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terça-feira, 13 de julho de 2010

Jonathan e Wanessa

Jonathan era um sujeito assaz intrigante: possuía uma alma de adolescente, mesmo sendo já um adulto. Buscava, quando enamorava-se por alguém, transformar aquela pessoa em seu mundo - tudo o que ele fazia, realizava pensando nela; o ar que respirava perto dela tinha mais doçura, o simples fato de tocar a pele daquela que era sua amada fazia eclodir nele sensações avassaladoras. Sabia, contudo, retribuir na mesma medida o prazer que ela lhe dava. E assim vivia seus dias, sempre com um amor para chamar de seu.

Conheceu Wanessa em um destes sítios da internet. Conversaram durante algum bom tempo e, após isto, trocaram o sítio de bate-bapo por um local mais privado, um programa de mensagens instantâneas, com direito a câmera. Ao conversarem, ela descobriu que ele era realmente um bobo: chamava a fruta kiwi de "quivi" - porque era assim que deveria ser chamada, era uma fruta tropical. Trocavam palavras difíceis, com um rebuscado ornamento.

Através dos vocábulos digitados e ditos, estreitaram um laço de ternura um pelo outro. Através do primeiro encontro, do primeiro toque, do primeiro beijo... Ah, poderíamos dizer que estavam ali arraigando uma futura árvore, cujo o produto por ela gerado só poderia ser o mais doce e puro amor. Jonathan sempre lembrava de seu amor assim: um olhar profundo e um quê de distante das coisas mundanas, uma leve maquiagem - nunca exacerbada -  para definir uma feminilidade e um perfume capaz de pregar peças no próprio Cupido.

Porém, nem tudo na nossa vida é um perfeito conto de fadas. O nosso pequeno protagonista tinha uma característica peculiar: ao estar com ela, era uma rocha de certeza sobre o que sentiam. Com a distância, a sua carência e seu medo de perdê-la o faziam vacilar, por vezes, como um barco a deriva da sua própria tempestade emocional. Em uma destas conversas que era melhor não ter acontecido, ele cobrou dela. Cobrou dela atenção, afeto, amor... Tudo aquilo que ele achava que deveria cobrar.

Pobre Wanessa, não esperava esta atitude. Afastou-se, imediatamente, como um pássaro que busca o seu ninho para se recuperar de um objeto lançado contra ela. Ficou com medo de voltar ao ninho de amor dos dois, optando por um lugar mais distante. Após a discussão, ele achou senhor de si mesmo. Percebeu que estava dando um rumo certo ao seu relacionamento e tinha mostrado a ela suas reais necessidades. Sentia-se confiante.

"Ai de mim..." - disse ele, referindo-se a dor de amor sentida pelos gregos - " Por que fui fazê-lo?". Sabia que tinha ferido o seu amor por uma insegurança que era sua. Cobrou algo que nunca poderia cobrar: afeto. Afeto se dá porque se gosta, e nem sempre dá maneira como acha que deveríamos. Sentiu-se tão pequeno como o inseto que observava na parede. O termo correto seria que ele teria entrado em parafuso por nada. Não sabia como consertar o erro. Não sabia o que fazer.

No amor, em geral, não temos muitas regras. A primeira e mais básica é amar. A segunda é que o amor deve ser sempre cultivado, arado e adubado; mesmo que, para isto, precisemos admitir nossas maiores falhas. E foi o que ele fez: mandou um correio eletrônico esperando que pudesse, através de linhas de choro e tristeza, plasmadas de amor, pudesse arremeter a aeronave que caía por falta de funcionamento adequado.

Esperou duas horas e, após isto, ligou. Wanessa atendeu. Ele pediu desculpas, tentou se explicar. Ela, porém, apenas disse:

-"Sem problemas, eu compreendo. Entendo porque sofre. Eu também; mas, por enquanto, vamos..."

Ele, com medo, a interrempeu:

-"Vamos apenas deixar ser? Sem cobranças? Como a música dos garotos praianos?"

Ela sorriu. Ele tinha entendido, pelo menos a princípio. Somente o tempo diria se ele realmente poderia cumprir. Ela, porém, resolveu apostar naquele adulo de alma de adolescente.

-"Sim... Para que sejamos os adolescentes do início do nosso relacionamento... Onde só havia o desejo de estarmos juntos um do outro."

