sábado, 10 de abril de 2010

O xadrez

João Pedro era um exímio jogador de Xadrez. Tinha derrotado quase todos os grandes nos circuitos nacionais, mas mesmo assim nunca conseguia prosseguir adiante daquilo que fazia e fazia muito bem. Ele tinha um grave problema: nunca sacrificava seus peões. Ele tinha uma predileção especial por estas peças do tabuleiro. Talvez algum Complexo de Édipo mal-resolvido com sua genitora, Dona Berenice, João Pedro sequer conseguia colocar uma peça desta a perder.

Ele demorava horas no seu jogo, sem nunca conseguir arriscar algo novo. Ele simplesmente fazia o seu mesmo jogo de sempre e conseguia, com ele, manter a segurança necessária para o prosseguimento de seu pequeno jogo lucrativo. Tinha alcançado altas cifras, principalmente as ligadas a um planejamento estratégico, dizia ele, calgados em passos seguros e sólidos.

Era infeliz, na maior parte do tempo. Nunca buscava realizar algo novo em sua vida e nunca buscava inovar. Vivia sempre no marasmo do seu cotidiano. Era mais seguro ser infeliz do que arriscar um lance novo no jogo e acabar a partida antes de suas quatro horas habituais. João Pedro tinha medo do futuro e, enquanto pudesse, jamais prosseguiria com um passo novo. Seria a eterna lagarta presa no casulo, sempre a um passo de desabrochar para o mundo, mesmo que fosse por vinte e quatro.

Porém, a vida, tão diletante vida, ela nos atropela por vezes como um caminhão. Enquanto João Pedro desafia um jovem e novo adversário (aproximadamente cinco anos e meio mais novo do que ele) jogava seu mesmo jogo. Porém, aquele adversário nanico, de óculos e cabelos cerrados megros lhe encafifava. Ele o desafiava de uma tal maneira ilógica e irracional que ele jamais conseguiria explicar em termos quantitativos racionais.

Seu adversário sempre dizia: "A vida, por vezes nos atropela feito um trem... E devemos saber lidar com o que acontece após isto. Devemos saber aproveitar a viagem". Viagem, trem, tudo... Tudo aquilo parecia impreciso para João Pedro. Para ele, a vida não era feita de sacrifícios. A vida era algo seguro e quantitativo lógico-matemático, algo mensurável, palpável... Algo que nunca deixaria sua zona de confiança, sua zona de conforto. João Pedro nunca arriscaria.

Porém, viu uma oportunidade de acabar de vez com aquele duelo daquela pessoa metida e diletante, daquele ser repugnante por falar tantas verdades, daquele pequeno sapo que nunca seria um príncipe de conto de fadas... E João Pedro tomou-lhe a Rainha. Seu adversário, ao invés de ficar aturdido, simplesmente sorriu a jogada de João Pedro. João não tinha entendido o que tinha acontecido, até o próximo lance.

Seu adversário sacrificara um peão, daqueles que João nunca faria. João o tomou com seu bispo, com uma facilidade inacreditável. Foi quando abriu-se uma avalanche no tabuleiro. Com três jogadas, seu adversário tinha feito duas rainhas. Duas. João não entendera e perdeu o jogo naquele dia. Ficou dias pensando sobre aquele assunto, sobre como alguém poderia ter derrotado sua técnica tão racional.

Seu adversário lhe respondeu: "Não se preocupe... Depois de ter tomado o gosto da liberdade e do risco por ter tido seus lances no tabuleiros, suas jogadas diferentes... Nada mais será o mesmo. Tudo será modificado, seus valores serão tocados de maneira tão interna que irão se revirar pelo avesso. Não só no jogo, mas em toda a sua vida. Teve uma oportunidade única de ter jogado desta maneira. Aproveite."

João pode não ter entendido todas as frases exatas, todos os gestos e nuances... O vinho doce, porém temperado com o doce amargo da derrota, o fizera refletir sobre tudo aquilo que tinha acontecido. Percebera que não poderia ter metade de uma coisa, muito embora uma metade lhe trouxesse a mera satisfação de ter algo para guardar. João deveria arriscar o tudo ou nada, sabendo que poderia ser feliz ou não. Mas sabendo, fundamentalmente, que poderia se tornar melhor depois daquilo.

