segunda-feira, 26 de julho de 2010

Jocimar e Antonieta

Jocemir era um tímido poeta. Gostava de ser poeta porque via beleza nas pequenas coisas do mundo, embora sofresse com isto. Vivia uma montanha-russa emocional, mas tinha se acostumado a ela durante todos estes anos. Após algumas desilusões amorosas, foi-se enamorar por Antonieta, uma mulher linda e exuberante. Achava que nunca conseguiria alcançar as expectativas dela, por isto preferiu deixar toda a relação que tinha com ela relegada ao amor platônico.

Encontravam-se, sempre às tardes e conversavam em um café próximo ao trabalho dela. Ela o tinha procurado uma vez, por intermédio de uma amiga, para que pudesse ajudá-la a atravessar uma relação difícil pela qual estava passando. Ele, sempre solícito, foi ao encontro dela. Nos dias de semana, sempre estavam lá para conversar um com o outro. Por vezes, quando não havia assunto, inventavam algum. A sincronicidade era aparente e, aos poucos, foi-se tornando intensa.

Até que, depois de algumas semanas, meses transformaram a relação deles em algo puro e bonito. Não que Jocemir fosse dar um passo à frente, longe disto: mantinha-se distante. Contentava-se com o toque dela, nas vezes em que eventualmente esbarravam um no outro, na mesa. Antonieta, por sua vez, achava interessante aquela figura. Fascinava-a ver como tratava o ser humano com uma candura e cuidado ímpares. Até que, um dia de segunda-feira, ela veio com uma novidade.

Ela iria fazer um treinamento para poder assumir uma função de chefia. Ele alegrou-se e muito com a idéia. Mas, quando ela relatou que ficaria alguns meses fora, ele simplesmente não conseguiu esconder a tristeza. Quando ela perguntou o que tinha acontecido, ele afirmou que nada havia ocorrido, ele somente estava feliz ao ver que ela iria voar mais alto dentro da empresa. Falou que todo bônus exigiria um ônus e que ela deveria entender isto como uma forma de cada vez ir mais longe.

Ao final da conversa, ele esperou-a sair para chorar. Baixinho, como costumava fazer. Desejou nunca a ter conhecido por ser covarde demais para tomar a atitude que deveria tomar. Resignou-se; de nada adiantaria agora. Ela estava indo embora e, provavelmente, iria conhecer um homem não melhor do que ele, mas pelo menos que fosse mais firme em suas decisões. Melancólico, foi para casa. Tomou uma longa ducha quente. Sentou-se, no chão, sentindo o frio dos azulejos constratando com a água.

Ao término de quase uma hora, saiu de lá. Resolveu, então, tomar coragem para fazer algo. Riu de si mesmo e lembrou-se de um texto que escrevera há algum tempo: em resumo, falava do amor de um homem por uma mulher que só se concretizou quando ele teve a certeza de que poderia perdê-la. Balançou a cabeça, tentando apagar aquela ironia latente e concentrar-se na sua atividade. Iria tentar demonstrar o seu afeto por ela, mesmo que fosse tarde demais. Do seu jeito, arriscaria.

No dia seguinte, Antonieta o esperava no café. Chovia um pouco, e ela pediu um café antes dele chegar. Ao entregar o café, a garçonete entregou-lhe um bonito envelope. Ela estranhou. Abriu-o. Estava escrito assim:

"Carta a um amor não-dito

Cara Antonieta,

Sei que nunca disse o quanto você é importante para mim. Uso tão bem as palavras nos meus textos, mas lá elas sempre estarão seguras, nunca machucarão de onde elas são concatenadas. Mas com as pessoas é sempre muito difícil para mim. Não porque não as amo; creio que é porque as amo demais. Na maioria da vez, um amor fraterno. Destarte, devo avisar-te: não é somente este amor que cultivo por ti no âmago do meu ser.