Ele sorriu. Chorou, também, como toda pessoa para lá de emotiva. Para poder, ainda, se sentir mais aliviado do que tinha dito, mandou-lhe flores do campo. O perfume delas tinham um quê do perfume que ela utilizava. Ela mandou uma mensagem pelo celular dizendo o quão feliz ficou por receber tal mimo e que, no próximo encontro, iria levar-lhe uma surpresa especial... Era só ele esperar.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Oswaldir

Oswaldir sentia falta de sua amada. Ela preenchia cada pequeno vazio de seu ser, permeando cada célula do seu ser. A ausência que sentia dela era por demasiada longa: tudo o que poderia acontecer na sua vida era nada em relação ao desejo que pulsava por sua amada. Buscava, em vão, estudar. Conseguia se concentrar por meia hora e voltava a pensar nela. Era como se o estudo conseguisse bloquear parte da falta que ele sentia dela e que este mesmo estudo pudesse, de algum jeito, trazê-la mais para perto do seu cotidiano.

Resolveu, então, dar uma volta. Caminhava e observava o seu bairro. Conseguiu não pensar nela por alguma hora inteira, quase. Correu mais um pouco, para que pudesse extravasar parte de sua pulsão, porém era maior do que se pudesse percorrer mil léguas. Decidiu, então, voltar para casa e tomar um longo banho quente. Após dele sair, escutou um barulho vindo de seu celular. Era ela, era o barulho só dela que ele tinha colocado no seu celular para que pudesse saber quando vinha de sua amada.

Dizia: "Estou com saudade e desejo... Advinha por quem? Rs. Bjs". Sorriu. Ela não era do tipo romântica, do tipo que manda mensagens, do tipo que até se deixar apaixonar e se amar: era uma mulher para se amar por várias vidas, tamanha era a sua complexidade e o gosto que tinha. Seus olhos brilharam mais por lembrar que o encontro dos dois estaria próximo, que ele poderia então dizer tudo o que tinha dentro dele e fazer tudo o que queria dela e com ela.

Resolveu, então, demonstrar o quanto gostava dela. Em uma pequena pausa de estudos, resolveu buscar na internet um texto, para que pudesse homenagear a sua musa. Encontrou um lindo do Fernando Pessoa (acreditava ele que do autor fosse, tal qual a desconfiança na internet por direitos autorais ele possuía) e enviou-lhe. Esperou, uma resposta dela. Sabia que ela estava em uma época desfavorável ao romantismo, mas ele mesmo assim iria esperar por algo.

Escreveu, de uma maneira que ela pudesse ler, o quanto desejava provar do néctar da sua boca, do quanto sentia falta do seu perfume de flores, do quanto sua pele gostaria de estar tocando a pele dela... E do quanto era especial o que tinham, não importavam as desavenças que por vezes apareciam. Ele, estudante de direito, brincava e ria-se com ela de que até mesmo os direitos e garantias fundamentais colidiam-se: o que importava era o princípio da harmonização, pois nenhuma norma era superior a outra. Assim como o bem-qeurer de nenhum dos dois era superior ao do outro: apenas eram duas faces complementares da moeda do amor.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Carmelo

Carmelo recebeu a notícia inesperada agora a tarde, faz pouco tempo. Ele recebeu uma ligação da pessoa especial da sua vida terminando o seu relacionamento com ele. Sempre cordial e aprazível, buscou do âmago do seu ser uma maturidade inacreditável. Orientou-a se era o melhor a fazer ou não, conversou durante algum tempo. Por fim, deu-se por vencido: ela realmente não acreditava tanto no amor deles com a finalidade de pagar para ver.

Desnorteado e chorando, começou a caminhar pelo seu bairro. Em um momento em que pediu a Deus uma iluminação, ele encontrou um templo. Visualizou sua cúpula dourada e sua cor branca, com um jardim na parte da frente. Teve um pequeno soluço e procurou limpar as suas lágrimas. Chegando lá dentro, tomou um copo de água, para se acalmar. Sentou-se em um banco e começou a rezar. Notou algumas pessoas cruzando o corredor, mas não se deu conta de nenhuma delas.

Em dado momento, começou a lacrimar de novo. Olhou para o lado e notou uma mulher, mais alta do que ele e com um rosto fino. Seus cabelos eram longos e encaracolados, lembrando os de um anjo. Sentiu uma paz de espírito ao vê-la. Ela, vendo que ele chorava, apenas sorriu. Ele pediu desculpas. Ela sorriu novamente e lhe estendeu a mão, fazendo um afago. Trocaram algumas palavras e, após isto, foram para a cantina para melhor conversarem.

Conversaram sobre rompimentos, paixões profissionais, interesses... Carmelo se sentiu até bem com aquela conversa. Ela era do tipo espevitada, que consegue animar até uma tarde de velório. Ela o orientou, conversou, acalmou seu coração. Naquele momento, a dor nem era tanta. Agradeceu-a, prometendo um dia retribuir o favor. Ela apenas sorriu complacente e disse para aparecer mais vezes na igreja. Ele, sorriu, pensando que tinha recebido um convite de um anjo. Ou uma anja... Ele nunca soube muito a diferença.