Se João e o novo jogador se tornaram amigos e confidentes, ninguém sabe. Apenas sabe-se que João tem refletido muito no que significou aquels poucos lances naquele intrigante e inusitado tabuleiro, que trouxeram tamanha surpresa a João que não podia ser medida com nenhum tipo de calculadora ou trena humana... Poderia apenas ser sentida. E como sentida e doída era a derrota, mas como a possibilidade de uma nova vitória sobre o mesmo desafiante lhe traziam (?) uma certa coragem (????) para poder concluir (??????) a jornada?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Atrópico e a Indecisão

Atrópico era um ser perturbado. Era indeciso por natureza. Nunca conseguia escolher nada. Nunca ia a restaurantes a quilo porque era tamanha a gama de opções que tinha lá que ele simplesmente se perdia. Acabava misturando salada de batata, com macarrão a bolanhesa, purê de batata, arroz, feijão e farofa. Aprendeu, com um amigo, a ir sempre em restaurantes de prato feito. Era mais fácil.


Atrópico tinha chegado a um estágio da sua vida que se questionava porque era tão indeciso. Passava horas, dias... Por vezes até semanas pensando no porquê. Poderia ser algo causado na fase oral da sua infância, algum trauma irreparável a não ser por décadas de terapia psicanalítica freudiana combinada com vários tipos de psicofármacos. Mas nada disso adiantaria.

Poderíamos dizer que ele era um frouxo no cotidiano. Nunca escolhia suas namoradas, nunca escolhia seus amigos, nunca escolhia nada. Por sorte, ou algum Deus maluco bancando uma de bonzinho nas horas de folga, foi parar em um trabalho que ele não precisava fazer absolutamente nada. Contava, somente. Era contador. Não precisava fazer nada naquele emprego, apenas contar números de estoque. Com um formulário padrão, tudo certo, ele nunca precisaria escolher.

Sua mulher atual (já havia se separado duas vezes: nenhuma mulher o aguentou e o traiu com o Josemar) também já não o aguentava mais. Mas Atrópico apenas prosseguia na sua triste caminhada rumo a um Buraco Negro cada dia maior. Não iria a lugar algum na sua vida, um pobre cachorro correndo atrás do próprio rabo. Era um coitado.

Certo dia, quando não conseguia se decidir se atravessava a rua ou não, foi atropelado por uma bicicleta. Bateu com a cabeça na calçada e desmaiou. Acordou dias depois em um hospital. Por sorte, ou azar, o traumatismo craniano não lhe deu qualquer sequela, como uma amnésia temporária capaz de mudar sua vida, como em uma história romântica do cotidiano.

Não, meus amigos, esta história é cinza. Cinza como a vida. Atrópico continuou seu mesmo não-caminho. Após sua atual mulher tê-lo deixado, ele resolveu fazer algo impensável. Ele resolveu dar fim a sua trôpega existência. Tinha decidido não mais viver sobre a ditadura de ninguém, decidiu que ali ele poderia dar fim a sua agonia existencial. Ele, de uma vez por todas, decidiu tomar conta do seu destino.

Pendurou uma corda no teto. Fez um nó que aprendeu no tempo dos Lobinhos. Subiu em um banco e, num momento entre lágrimas e desespero, chutou o banco para o lado. enquanto pendurado pelo pescoço, entrou em desespero por não ter escrito um bilhete de suicídio. Tentou se desvencilhar do laço que tinha feito, mas era apertado demais. Debatia-se inutilmente em busca de tentar, ao menos, deixar sua marca no mundo. Tudo apagou.

Mais tarde, de volta ao mesmo hospital, descobriu que ele não tinha morrido. Ele fez o nó belíssimo, porém a corda não aguentou seu próprio peso e cedeu. Tinha sentido algo diferente dentro dele, agora sim ele poderia mudar a sua vida. Agora sim ele poderia fazer algo de diferente e poderia sim ser senhor dele mesmo. Talvez o suicídio tenha sido apenas a peça inicial, o primeiro peão sacrificado no tabuleiro da nova vida que Atrópico decidiu assumir para ele.

domingo, 4 de abril de 2010

Um conto de Páscoa...