Dos meus lugares mais recônditos, vibro cada vez que a vejo. Não desejo perder-te nunca em minha vida, acredito que seja esta a razão pela qual nunca expressei tudo o que sinto por ti. Agora, diante desta anunciada separação, sinto-me vazio. Parece-me que puxaram o tapete de meus pés. Perdoe-me o meu sentimentalismo, mas tento ser o mais objetivo possível com sentimentos - tento ser, mas não consigo. Vê minha dificuldade?

Vou dar lugar ao azo e fazer disto o que tenho a intenção: eu te amo. Amo-te tanto e de maneira tão grande que sua simples ausência me faz perder os sentidos. Tudo aparenta agora ser cinza e sem graça, nem mais o que me fazia rir me faz... A única exceção é quando lembro de ti. Nossas horas juntos - permita-me usar nossas - sempre tão repletas de infindos sentimentos que nem ao mesmo sei classificar. Tudo o que tenho escrito e pensado nestes últimos meses é único e exclusivamente teu; tens sido minha musa inspiradora, mesmo sem saberes.

Nada disto importa agora: estás partindo. Saibas que sempre terá o meu porto seguro na tua volta, poderás recostar no meu ombro e contarás comigo nas horas mais obscuras dos dias mais tristes. Quero, contudo, ressalvar a possibilidade que contes comigo também para os dias felizes - mas são nos tristes que contamos em quem mais confiamos, não? Serei tudo isto para você hoje e sempre, desde que possa entender que ver-te hoje seria matar-me um pouco. Perdoe-me a covardia.

Do seu,

Amor."

À medida em que lia a carta, Antonieta emocionava-se a cada linha. De parágrafo em parágrafo, sentia-se querida como nunca por alguém por quem sempre teve estima, mas também não quis dar um passoa adiante. Identificou-se com a covardia e alegrou-se com a proposta. Aquele homem maravilhoso e único, que sempre a tratara como nunca fora antes em toda a sua vida, estava abrindo o seu coração para ela. Ela só poderia tomar uma atitude.

Enquanto Jocimar tentava distrair-se com a televisão em casa, sentiu fome. Pediu uma pizza. Esperava-a chegar enquanto reclamava com o operador da tevê à cabo pela ineficiência do serviço prestado. Bateu o telefone na cara dele. Tanto a fome quanto a sua angústia tinham-no feito maltratar um ser humano. Não gostava disto e nem estava acostumado. Pegou o telefone para discar de novo, mas escutou a campainha. Alegrou-se: pelo menos aquela penúria iria passar.

Ao abrir a porta, viu Antonieta. Linda. Parecia um raio de sol, em um dia nublado como aquele. Em um gesto tímido, convidou-a para entrar. Ao fechar a porta, virou-se e observou que ela estava na sua frente. Reparou que seus lábios tremiam um pouco: estava molhada por causa da chuva. Imaginou que ela tinha andado cerca de dez quadras para chegar à sua residência. Disse para ela que pegaria uma toalha, mas ela segurou a sua mão.

Olhou-a fundo nos seus olhos negros e dali em diante, amaram-se. Todas as dores e desesperanças, todo amor retraído por aqueles dois fluiu numa intensidade tamanha que amaram-se por horas a finco. A mera menção de parar por uma das partes apenas fazia a outra incentivar e encher de mais desejo algo que já não tinha uma medida. Ao final, exaustos, riram-se timidamente: ambos, do seu jeito, deram um passo a frente rumo à felicidade de ambos. A ironia era a que os obstáculos eram transponíveis, embora doridos. Mas, após isto, tudo valeria à pena.

sábado, 17 de julho de 2010

Rachel

Rachel estava tentando enterrar um grande amor. Começou a se afastar dele, pedindo um término. Daí poderíamos inferir que tudo estaria acabado e que ela própria teria virado a página daquela história. Estranhamente, para uma mulher tão decidida, fatos atípicos estavam começando a ocorrer em sua vida.