Após a conversa e o incenso queimado, ele começou a se sentir melhor. A sensação de que lhe puxaram um tapete, aos poucos, estava sendo refeita. Caminhava agora pelo seu bairro com uma tranquilidade maior, uma paz de espírito lhe tomou conta de súbito. Observou uma bela árvore e resolveu abraçá-la. Imaginou o que seus amigos do trabalho diriam se vissem aquela cena dantesca: um notório procurador do trabalho fazendo aquela cena.

Ele, porém, decidiu não mais se cobrar. Alejandra estava com ele há alguns anos, mas ela nunca quis firmar um compromisso com ele. Nunca entendera o medo dela de apostar em mudanças, de querer aproveitar a vida ao seu lado. Por um momento, achou que poderia cansar-se disso. Era uma sensação meio ácida em sua boca, a qual ele nunca havia tido. Amava Alejandra de um jeito romântico, típico dos heróis do século XVIII. Tratava-a como uma rainha e dama na sociedade, e de uma maneira mais peculiar na intimidade do casal.

Balançou a cabeça, como se dissesse a si mesmo que ela escolheu o caminho dela. O máximo que poderia fazer era escutá-la, para que pudesse entender o que a levou a tomar tal decisão. Se ela o amava, por que fazer isto? E mais... Se ele era tão especial na vida dela, por que abandoná-lo? Sua cabeça não conseguia entender exatamente o que se passava. Não poderia ser TPM? Ele acreditava que não. Pensou em inúmeros possibilidades, até que se esgotou com o não saber.

"Tudo bem" - pensou, dando de ombros "Ainda darei uma oportunidade de entender tudo o que acabou de acontecer. Afinal, farei isto por amá-la, mas não a tal ponto de continuar ferindo-me a vida inteira." Desta vez, repuxou o canto do lábio esquerdo e arregalou um pouco só o olho esquerdo. Ficou satisfeito com a conclusão a que chegara. Parou em um quiosque e sorveu uma água de coco. Um pouco do centro estava caminhando a passos largos a se reestabelecer. Sentiu-se feliz com isto.

Joelson

Joelson era um cara muito legal. Namorava fazia cinco meses com uma mulher cinco anos mais velha. Conheceram-se, por acaso, em um site de bate-papo na internet. Desde o primeiro momento, sentiram uma química única entre os dois. Conversaram longas horas, dias... Até que finalmente se encontraram. O encontro foi regado a ainda mais charme e conversa, alegria e carícias... Quantas carícias ocorreram naquela noite, quantos beijos, quantos sussurros e juras de desejos.

Este namoro, como tudo o que acontece de repente e com força, também teve alguns altos e baixos. Brigaram, algumas vezes, por coisas poucas. Joelson sempre esteve lá por ela: apoiou-a em seus momentos familiares mais difícieis e em resoluções profissionais. Ela também fazia isto. Estavam apaixonados e isto era tudo o que importava. Um sentia tanta falta do outro que chegava, por vezes, a doer muito no peito. Doía tanto que era bom: consideravam uma dor de amor.

Em uma TPM dela, discutiram longamente a relação. Joelson poderia ser definido como um sujeito maior do que a vida: buscava sempre direcionar os problemas do cotidiano para algo que acontecia dentro da pessoa, mostrando ser um reflexo da própria atitude da pessoa. Interessante ele usar esta exímia habilidade nos outros e pouco nele próprio. Se ele percebesse o que estava por vir, ele com certeza teria se precavido de uma maneira mais própria.

Após uma discussão dos dois e um pedido de tempo por parte dele, ele achou que conseguiria consertar as coisas. Ela não estava lhe dando tanta atenção quanto ele julgava própria e ela estava decidida a não ter cobranças em sua vida, em ficar em uma situação cômoda, um status quo: mesmo que isso significasse que não seria mais feliz ao lado dele. Joelson apostou que a saudade, de novo, poderia reavivar todo aquele relacionamento de maneira mágica. Já havia acontecido uma vez quando ela pediu um tempo (durou apenas cinco dias).

Esperançoso, continuou a fazer o normal: observava a página dela no Orkut para ver se havia algo de novo - sempre combinaram, nestes dois períodos, de não se falarem, mas nada que uma espiadela na página do outro não pudesse gerar um novo alento. Joelson vendo que ela tinha postado uma música sobre o quanto ele fazia falta e o quanto ela queria ligar para ele, teve a certeza de que tinha tomado o caminho certo para poder aprumar o seu relacionamento de novo.