Hoje é domingo de Páscoa. Apreciamos o sentimento de Páscoa normalmente junto aos ovos de chocolate. Uma mistura de proteínas, gorduras... E flavonóides, com ação cardioprotetora. Se devem as estas substâncias o fato de apreciarmos tanto o chocolate e não em relação as endorfinas que ele libera ao ser ingeridos por nós.

Tirando o chiste jocoso inicial, poderíamos falar da Páscoa em vários sentidos. Os judeus consideram neste mesmo período a libertação do seu povo do jugo do faraó; os cristãos consideram a ressurreição de Jesus Cristo; os """pagãos""" associavam este culto à Deusa da Fertilidade (o termo Coelhinho da Páscoa vem da Lebre que suas sacerdotisas abriam as entranhas para ler a sorte da pessoa) e deve-se ao povo pagão o fato dos ovos pintados com runas, agora com cores.

Mesmo assim, poderemos tentar buscar um sentido primitivo para este termo, não importando o tipo de lente que usamos em nossos óculos do cotidiano: judáica, cristã, pagã, espírita, hinduísta... Buscamos com a Páscoa algo que é muito peculiar em nossas vidas: o Renascimento de nós mesmos. Temos em nós uma essência peculiar, poderíamos até associá-la com o bóson de Higgs, uma partícula que o cientistas dizem que seria o átomo fundamental procurado pelos pré-socráticos e a filosofia.

Se esta Partícula de Deus está presente em nós, isto quer dizer que nós próprios temos o poder de criação, limitado a nossa ignorância humana. Pois bem, podemos nos fazer renascer a cada dia de nossas vidas, durante toda a nossa vida, sempre buscando um caminho para que possamos nos encontrar. A vida não é fácil. Nunca foi. Nunca vai ser.

Perturbações do nosso cotidiano, morte de parentes, perda de emprego, perda de amigos, agressões, separações de pessoas que amávamos, brigas, catástrofes naturais, má decisões administrativas, judiciárias, legislativas... Tudo isto faz parte do nosso triste cotidiano sombrio. Sempre teremos isto em nossas vidas e sempre buscaremos lidar com isto.

O que torna tudo mais fácil? Saber que existe um outro lado da moeda, algo que pode ser que não vejamos a priori, mas que possamos constatar a posteriori. Esta constatação é através da vida, de buscarmos dentro de nós mesmos acreditar em algo que não pode ser racionalmente explicado: a fé. A fé em nós mesmos. Eminentemente a fé em nós mesmos, a fé que poderemos mudar a situação.

Esta mudança da situação é feita através de outro olhar que buscaremos, outro sentimento que teremos a lidar com aquela situação. NÃO podemos mudar as pessoas. Podemos conversar, mostrar... Mas só a pessoa muda a pessoa. Somente nós mesmos podemos permitir que o outro possa contribuir, ou não, com algo relevante para a nossa vida mediante o diálogo.

Hoje. Agora. Depois de ler estas palavras, espero que algo tenha mudado. Espero que algo tenha se descobrido dentro de você. Como aquela casa em que os móveis estão cobertos por lençóis velhos, empoeirados... E você encontra-se aquela cadeira antiga que relembra a sua infância. E após vê-la, senti-la, você buscará adaptá-la hoje para o seu cotidiano.

Espero que todos possamos renascer a cada dia maravilhoso ou dificultoso em nossas vidas. Espero que possamos revalorizar sempre tudo aquilo que buscamos. Espero que possamos olhar através dos olhos das pessoas que nos amam e que nós amamos e possamos sempre buscar um conforto, um riso, um amor e uma esperança de que tudo dará certo. E dará, porque nós queremos que dê.

Espero vem de esperar, talvez do mesmo radical de esperança. Desejo que você tenha esperança nesta Páscoa de algo algo vai mudar na sua vida. Espero que possa olhar o futuro e afastar as nuvens cinzas da dúvida, do medo e da insegurança. Espero que nesta Páscoa possa confiar ainda mais em si, com o riso maravilhoso de estar eternamente se redescobrindo. Espero, ainda, que muitos sejam os caminhos que possa escolhar, mas que escolha sempre o mais feliz.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Pereba...