Crises de choro pela ausência do objeto amado. Falta de apetite. Perda gradativa dos estímulos sensórias de seus neuroceptores, com exceção dos nociceptores – este aumentava seus impulsos de uma maneira exacerbada. Visitava constantemente a página de contos dele e nem ao menos vou descrever a quantidade de vezes que acessava a página de relacionamentos dele.

Acrescentaríamos mais um sintoma: tinha percorrido em direção às terras estrangeiras, ansiando por vê-lo – não que tivesse marcado um encontro, mas buscava tê-lo por perto nos mínimos referenciais possíveis. Iria ela descobrir o caro de preço de se tentar conter a força do inconsciente. Desejava ser menos mecânica e mais botânica. Lembrou-se do Mágico de Oz e daria de bom grado o seu coração para o Homem de Lata; ela desejava arrancá-lo do peito, pois o mesmo a dilacerava por dentro.

Ela, ainda negando, buscava o afeto dele, como queria isto: mesmo que fosse através da dor. Ele lhe havia proporcionado tanto prazer, com as palavras certas nas horas exatas, os sussurros caprichosos ao pé de seu ouvido... E o tamanho do amor pulsante que ele nela introduzia pelas mais diferentes vias. Ela sentia falta de todas essas miríades de possibilidades, ainda mais por todas as prometidas e não realizadas.

Tinha a sensação de que tentava tampar o vazamento de uma represa com uma rolha; havia se emaranhado em sua própria teia. Se tentasse sair dali, teria que deixar uma pata ou duas. O que no início tinha vindo como uma brincadeira de criança, evoluiu a um jogo de adultos até se locupletar na devassidão dos amantes. Pensou numa ridícula situação: ela, que tinha acabado por terminar com ele, por medo de ser feliz, poderia não mais tê-lo por medo que ele tivesse de se machucar caso mudasse de idéia.

Transtornou-se com este mero fato. Ela tinha tocado o seu coração, e, mais ainda, deixou que ele tocasse o seu, derretendo as mulheres gélidas por ela erigidas. Sentia-se acuada e pequena. Lembrou-se da música do Renato Russo: “ Te ver é uma necessidade / Vamos fazer um filho.” Após isto, verteram lágrimas mais intensamente do que antes, coisa que ela já achava impossível: cria que já não tivesse mais lágrimas de tanto que já tinha se debulhado nelas.

Fazia dias que dele não tinha notícias, dias que pareciam imensas eternidades. Rachel nunca saberia as coisas que poderiam ter acontecido. Iria odiar-se descobrisse o fato de que ele quase fora no mesmo lugar que ela, em suas terras, mas não teve coragem de sair da cama pela dor que a separação lhe impingia. E o mais interessante... O que ela faria se o visse? Já o procurava em todos os lugares de lá, desejosa disto; queria encontrá-lo "por acaso", para que não parecesse que havia ido lá só para isto.

E também nunca saberia que o seu amado, ao sair do trabalho às quatro da tarde, procurou o corcel negro de sua donzela e assustou-se ao encontrá-lo: porém, não o dela. Ele não entendia o porquê daquele sofrimento, o porquê da separação. Resignou-se ao pensar que ela achava que nunca o faria feliz ou que faria a ele coisas horríveis. Só assim para poder ele prosseguir em sua seara. Poucas lágrimas rolaram pelo seu rosto... Ele, agora, já estava ficando sem elas.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Josimar e o gris

Chovia naquela sexta-feira tristonha. Enquanto Josimar andava pela rua, em direção ao seu prédio, um gosto de amargo subiu-lhe a boca. Não teria mais a sua linda mulher para lhe tirá-lo com palavras gentis, carinhos ou calorosos beijos. Seu relacionamento tinha chegado ao beco sem saída onde, inevitavelmente, um dos dois pede para sair dele. E, no caso do relacionamento dele com Bertália, tinha sido Bertália.