Após três dias, ele recebeu uma ligação. Ela pedia para terminar tudo. Não mais o queria por perto. Choravam, os dois por telefone. Ele, porém, tentou se manter mais firme, dizendo que tudo iria passar e que ambos seriam felizes em um futuro próximo. Ao desligar, chorou copiosamente. Parecia uma criança, ao ser deixada em um ambiente desconhecido pelos pais. Chorava a dor e gritava a sua própria angústia, a sua própria humanidade.

De nada adiantava... Nenhum remédio poderia aplacar o que ele sentia: foi abandonado pelo seu objeto de amor, aquela pessoa que havia feito juras, promessas e amores com ele. Sentia-se fraco, como se algum gênio ruim tivesse passado e levado suas forças embora. Sentia-se só, um vazio, um vazio que somente poderia ser descrito como o solo árido que ansiava pela promessa de chuva... Uma chuva que nunca mais viria para ele. Havia se tornado infértil.

Daiane e o medo

Daiane era uma psicóloga pós-graduado em terapia Cognitivo-Comportamental. Gostava das coisas exatas e preferia que os comportamentos fossem apenas alterados por estímulo-resposta diferenciados, sem precisar desvendar as searas do inconsciente. Sempre ativa, cada vez mais arrebanhava clientes em seu consultório. Tinha um talento especial para o trabalho, chegando sempre de manhã e somente saindo à noite. Trabalhava, além dos dias da semana, o sábado, em meio período.

Em um destes sábados, foi almoçar em um restaurante diferente, tentando mudar o estímulo que costumeiramente recebia do outro chef. Apreciava comidas italianas e o molho ao sugo, acompanhado com uma massa feita no próprio restaurante. Gostou tanto que pediu para mandar os cumprimentos para o chef. Enquanto sorvia seu café, ela percebeu que havia alguém do seu lado. Um rapaz aparentemente novo (ela tinha trinta e cinco e ele aparentava vinte e cinco). Ficou intrigada e olhou-o nos olhos.

-"Olá. Vim agradecer." - disse ele, com um largo sorriso no rosto e olhos brilhantes.

-"Anh... Como assim?" - disse ela, intrigada.

-"Ué... Mandou cumprimentos para o chef. Ele estava ocupado e me mandou agradecer por ele." - fez um pausa delicada - "Mentira... Eu sou o chef. Vim agradecer."

Ela espantou-se com tamanha espontaneidade e presença de espírito. Espantou-se mais ainda com a longa conversa que tiveram. Conversaram sobre trabalho, profissão... Ela ficou ainda mais intrigada ao descobrir que ele tinha cursado alguns períodos de psicologia: gostava de psicanálise. Ela pensou que ninguém no mundo poderia ser perfeito. Ao ser chamado para voltar a cozinha, pois havia aumentado de súbito o movimento, ela saiu.

Ao receber a conta, veio junto uma rosa vermelha e um cartão, com o telefone dele. Ele mandou um outro vazio, dizendo: "Escreva seu nome aqui, já que até o momento eu não sei. E, se possível, um telefone? Adoraria conversar longamente com você." Ela, enrubescida, abaixou a cabeça para que o garçon não a pegasse neste momento de intimidade declarada. Apenas preencheu o papel, deixou o dinheiro e foi embora.

À tardinha, após tomar um vinho e estar em seu sofá vendo um certo seriado de comédia sobre alguns amigos que dividem um apartamento, ela recebeu uma ligação no celular. Era ele. Sorriu, de orelha a orelha, pigarreou para limpar a voz de quem estava morgada no sofá e atendeu. Conversaram mais longos minutos, cada um insuficiente para preencher a necessidade de conhecerem um pouco mais do outro. Marcaram de ir jantar fora, em um local que ele adorava, mas era segredo.

Ele passou para pegá-la mais ou menos às nove horas da noite. Havia dado tempo de fazer tudo aquilo que as mulheres necessitam antes de um encontro, certos rituais longos e dolorosos para que sejam mais atrativas do que já são. Colocou um vestido na altura da perna, preto, com uma sapatilha preta. A bolsa era de um tom violeta, combinando com alguns tons de sua maquiagem. Estava pronta, feliz e, acima de tudo, curiosa.

Foram a um restaurante na praia, meio distante. O medo que sentia por ele ser um maníaco logo caiu por terra ao ver o lugar. Era lindo, aconchegante e muito romântico. Ao sair do carro, fez questão de abrir-lhe a porta. Tocou-a na mão, sem querer. Ela parou. Ele percebeu e olhou-a profunda e ternamente. Ele avançou um pouco e percebeu que ela virou a cabeça de lado, fechando os olhinhos. Foi um beijo... E que beijo. Demorou alguns minutos, enquanto dançavam como dois parceiro antigos em que um já sabia o próximo passo do outro, o que apenas aumentava o prazer. Após o beijo ele disse:

-"Nossa... É sempre assim que beija um estranho? Prazer, Gilmar..."