Pereba era um rapaz legal. Do tipo agressivo-passivo que todos adoram ter por perto. Sempre prestativo, procurava ajudar os outros. Sua simpatia em relação a isto era pública e nototória. Pereba buscava ajudar até mesmo as pessoas que procuravam informações em um Shopping. Mesmo que não soubesse a língua, por vezes eram estrangeiros, ele buscava pela familiar linguagem de sinais disformes e algo que se aproximasse da pronúncia do idioma.


Mas, como todas as pessoas, Pereba não era perfeito. Tinha seus pequenos pecadilhos e suas pequenas, na verdade imensas para ele, falhas. Conservava este apelido dado pelos seus amigos de infância e o levava adianta. Não sabia jogar Handebol, esporte predileto de seu colégio, embora fosse muito bom em Xadrez. Mesmo assim, até sua idade adulta, ainda carregava tal alcunha.

Aconteceu algo com Pereba, certo dia. Ele passeava pela rua e quando ia tirar uma informação de uma pessoa, sofreu um infarto. Quase fulminante, senão pela sua constituição física privilegiada e muitos hambúrgueres da esquina de sua casa. Ficou alguns dias no hospital. Recebia poucas visitas, ainda menos ligações. Recebeu dos médicos um encaminhamento para terapia.

Seis meses após isto, desistiu da terapia. Perguntava-se sempre se o seu psicanalista dormia enquanto ele falava. Sabia que na hora da saída, perto do horário do fim da sessão, o mesmo sempre estava alerta. Ponderava o terapeuta com alguns "Ahan", "Continue" e "Como se sente em relação a isto?". Decidiu abandonar tudo isto. Iria procurar algo.

Quando um mendigo na rua pediu-lhe uma esmola, ele disse não. Ficou parado alguns minutos ali, buscando uma resposta. Não sabia porque tinha negado isto, mas sabia que era o sinal de algo novo. Vira que a terapia tinha dado algo novo a ele, mas não sabia exatamente como deveria caminhar.

Passou a responder as pessoas com a educação habitual, mas não mais se sobrecarregava no trabalho fazendo as tarefas dos outros. O seu amigo de infância, Joselino, até chegou a ser demitido por causa disso. Ele simplesmente deixava com que Pereba fizesse todo o seu trabalho. Ia ser promovido. Ao invés disto, acabou por acontecer algo engraçado: Pereba foi promovido em seu lugar e...

-"Ei... Narrador?"

-"Anh... Sim?"

-"Pereba, não... Me chama de Valdecir. É o meu nome."

-"Anh... Sim."

-"E faz o favor: escreve um final feliz, viu?"

-"Anh... Sim."

Mesmo sem muitas palavras pela interferência de Valdecir, procurei continuar observando a sua vida. Valdecir não sabia que o meu poder não era decidir qual seria o rumo de sua vida, mas somente descrever como ela seria. Como uma câmera que filmava o que acontecia, a este humilde Narrador cabia apenas uma coisa: torcer pela sua felicidade.

Entretanto, pessoalmente acho que Valdecir vai se sair muitíssimo bem. Ele estava se libertando de suas amarras. Como os elefantes que são amarrados quando pequenos e mais tarde não conseguem se libertar de suas próprias amarras, Valdecir estava decidido a quebrar este círculo.

Esta dicotomia de Senhor e Escravo que ele mantia em si, aos poucos ia desaparecendo. A promoção chegou em um ótimo momento de sua vida e até encontrou uma amiga da escola, uma das que ninguém dava bola. Ele tinha se tornado uma mulher interessante e Valdecir a tinha encontrado na hora do almoço, em um novo restaurante do Centro da Cidade.

Conversaram muito. Sobre muitas coisas. Trocaram telefones. Apaixonaram-se. Casaram. Tiveram dois filhos: Adalberto e Rosana, em homenagem a avó de Helenice. Viveram juntos. Não felizes para sempre, porque brigavam por vezes. Mas não deixavam que estas pequenas brigas atrapalhassem seu relacionamento. Mesmo com todos os problemas, com a falta de dinheiro por comprar algo melhor para os seus filhos, eles tinham uma certeza: tudo iria dar certo.