Antes de entrar na viela que conduzia a seu prédio, apreciou aquele momento. Era um momento de solidão, algo meio gris; o vento zunia-lhe pelas orelhas, sussurrava palavras de pranto. A chuva que precipitava, misturava-se com suas lágrimas em algo poético e doloroso. Como pôde perder alguém que lhe era tão caro, ainda sem entender? Como as pessoas saem de nossas vidas, pedindo desculpas, mas saindo das nossas vidas? Como alguém que não quer sair, opta por?

Tudo isto não ajudava em nada. Parou. Aumentou a intensidade da chuva e ele se deixou matizar por ela. Notou que desde que ela foi embora, não parava de chover. Até o céu estava triste com a separação daquele belo casal. Deu de ombros: não havia mais nada que pudesse fazer. Fora até o seu limite, suportando todas as intempéries e buscando sempre pensar no lado de Bertália. Sobrou-lhe, então, o último argumento do herói romântico.

Ela pediu a separação. Ele aceitou. Sabia que o amor era como um pássaro, devia ser deixado livre para ver se voltava para o seu caloroso ninho. Após ficar um pouco encharcado, adentrou na portaria e tocou o botão do elevador. Pensou que tinha deixado o celular em casa para não esperar por uma ligação dela. Riu-se do quão nécio estava sendo: pensava o tempo todo nela e em como ela poderia a qualquer momento ligar.

Abdicou de criticar-se mais – já estava sofrendo mais do que o suficiente. Não conseguia trabalhar, nem sair, nem pensar em mais nada a não ser a falta que ela fazia. Questionava-se se ela sentia o mesmo. Nunca saberia, contudo. Ela não ligaria nunca mais. Nunca mais os beijos, nunca mais o romance, nunca mais a voz dela rouca e sua risada em espiral, linda, que sempre o fazia admirá-la.

Ao entrar em sua casa, escutou “Pedaço de mim”, do Chico Buarque. Parecia realmente o reverso da dor de um parto. Tentou escolher um vinho na geladeira, mas era a marca preferida dela. Desisitiu. Balançou a cabeça e desligou o som. Gostava tanto daquela mulher, com tamanha intensidade, que mesmo que sofresse era como se ela estivesse perto dele, mesmo que fosse em memória, mesmo que fosse no momento mais agudo de seu pranto. Estava tentando se acostumar com a idéia do nunca mais.

Tomou uma ducha quente. Ficou bons minutos ali, tentando fazer com que a água levasse a angústia embora. Tentou distrair-se com qualquer coisa, para que Morfeu o arrasta-se daquela terra e pudesse, ao menos, sonhar com ela algo feliz e bonito. Algo que pudesse honrar tudo aquilo que ele haviam vividos juntos: um amor bom, puro e belo. Mas que tinha acabado o seu prosseguimento, deixando um devastado campo de dor.

Ariadne

Ariadne estava confusa. Sentia-se como uma criança que vai a loja, escolhe o brinquedo meses antes de seu aniversário e, quando retorna até lá, na ansiedade de que ele esteja... Descobre que ele está lá. Daí, não é este só o problema: é o medo de levar aquele brinquedo tão sonhado para casa e ele não corresponder a tudo aquilo que ela imaginou. Só que ela não estava escolhendo um brinquedo.


Ela estava escolhendo um relacionamento. Na verdade, estava escolhendo ter ou não um relacionamento com um homem que parecia ser tudo o que ela sempre pediu, como a menina que vai a loja. Ele, porém, quando chegou, assustou-a. Primeiro, ela pensou que não era merecedora daquele amor. Depois, achou que não poderia fazê-lo feliz. A seguir, resolveu terminar com ele pelo fato de que preferia evitar sofrer no futuro.

Ariadne pensou assim: melhor agora, do que mais tarde. Resignou-se, com o fato de que não preferia arriscar. Lembrou-se da música “O medo de amar é o medo de ser livre” e lembrou que nunca a tinha escutado. Naquele momento, o que ela mais desejava é ter sido mais “Fé cega, Faca amolada” para que pudesse ter escolhido por ele. Entregou-se a sua característica de não arriscar.