-"Bobo..." - disse ela, sorrindo toda como uma adolescente apaixonada.

Tiveram um jantar muito aprazível, com ele sempre acarinhando sua mão. A noite, então, dispensaria qualquer comentário. Poderíamos, contudo, para deixar os leitores menos curiosos, que poderia simplesmente ter sido resumido nas últimas partes da música "Valsinha", de Chico Buarque. Muito mais aumentada e intensa do que a já linda letra deste poeta.

Namoraram durante dois anos, até que Daiane vacilou algumas vezes sobre a certeza daquela relação. Ele andava ocupado com a expansão de um novo restaurante e ela cobrava mais tempo dele. Ela própria, então, resolveu pedir um tempo para reavaliar o que estava acontecendo na sua vida. Ele, cabisbaixo e entristecido, apenas concordou. Ela estava muito preocupada: queria ter filhos, mas não sabia se era com ele.

Nesta uma semana que se passou, ela apenas sobreviveu. Chorou, se amaldiçoou... Até que se acalmou. Ela, já pela terça-feira, quando achava que tinha colocado a cabeça em ordem, começou a perceber uma coisa. Seu mundo estava menos colorido, meio desbotado. As músicas só serviam para lembrar dele e do seu lindo amor. Atordoada, procurou comer algo... Insosso. Tudo parecia ter perdido a graça. Ela, porém, resolveu continuar na sua vã tentativa de resistir.

Já no sábado, quando não aguentava mais, sentiu seu corpo clamando pelo dele. O cheiro dele vinha em sua cabeça, uma pequena peça pregada pelo seu centro límbico. Tudo e mais do que tudo lembrava-o. Tinha um peso no seu peito, como se uma garra envolvesse seu coração, pressionando-o tanto que gerava uma dor. Uma dor imensa, terrível... E chorou como uma criança. Chorava e soluçava pela falta daquele homem que resolveu desistir de tudo aquilo.

Ela pegou o celular. Teve medo que ele não atendesse, que ele não mais a amasse, que ele já a tivesse esquecido... Temorosa e arrasada, ligou. Conversaram, com aquele pé atrás natural no casal. Até que, em um dado momento, ele soltou um chiste típico dele, o que na hora acionara o mau humor dela e depois ela pediria desculpa. Ela apenas sorriu... E disse:

-"Nunca senti tanta falta dessas suas bobagens" - e sorriu. E lhe agradeceu pelo seu amor.

Na noite daquele mesmo dia, duas coisas aconteceram. Eles continuaram a sua bela história de amor, com direito a um lindo buquê de rosas colombianas dado por ele. No final do jantar, ele pegou em sua mão e se ajoelhou em sua frente. Puxou uma pequena caixa preta de jóias e mostrou-lhe o anel de noivado que havia comprado no mesmo dia em que ela pedira o tempo. Em meio a lágrimas, os dois de felicidade, ela aceitou aquele pequeno presente. Graças a isto, temos a pequena Manuella, como prova de que nada é tão impossível assim... Basta apenas se ter fé: em si mesmo e no seu parcerio.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Astolfo e Marialva

Astolfo estava lembrando, nesta tarde, como ele gosta de Marialva. Chamava-a simplesmente de Alva, pois assim era a sua pele. Alva também era a sua atitude perante a vida, sempre cheia de amor e compreensão pelo ser humano. Seu cheiro era o de flores do campo, dando ainda mais suavidade a um rosto firme, porém cheio de carisma. Seus olhos eram o que mais impressionava Astolfo: pareciam dois poços de petróleo, sempre valiosos e também voláteis.


Tinham um bom relacionamento: estavam juntos há pouco mais de dois anos. Ambos trabalhavam e eram competentes profissionalmente, cada um em sua área: ele, um arquiteto em franca ascensão, e ela era uma já mais solidificada engenheira. Conheceram-se em um congresso patrocinado pelo CREA-RJ. No almoço, sentaram ocasionalmente ao lado um do outro. Ela, com sua melhor amiga e ele, com seu melhor amigo. Um buscava ver o outro enquanto o outro não estava percebendo.

Ao final do congresso, de novo ocasionalmente se encontraram na saída. Nenhum dos dois tinham ido de carro e chovia muito. Ele fez sinal para o táxi e, ao perceber que ela esperava um, iria cedê-lo para Alva. Ela sorriu e perguntou se não teriam a sorte de ir para o mesmo lado. Ele, meio enrubescido, falou que iria para a zona sul. Ela também. O bairro era o mesmo. Sorriram-se e foram conversando no meio do caminho.