E este narrador fica feliz. Feliz em ver que mesmo só podendo observar de longe e torcer, ver que seus pequenos filhos podem levar sua vida adiante, mostrando sempre algo de bom, algo de ruim... Ou seja, apenas sendo seres humanos.

quinta-feira, 11 de março de 2010

A uma sem nome...

Vejo você, linda. Maravilhosamente linda. Tento dividi-la em partes para tentar entendê-la melhor. Mesmo com tanta coisa para ser vista, tento reduzir a pequenas poucas coisas imensamente significativas e de maneira cativante, quase, disse quase, apaixonante.

Vejo os seus olhos, não duas pérolas negras que meramente refletem luzes. Seus olhos são como dois buracos negros, atraindo minha atenção em direção ao seu olhar. Nas pequenas explosões, por vezes solares de suas pupilas produtoras de prazer, percebo-me hipnotizado e entregue a tamanha sensação. Implodo-me, pouco a pouco, dentro de mim, numa onda sem fim de sentimentos. Tento, através de atos, reagir a isto... De alguma maneira poder cessar... Cessar, não... Aumentar isto.

Seus cabelos, parecendo rajas de petróleo da riqueza que compõe o visual mostra-me algo interessante. Não é virtual, pois não está em nenhuma das minhas páginas... Mas é uma realidade que brinca de esconder teu rosto por entre eles. Balançam de um lado para o outro suas pequenas madeixas, parecendo uma brisa do mar a balançar o coqueiro, seduzindo-o. Sinto-me absorvido por isto também.

Sua pele clara é como um espelho, algo que ilumina o meu dia. Liga-me e acende-me. Seu cheiro, inebriante e incômodo de tanto prazer que provoca, mistura-se com uma seda que se desdobra ao toque e que se entorta, contorce com a minha aproximação. Por vezes, só isto me faria feliz e meu cérebro sabe disto... E ele me prega peças. Distraído pela rua, quantas e quantas vezes ele fez questão de me mostrar que você não está comigo?

Ao longo do dia, sinto o seu cheiro. Como se fosse uma droga da qual eu não consigo me livrar, como o efeito do lsd que volta anos depois. Mas eu não uso drogas... E você, longe disto, é um acontecimento fascinante em minha vida. Nem sei se os cientistas conseguiriam mensurar o que você faz comigo, com meu cérebro, com minhas palavras... Nem tenho palavras, na verdade. Elas são inúteis. Elocubrações, pensamentos, perturbações, desânimos, rotinas, descaminhos... Tudo cai por terra ao ver sua boca.

Ah... A boca. Uma das coisas mais lindas que eu poderia presenciar em toda a minha vida. Uma boca aveludada, macia ao doce encostar dos meus lábios. Ela recebe os meus com um sorriso contido, tímido, levemente puxando o canto da boca para a direita. Sinto, então, os lábios meramente se tocando. Meramente eles se locupletam, buscando se encaixarem. Pouco a pouco, sinto seus os lábios superiores cedendo um pouco ao avanço dos meus, enquanto os seus inferiores avançam, dançando e prosseguindo. Enlouquecendo-me, aos poucos, como um conta-gotas, buscando pingar dosadamente em um oceano ansioso de desejo por você.

Hum... Sinto, após isto, o gosto de sua saliva. Se o teu cheiro me deixa inebriado, a tua saliva fica comigo por dias. Enlouquecedoramente. Posso comer, escovar os dentes, beber, chupar uma bala... Nada. Nada faz com que eu esqueça a sensação do seu gosto dentro do meu gosto. E que gosto. Que coisa sedutora, linda... Parece que foram anos, mas este... Ah... Este foi somente o primeiro beijo. A primeira parte, na verdade, do primeiro beijo. Passado, presente futuro misturam-se e perdem-se... O próprio tempo se confude e pára para olhar o que acontece. Parece que esta mesma entidade, parte da eternidade nos faz um favor: estende um tapete onde o tempo pára. Pára o relógio, param as pessoas... E vivemos só nós dois. Só na nossa pequena impossibilidade.

Minutos, horas parecem dilatar-se em um pequeno afago, um pequeno afeto... Um riso solto, uma piada sem graça. Um toque. Que toque. Tantas coisas ditas, tantas palavras sussurradas, tantos risos, graças, gemidos, carinhos, confortos... Ah... E também o sabor do não-dito. Deliciosamente não-dito, suplicado, imprensado, tentando ser impedido para que não se deixe escapar nada... Para que este nada não gere algo. Não se perceba... Ou para que não se deixe perceber quase nada.