Em um segundo momento, pensou: “Como assim eu não arrisco?”. Lembrou por tudo o que tinha passado, relacionamentos, escolhas profissionais difíceis e, acima de tudo, escolhas familiares. Ela, em tudo, tinha conseguido mais do que medianamente ultrapassar vários obstáculos. Como uma mulher como ela poderia ser tão vacilante no amor? Sofria muito com isto. Queria ser feliz, mas tinha medo de dar o primeiro passo em rumo a liberdade.

Lembrou-se da tatuagem de borboleta azul na nuca, a qual nunca realizou. A seguir, das aulas de surfe que nunca tomou. Percebia, então, um vácuo na sua vida em aproximadamente quatro anos. Não é que ela fosse acostumada a ser infeliz, tinha se submetido a uma dose diária de infelicidade na qual o seu amor tinha lhe aberto os olhos. Isto dói... Lembrou-se do conto da caverna, de Platão. Lembrou-se de como era difícil sair da caverna; sabia que, ao sair daquela onde se encontrava, poderia ser feliz.

Parou. Iria racionalmente pensar na situação. Era algo novo, tudo bem; conquanto, o que ela estava vivendo era bem pior. Pensou que poderia levar adiante e projetou no futuro, daqui a uns cinco anos. Lembraria ainda dele como a pessoa mais especial de sua vida, tendo se tornado uma pessoa um pouco mais amarga por não ter optado por ele. Poderia relevar isto? Avançou mais cinco anos... Com quem ela envelheceria? Como ela envelheceria sem ser amada daquele jeito?

A projeção parou só em dez anos. Ela tinha trinta. Qual seria a escolha do seu coração? Ah... Isto ela já sabia de cor e salteado, perdoando o pleonasmo. Por que, então, era claudicante ao dar o próximo passo, em direção a sua liberdade? Só se... Se estivesse acostumada a ficar infeliz. Era isto... Foi a sua resposta. Sorriu, até para ela: poderia ter decidido agora. Mas não decidiu.

Se era a melhor escolha, por que estava doendo nele e nela? Nele... Como será que ele estava? O que ele estaria fazendo? Será que ainda a amava? Será que poderia perdoá-la por... Perdoá-la? – “Por fazê-lo sofrer.” – disse ela, a sua própria consciência. Ela lembrou de uma frase dele, muito bonita e tocante: “Perdoaremos tudo um do outro, desde que estejamos juntos. Afinal, só perdoamos aqueles que nos arriscamos para termos.”

Agora... Depois de lágrimas, lenços cheios de material nasal jogados fora, dias passados usando o mesmo pijama, a tormenta que lhe afligia iria passar? Não iria. Ela ainda não tinha se decidido: nem pela felicidade nem pela sua continuação daquele estado. “Ele poderia liga”, pensou ela, esperançosa. Olhou para o celular. Não havia nenhuma ligação. Percebeu que olhava várias vezes o celular, a página de relacionamentos, o correio eletrônico... Qualquer sinal de vida que ele pudesse dar.

Desabou, mais uma vez, na poltrona da sala. Tudo lembrava ele: os seriados, os comerciais, as músicas, os gostos... Percebeu que, agora, a comida não tinha sabor, o perfume não tinha cheiro, as cores do dia pareciam mais cinzas, tudo... Tudo estava desbotando. E ela também estava desbotando. Ela falou para o seu pintor, com sua aquarela, parar de pintá-la com seus lindos sentimentos. O que ela faria agora?