No próprio caminho, devido ao tamanho engarrafamento, resolveram parar e comer em algum lugar. Comeram pizza (que ela até hoje adora, especialmente fria, no café-da-manhã) com um vinho espumante tinto, escolha de Astolfo. Ele sabia, de algum jeito, que ela gostaria do vinho. Quando Astolfo foi lhe servir mais, ela tocou de leve a sua mão. Os dois pararam e somente os olhos se buscavam. Um oceano de sentimentos foi derramado entre eles.

Beijaram-se, de leve, como se quisessem descobrir um ao outro. Estranho foi como suas bocas se encaixaram de maneira precisa e eficaz. O beijo quente e molhado dela era absorvido pela boca dele. Trocavam os papéis durante aquele enlace. Ruborizaram-se ao ver que haviam constrangido um casal de senhores na mesa ao lado. Riram-se deles mesmos e foram para a casa de Astolfo.

Foi uma noite mágica e inenarrável para ambos. Fizeram tudo aquilo o que aquela recém-intimidade permitia que fizessem. Foram ousados, em alguns aspectos, coisas típicas dos amantes certos que se encontram. Riam, dizendo que eram do mesmo planeta, por gostar muito da arte de amar. Ele virou-se e disse apenas fauno. Ela riu, tocou seus lábios com o dedo indicador da mão direita e lhe disse fauna.

Não pararam de se amar todo este tempo. Porém, nem tudo são flores. Mal sabia Astolfo que, ao pedir um compromisso mais sério, teria colocado Alva em uma posição difícil. Ela não contara para ele a história de que havia sido abandonada no altar. O noivo havia optado por ficar com uma namorada anterior a ela. A casa, as mobílias, tudo foi vendido e dividido. Alva não queria saber mais de compromissos sérios.

Discutiram aquela noite. Expuseram, um ao outro, seu ponto de vista. Astolfo, enfim, tomou a decisão mais difícil: resolveu deixar Alva refletir sobre tudo aquilo. Ela, chorosa, pegou suas coisas e saiu de seu apartamento. Para dormir, o vinho foi sua companhia. Riu da ironia de que teve que tomar a garrafa do espumante preferido dela para poder cair nos braços de Morfeu. Sentido, acordou o dia seguinte com aquela típica ressaca dos Diabos.

Resolveu, então, caminhar um pouco. Andou, correu e chorou um pouco. Tomou sua média, pão na chapa e suco de laranja no barzinho que tanto gostava. Ao chegar em casa, olhou o celular, procurando alguma ligação, algum sms, algum e-mail... Não tinha nada. Resolveu não ficar em casa. Tomou banho e foi ao supermercado.

No meio do caminho, ao ligar o rádio, escutou a música que ela uma vez tinha lhe mostrado. Falava do quanto ela precisava dele naquele momento, do quanto ela temia que não fosse importante para ele, do quanto gostaria de ligar para ele, ... Amaldiçoou o destino por um segundo, depois sorriu: se a música dizia isto, quer dizer que havia uma possibilidade da sua mulher fascinante ligar para ele. Ele iria esperar, então, com sua típica ansiedade que se mostra através de sua gastrite. Iria esperar porque sabia o quanto ela era especial para ele e se, ele fosse metade do quanto ela significa para ele, ela iria ligar. Ele iria esperar o tempo dela, como um cavalheiro.

Lisandro e Berthonia

Lisandro era o típico bom rapaz de vinte e cinco anos. Estudioso tardio, embora brilhante, tinha ingressado na faculdade de engenharia e era um aluno para lá de promissor. Era um bom filho, sempre respeitador dos limites impostos pelos pais e sempre atento a conversar com eles. Um bom amigo, sempre disposto a escutar. Nos relacionamento, era um excelente amante.


Padecia, porém, de um mal comum em todos os seus relacionamentos: não sabia estabelecer os limites necessários. Tinha um grande medo de perder as pessoas, impondo algumas coisas que não queria ou não podia fazer. Se pegássemos todos os seus relacionamentos anteriores, veríamos que a culpa principal era dele, sendo por demais permissivo.

Na faculdade, sempre era quem fazia o trabalho do grupo. Em seu estágio, resolvia o problema dos outros também. Até que, um dia, ficou encantado por uma engenheira da empresa. Ela era cinco anos e cinco meses mais velha do que ele. Seu nome era Berthonia; seu pai era Bernardo e sua mãe era Anthonio, como ele descobriria mais tarde.

Ele, pouco a pouco, usava desculpas para estar perto daquele fascinante mulher: conservava a beleza de sua adolescência, matizada por traços seguros trazidos com a idade. A certeza no que fazia profissionalmente apenas o encantava mais e mais. Tinha um humor ácido, inteligente e rápido. Ele, porém, estava enlouquecido por descobrir outras qualidades que ela teria.