Não consigo entender... Nem ao menos quero. Mesmo dividindo nas mais ínfimas partes, não consigo distinguir o que você é por inteira. Não sei o que quero. Sei o que quero. Sei o quanto quero, o quanto anseio, o quanto desejo, o quanto espero, o quanto... O quanto não é tempo demais para esperar algo tão precioso, tão raro, tão... sublime. E infernal ao mesmo tempo. Algo puro, algo sujo, algo... Algo tão especialmente e deliciosamente... Mulher. Talvez... Minha?

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia da mulher

A mulher é de difícil definição. Entendê-la exigiria uma série de aptidões às quais nós, homens, somos completamente falhos. Busco, então, nestas poucas palavras, fazer a elas um pequeno elogio dentre a imensidão de coisas que nos proporcionam.


Nascemos delas. Elas ficam meses carregando algo que não sabem muito bem o que vai ser, como vai tratá-las e se vai tratá-las. Elas vivem nesta miríade de possibilidades, nesta mistura de sentimento tão intensos e tão dicotômicos que poderíamos chamá-las de loucas. Mas loucos somos nós que não entendemos a fecilidade delas em ser mães.

Crescemos e nos apaixonamos por elas. Elas passam a se tornar partes de nossas vidas afetivas. Amando-as e odiando-as tantas vezes que seriam impossível mensurar. Devemos, então, parar de tentar entender suas atitudes. Homens agem por raciocínio; mulheres por intuição. Homens são calculadoras enquanto elas furacão.

Furacão de sentimentos, leves como o ar ou densos como a terra. Podem ser quentes ou frias, mas só serão frias em mãos inabilidosas, nas quais busquem repetir doses, esquemas antigos... Cada mulher é única na sua infinitude de possibilidades. Elas buscam sempre algo idealizado, sonhador... E nós buscamos o óbvio. Sempre perderemos feio para elas.

Além disto, elas normalmente terminam os relacionamentos. São muito mais habilidosas socialmente que os homens e têm uma profundidade de análise que deixariam pasmos os prêmios nobel mais famosos. Não por seus cálculos, mas por simplesmente saberem qual o caminho a ser tomado. Não sem sombra de dúvidas... Mas, COM apesar das dúvidas, elas prosseguem.

Elas são flores, prefiro que sejam rosas. Têm variadas cores e perfumes; sempre ficando melhor em adornos pomposos, com várias folhagens... Ou simplesmente sem folhagem alguma, somente elas, nuas. Ah... E os adoráveis espinhos que elas têm? Devem ser ultrapassados um a um; não cortando, simplesmente adorando cada pequena idiossincrasia sua, cada pequena imperfeição.

Homens mensuram e apreciam a perfeição das formas. Estão errados. As coisas na vida e principalmente as mulheres, são feitas de suas pequenas e maravilhosas imperfeições. Uma espinha, um olho menor do que o outro, um nariz maior, um gesto expansivo quase como uma italiana exagerada, uns quilinhos a mais... Ah... E as celulites. O que seriam das mulheres sem elas?

Li, certa feita, que as celulites são a maneira da mulher dizer que é gostosa em braile. Não precisa... A mulher sempre será gostosa porque seu gosto depende do que ela tem eu seu coração. Sempre terá seu cheiro porque toda rosa tem sua fragância.

Nós deveríamos agradecer às mulheres por nos terem tirado de nosso beco evolutivo. Se não fossem por ela, comeríamos pizza fria e tomaríamos cerveja quente. Se é que algo desse gênero fosse inventado por nós, homens.