Ou, para verem e ouvirem: http://www.youtube.com/watch?v=KeAKxiPUBLE

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Joseanne

Joseanne estava sofrendo. Mesmo sendo uma mulher competente profissionalmente, nos altos dos seus trinta e três anos, ela sofria de amor. Havia tido a oportunidade de provar um amor tão puro e belo, mas resolveu não apostar suas fichas nele. Nos aproximadamente seis meses que vivenciou esta experiência, sentiu-se a mais valorizada das mulheres. Não havia palavras para poder descrever o que sentia: o seu antigo parceiro conseguia realmente a deixá-la nas nuvens.


Ela, porém, sentia-se insegura em relação justamente a medida deste amor: se ela amava-o tanto, qualquer coisa, por menor que ele fizesse, poderia abalar a concepção dela na experiência deste amor. Um dia, como todo casal, discutiram por uma infinidade de pormenores. Pequenas coisas, do dia-a-dia. Após a discussão, tudo estava se aprumando. Foi quando ela se perguntou se deveria seguir adiante.

Não é que não mais se visse como mulher daquele jovem, não mais que ele não o fizesse feliz ou, tão pouco, que o amor deles não fosse verdadeiro: ela simplesmente cogitou a possibilidade de um dia ele ir embora. O que ela faria quando o outro vai embora, deixando claro que não poderia dar mais certo. Ele sempre dissera isto:

- "Tem que estar bom para os dois, senão tem que conversar. As coisas sempre se acertam enquanto ainda nos amarmos." - dizia ele, carinhosamente e sorrindo.

Isto tudo parecia-lhe estranho. Um amor tão grande... Como faria se fosse perdê-lo? Em nenhum abrigo poderia recorrer, o seu tão querido e caro amor tinha ido embora. Tinha ido? Nada disto ainda sequer tinha acontecido, mas isto... A possibilidade de perdê-lo depois de algum tempo já a vinha assombrando. Resolveu, então, como toda boa médica, tolir o mau pela raiz: dispensou o seu tão caro amor.

E ele foi embora, choroso, triste e nauseabundo. Ela tinha tomado a decisão certa. Chorou, bastante. Como poderia ter tomado a decisão certa se ela sofria? Procurou algo para ler, adentrando em sua biblioteca. Um de seus hábitos era ter vários livros em casa, além dos de medicina. Achou um texto sobre dor e amor. Obviamente, um autor de qualidade, ela sorriu, antes de, novamente, chafurdar-se em lágrimas.

Leu o quanto era importante o sofrimento ser apenas opcional. E era. Mas o sofrimento só poderia ser opcional, dizia o texto, quando se arriscava. Ela chocou-se, nunca gostou de se arriscar, sempre preferiu a vida reduzida a um status quo, algo controlável. Um trauma de infância da perda de uma tia a fez virar médica e ter sempre medo de perder alguém adorável em sua vida. Por isto, ela preferia terminar do que a pessoa ir embora.

Sentou em sua poltrona, admirada. Colocou as pernas pra cima, ajeitando-se. Apoiou a sua cabeça no braço e lágrimas rolaram. Ela não tinha feito tudo o que poderia para poder assegurar o seu presente feliz. Não sabia o que fazer. Lembrou-se do filhote de elefante que fica preso por uma corda a um pedaço de madeira. Depois de algum tempo, ele já é adulto e, mesmo assim, continua ali preso por achar que aquilo o detém.

Balançou a cabeça, estava cheia. Queria esvaziá-la de algum modo. Dirigiu-se ao seu som e colocou uma música que a fazia lembrar dele: era natural, todas as músicas lembravam dele. Ele permeava cada essência do seu ser, mesmo estando distante. Foi, então, até a geladeira - o vinho com certeza a faria pensar de lembrar dele. Ledo engano. Sua tentativa infrutífera foi atirada nela mesma, pois lá estava a garrafa do vinho preferido do dois.