Ela o percebia, também de maneira gradual. Um rapaz brilhante, dotado de uma inteligência e carisma impressionante. Achava-o um menino, mas quando o ouviu falando sobre a vida, achou-o um homem feito. Espantava-se com tantas qualidade que apareciam e, principalmente, com o seu bumbum lindo. Ela enrubesceu uma vez em que admirava uma de suas partes preferidas quando ela quase a pegou. Admirava também o fato de usar óculos: achava um charme à parte.

Ela estava desejosa por uma oportunidade de conhecê-lo melhor. Arrumou um almoço com um cliente para conversar sobre um projeto. Após conversarem e o cliente ir, ficaram mais uma hora conversando. Resolveram marcar um café, mais tarde. O café da tarde virou jantar que, por sua vez, se concretizou em uma maravilhosa noite de amor. O menino havia surpreendido a mulher em como era dedicado na cama. Era carinhoso, levando o café-da-manhã e acordando-a com beijos no pescoço e poesias sussurradas ao pé de seu ouvido.

Não assumiram um compromisso, porém nenhum dos dois saía mais com ninguém. Ele a conquistava dia-a-dia, com pequenos sms, e-mails e toda forma de carícia. Ela sentia-se seduzida e retribuía na mesma moeda. Algo, porém, estava prestes a acontecer. Ela começava a se perguntar se aquele menino poderia ser o pai de seus filhos. Achava-se velha e queria ser mãe o quanto antes: sabia que a gestação poderia ser difícil, apesar dos inúmeros avanços da medicina nesta área.

Ele não entendia o distanciamento que, levemente, acontecia. Resolveu intensificar seu romantismo, sem sucesso. Conversaram algumas vezes, tentando chegar a uma conclusão. Lisandro, confuso e cheio de dor, resolveu dar o passo que não queria. Pediu para que terminassem, para que ela pudesse avaliar o que queria fazer. Ela foi pega de surpresa; achava que o amor dos dois havia acabado. Ele reiterou que não, que apenas fazia isto porque a amava demais. Amava-a tanto que desejava passar a vida inteira do lado dela. Ela, contudo, teria que decidir.

Decidiram não mais se falar. Ele foi estagiar em outro setor da empresa. No dia seguinte a esta decisão, Lisandro sofria. Pegou-se, várias vezes, com a mão no celular pronto para lhe ligar. Quando via um e-mail da firma com o nome dela, sentia uma palpitação no peito. Sofria por amor. Quase ligou para ela quando, no final do dia, sentiu o cheiro do perfume preferido dela no corredor. Sabia que ela havia passado por ali. Isto tudo ocorreu só no primeiro dia.

Viveria uma angústia por tudo isto. Sabia, entretanto, que valeira a pena cada esforço que desse na direção de concretizar sua relação com ela (seu maior desejo) ou não; amava-a tanto que gostaria que ela tomasse a melhor decisão para ela, sem que ele pudesse pressioná-la com o seu romantismo, os seus carinhos; com o seu amor.

Cada vez que seu corpo gritava a ausência do corpo dela, cada vez que ele lembrava que adorava brincar com seus negros cabelos sedosos, cada beijo no pescoço, cada jura de amor feitas no meio da conjunção do dois: tudo isto serviria de força para que suportasse a dor que sentia. Sabia que deveria se sacrificar no altar do amor para obter o que desejava. Lembrou de seu pai lhe explicando o que era sacrifício – vinha do termo sacro e ofício, ou seja, ofício sagrado. Sorriu, olhando para o celular, esperando uma ligação. Iria esperar o tempo necessário pela certeza do seu amor.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Joelmo e seu Concurso

Joelmo vivia a expectativa de sua vida. Era um rapaz sonhador, passional e sempre buscou algo melhor para ele em sua vida. Desejava, do âmago do seu ser, se tornar parecido com seu pai: um homem honesto, trabalhador e que vivia exclusivamente para a sua família. Sua mãe era a mulher mais feliz do mundo, sempre acarinhada por um homem bom e disponível para seus filhos. Incentivava-os a crescer, tanto em estudo quanto em caráter.


Nosso protagonista, então, seguiu o mesmo caminho. Teve algumas decepções em relações a escolhas profissionais, mas agora realmente tinha se aprumado na vida. Estava cursando direito e se preparava para um concurso público de segundo grau. A escolha veio depois de um concurso ter sido frustrado por motivos alheios a sua vontade. Desta vez, prometeu ele a si mesmo, desta vez iria dar certo.