Agradeço a Deus por existirem as mulheres. Sempre. De todos os tipos: mães, filhas, irmãs, tias, tias-avós, avós, primas, amigas, amantes, ex-mulheres, etc. Agradeço por serem médicas de nossas almas, pessoas que nos curam e nos fazem doer; mas sempre com uma ternura inacreditável. A vocês, mulheres, um excelente único dia das mulheres que, na verdade, são 365... Ou 6, em ano bissexto. Afinal, temos a nossa idade todos os dias, inclusive um a mais quando nós fazemos. O dia da mulher é o dia do aniversário somente, um a mais na conta, para ser o ano todo ;)

domingo, 7 de março de 2010

Contexto Histórico

Guilhermino era um cidadão pacato. Formado em Arquivologia, tinha seus quase 30 anos. Cultivava sua baixa auto-estima por si com uma dose peculiar de gastrite nervosa. Esta era causada pela sua extrema incapacidade para realizar qualquer tipo de relacionamento interpessoal. Poderíamos até mesmo dizer que ele teria nascido de uma chocadeira, pela sua habitual maneira de não exercer sua função socializante. Ele achava melhor ficar com pastas, arquivos, papéis e ácaros.


Trabalhava em uma empresa privada, terceirizada por um contrato super-faturado junto ao governo local para digitar e digitalizar documentos históricos. Poderia ser feito por qualquer um que tivesse segundo grau, mas Guilhermino achava que seria uma grande oportunidade profissional. Trazia um sonho consigo: um parente de seu tataravô participara da Inconfidência Mineira. E, naquela firma, seria a sua meca, a sua seara para um empreendimento pessoal ousado: procurar o parente para poder ter algum tipo de colóquio com uma pessoa do sexo oposto ao dele, não dos ácaros.

Mas, neste dia fatídico, surgiriam duas surpresas inesperadas. A primeira delas, a de que o seu companheiro relapso, chamado Peixoto, conseguia uma promoção. A promoção tanto desejada por Guilhermino. Mesmo chegando atrasado no escritório, saindo cedo, nunca cumprindo suas tarefas, ele conseguiu a promoção de chefiar os arquivos mineiros. Corriam boatos (e até estes Guilhermino soube) de que Peixoto teria um relacionamento extra-conjugal com a mulher de seu chefe. Como Peixoto a fazia feliz, parece que houve um consentimento tácito de que o chefe também deveria deixá-lo feliz.

Guilhermino ficou pasmo com tal situação. Sentiu, pela primeira vez em toda a sua vida, raiva de alguém. Nem no colégio quando furtavam seu lanche, nem as chacotas de seus amigos por usar um óculos que mais parecia uma lente de aumento, nem as apostas das meninas bonitas para ver qual o ridicularizava mais e melhor (tinham até uma ficha para anotarem)... Nada destas situações o deixava chateado... Mas isto...

Ele se imaginou com uma faixa vermelha na cabeça, entrando no escritório, como se fosse Rambo. Puxava uma arma e metralhava todos. Sentiu-se imediatamente culpado após esta idéia. Pensou em falar com seu chefe para que pudesse ser promovido, ao menos transferido para a parte mineira. Se imaginou elegante, com um terno bonito, falando empolado para que pudesse fazer uma comoção no seu chefe.

Mas... Não era o seu estilo. Era mais fácil que ele se debulhasse em lágrimas em frente ao chefe, implorando para que pudesse participar daquilo... Imaginou-se até negociando com o chefe para poder pagar isso com ele fazendo a felicidade da mulher dele.

Nada adiantaria, seria tudo em vão. Conhecia seu chefe, um sujeitinho asqueroso e detestável. Resolveu, então, tomar uma atitude honrado e corajosa: pedir demissão. Iria para o Nordeste, trabalhar em um quiosque e viraria um surfista internacional.

Sabia disto, ou de algo parecido. Decidiu se levantar e ir em direção da sala do chefe. Engoliu a seco, por sua mão escorria uma leve sudorese. Começou a caminhar em direção a sala do chefe. Ele bateu à porta, aguardou e entrou. Seu chefe estava lendo o jornal e fez com a mão para que ele entrasse. Sentou-se na cadeira.

Silêncio.

Guilhermino tinha aberto a boca para começar a falar, quando toca o telefone. Seu chefe atende.

-"Sim... Sim... Mesmo? Que triste." - desliga o telefone - "Olha, o Peixoto foi comemorar a sua promoção almoçando sardinha. Morreu entalado com a espinha na garganta... Bom, nunca gostei dele. Ele era um sujeitinho asqueroso e detestável. Ah... Pode ficar com a promoção dele, viu?"
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