Sentia-se como uma mocinha, perseguida por fantasmas, em um filme de terror - fantasmas, contudo,  provocados pelo vazio de seu coração. Vacilava com sua decisão, questionava-se se era o melhor caminho a ter tomado em sua vida. Já não sabia mais se valeria a pena manter o status quo: eis que a razão afirmou prontamente que sim enquanto o coração veementemente... Ah, eles ainda iriam travar longos conflitos até uma solução. Se ela conseguiria arrancar aquele amor de seu peito ou se o amor iria fazer a razão mudar de idéia... Esta é uma curiosidade com a qual todos ficaremos.

Olá Blogueiros!!!!

Estou postando também os vídeos dos contos no Youtube. Sempre que possível, vou colocá-los aqui. Já há no Youtube:

A uma sem nome: http://www.youtube.com/watch?v=bfkXpg1kYAw
Theobaldo e o dia chuvoso: http://www.youtube.com/watch?v=tpdjo7WLIAU
Genésio: http://www.youtube.com/watch?v=cgLwjZi0YTw

Acessem!!! :)

Genésio

Genésio era um homem feito na vida. Tinha quase seus trinta anos e conservava um extremo bom humor e competência profissional. Sempre estava insatisfeito com o seu progresso dentro das empresas, desejoso a todo tempo de voar cada vez mais alto. Sentia um vazio, conquanto, ao chegar em sua casa e apenas ter o papagaio Pepe (tinha lhe sido dado por um amigo argentino) e uma secretária eletrônica sempre vazia. Todos que falavam com ele ligavam para os seus celulares - tinha três, ao todo.

Ele enamorou-se por uma médica um pouco mais velha do que ele. A princípio, a relação poderia ser resumida a "Fogo e Paixão", do Wando, no sentido de como era ardente o amor entre eles. Já o vocabulário proferido pelo casal, poderia se encontrar entre um dos mais peculiares do Dicionário: trocavam palavras difíceis como quem troca olhares de amor. E assim, foi-se indo a relação deles, até um dos dois inevitáveis fins: ou a morte de um, ou a morte da relação.

Ele não entendia a falta de vontade dela de mudar. Como poderia fazer de algo tão belo, um de cujus tão insipiente? Resignado, permitiu-se ficar triste. Era avesso a sentimentos, contudo naquele momento o que mais desejava era entender o seu presente. Não sabia exatamente como poderia fazer isto, mas sabia que poderia realizar de alguma forma. Lembrou-se, então, de uma antiga namorada de infância. Ligou para ela com o pretexto de pegar algumas fotos antigas.

Após um reluto dele em adentrar o domícilio dela, ele ficou alegre com a capacidade como foi bem recebido: não esperava isto, pois fora ele quem tinha extinguido a relação. Ela, então, perguntou a ele o que havia acontecido. Chorou feito criança, sendo acolhido por aquela mão amiga. Conversaram bastante, sobre tudo o que havia para ser dito sobre o problema dele e também sobre a relação dos dois. Houve uma pausa breve, um sorriso tênue por ambas as partes.

Sabiam que tinham encerrado a carreira deles como homem e mulher, entretanto estavam ali para um ajudar o outro. Sentiram-se felizes. Ele a levou ao emprego e desejou boa sorte no próximo relacionamento que ela estava esperando: uma apresentação despretenciosa para um amigo, de uma amiga. Ele sorriu e lembrou que parecia algo de adolescente, quando se ficam paquerando de um lado da festa até que um dos dois tem coragem para poderem conversar. Ela também sorriu e despediu-se.

Genésio tinha ido ao passado e agora entendia pelo que sofria. Ouviu várias histórias e seu dia estava, de triste, se transformando em atípico. Não sabia quantas nuances poderia esperar para algo tão diferente. Sabia, aliás, que o inevitável futuro estava chegando. Ele viria zunindo, como um mosquito que te acorda à noite, demonstrando a sua existência. Seria, porém, mais alegre do que o presente, isto com certeza. A beleza de se esperar pelo futuro é sempre o de que algo novo pode acontecer. E, se me permitem uma licença poética enquanto narrador, bem mais cedo do que se imagina.
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