual ainda não havia sido julgado pela justiça do trabalho - culpava-a por isto, embora nada tivesse a ver com o fato desta mesma empresa ser de um filho de um grande Senador da República. Com isto, teve que sustentar ele, sua irmã, mãe e pai. Nada nunca havia sido muito fácil para ele. Por isto, decidiu-se colocar de lado mediante a necessidade do próximo.

Vivia seus dias assim, trabalhando várias horas em seu consultório, tendo pouco tempo para o lazer. Nem as constantes reclamações de sua mãe para que moderasse o seu tempo de trabalho eram levadas em voga: ele apenas sorria e dizia que precisava disto, não somente por ele, mas também pela família dele. E que ele faria qualquer coisa pelo bem-estar daquela família. Com o passar dos anos, ao atingir trinta e cinco, ele começou a trazer sintomas da infância à tona.

Pesadelos constantes, atopicidade e asmas tornaram-se frequentes. Sua esposa, cada vez mais fria e distante, apenas o acusava de nunca poder dar para ela o que ela desejava. E sempre acusava-o de se importar mais com a família dele do que com ela, jogando sempre a culpa por isto em seus pais. Logo eles, que a tinham adotado como uma filha. Neste momento, sentiu uma dor aguda no peito. Seu braço esquerdo apresentou uma relativa paralisia e não havia mais sinais de hematose pulmonar. Algo negro o envolveu e caiu.

Foi ressucitado por uma enfermeira, de nome Bellatriz. Ela fez todos os procedimentos devidos, apenas havia sido uma PCR temporária. Ajudou-o a levanta e o levou para um canto, para que pudesse verificar melhor seus procedimentos orgânicos. Ao beber um suco, Clemente começou a desabafar. Falou compulsivamente sobre tudo o que estava acontecendo, aos olhos atentos daquela bela enfermeira. Ela o observava atentamente.

Ao final de sua catarse, entre lágrimas, quase, ela afagou a sua mão. Havia meses que não se sentia tocado assim por ninguém, ainda mais por uma mulher bonita e cheia de compaixão. Deixou seus devaneios de lado e apenas agradeceu. Ele resolveu ir embora, antes que pudesse afundar um casamento já comprometido por amargura e solidão. Ele não se daria nenhuma oportunidade de fazer nada, mesmo que fosse uma oportunidade de ser feliz.

Duas semanas depois, ele estava em seu consultório pensando em tudo. Estava revoltado, pois sua secretária havia faltado e seu paciente também desmarcara a consulta. Resolveu, então, descer para ler o jornal e procurar tomar o seu desejejum, já que seu estômago vivia constamente embrulhado por causa da sua esposa. Ao chegar a padaria, pediu algo gostoso e que lembrava sua infância: pão na chapa - a gordura da chapa não lavada o fazia ainda melhor - e um café com leite. Ao sentar-se na mesa, deliciava-se com sua refeição.

Uma mão tocou-lhe o ombro e perguntou como ele estava. Ao virar-se, de súbito encarou Bellatriz. Surpreso, beijou a sua face, sentindo a suavidade de pêssego que era a sua pele. Convidou-a para sentar e conversaram horas. Daquele encontro, surgiram vários outros. Beijos, inclusive. Amor. Demorou apenas alguns meses para que pudesse seguir a sua vida e optar por alguém que o fazia feliz. Foram meses de sofrimentos e angústias, de sentimentos extremados. Voltou ele próprio a fazer terapia depois de anos de abandono e conseguiu realizar o seu sonho: ser feliz ao lado de uma esposa que o amava, com três filhos e um casal de cachorros. Aprendeu com o amor dela, acima de tudo, a ter clemência por si mesmo.
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