Estudava dia e noite, deixando de lado amigos e família. Sacrificava-se para que pudesse alcançar uma oportunidade melhor: sentia-se velho, já com seus trinta anos. Questionava-se se podia ser a metade do homem que seu pai é. Sentia-se, de certo modo, pressionado por ter um exemplo tão correto e bondoso de ser humano dentro de casa. Resolveu, então, apostar em si mesmo, uma única vez.

Sabia que a decisão de estudar oito horas por dia, no mínimo, era radical. Tinha tomado esta atitude baseado na solidão que sentia em sua vida, uma sensação de estar vivendo a sua vida pela metade. Não mais queria se sentir incompleto, queria se tornar o protagonista de sua própria vida. Era raro isso acontecer em sua vida: normalmente, era vacilante e reticente em suas escolhas, sempre buscando caminhos difíceis e respostas fáceis.

Sua resposta, agora, não seria nada fácil. Seria dura, dando o seu sangue e todo o seu emocional para que pudesse prosseguir. Seus dias seriam cheios de intempéries, com direito a duvidar de si mesmo, de ser o seu próprio antagonista. Era ele quem, em primeiro e último lugar, seria quem poderia levar-lhe aos louros da glória ou ao poço sem fim da derrota. Viveria esta batalha interna a cada dia.

Cada folha que lesse, cada pequeno exercício resolvido... Tudo isto seria o balizador para sua vida. “Vou triunfar” – prometia-se a cada exercício feito, a cada dúvida. Chorava, por vezes, a solidão que os estudos traziam-lhe. Não se deixou abater no início: prosseguiu, com passos curtos e firmes, até que pudesse correr de novo. Acreditava em si mesmo e dali não haveria mais retorno.

Uma semana antes da prova, já exausto e bitolado em certo ponto, seu cérebro levou-lhe, de súbito, ao passado. A um namoro que teve com Carmina, uma linda e apaixonante adolescente. Eles tinhas quinze anos, sua primeira vez tinha sido com ela. Achava-a fascinante, e ela era. Ela também o achava assim. Ele a perdeu por não confiar nele mesmo. Lembrou-se que, em dado momento do relacionamento deles, ele havia cedido. Ela, então, pouco a pouco, foi deixando-o de lado. Chorou muito por isto.

De volta para o presente, sorriu. Um sorriso gostoso, daqueles de quando a ficha cai. Sempre deixou que as mulheres fizessem dele gato e sapato, mas tinha percebido o quão especial era: era um homem e tanto, apenas buscando o seu caminho profissional. Lembrou do quão especial todos achavam que ele era, inclusive seus mais próximos amigos. Admiravam o seu jeito espontâneo e meio moleque. Isto contrastava com a sua profundidade de ser humano e o quanto sabia tratar de modo adequado e aprazível outro ser humano.

Suspirou e sorriu de novo, espreguiçando-se. Lembrou rapidamente de todas as suas ex-amantes e decidiu, firme, que também levaria o seu relacionamento baseado na certeza do quão especial era. Não deixaria, contudo, do seu amor deixar de ser belo e puro; muito pelo contrário, continuaria sendo quem ele é. Só que, agora, quem em sua totalidade era: confiaria em si mesmo para tomar as atitudes, por mais complexas e dolorosas que fossem. Sabia que, no final, valeria a pena por saber a verdade.

Abreu e seu dilema

Abreu era um jovem bem atípico para a sociedade moderna. Acreditava no amor e no ser humano. Gostava de pensar que as pessoas eram boas por natureza e que apenas quando se sentiam fracas, faziam mal a alguém. Poderíamos chamá-lo de sonhador. Um sonhador romântico, acrescentaria. Namorava apenas uma mulher de cada vez: preferia provar várias vezes a mesma do que uma vez várias. Este é o nosso nobre herói, em poucas palavras.

Abreu estava namorando Myllena. Ele, um romântico e ela, uma pessoa absolutamente racional. Era engraçado ver os dois juntos. Compartilhavam várias características em comum, destoando gravemente somente nesta. Enquanto ele lembrava as datas comemorativas, mandava-lhe flores e escrevia-lhe cartões, ela os recebia e, por vezes, até retribuía. Quando estavam sós, na intimidade, porém tudo se acertava. Estas intimidades eram poucas, dadas as vidas profissionais de cada um: ele, um engenheiro, ela, uma autora de romances.

Pode parecer estranho, mas era exatamente isto. Enquanto Myllena usava Abreu para suas inspirações em seus livros, Abreu a usava para poder sair dos cálculos de estruturas. Abreu gostava de sair para comemorar as datas, sempre sabendo que ela não lembraria. Mas Abreu estava ficando cansado: um dia inteiro havia tentado falar com ela, sem sucesso algum. Isto seria normal, ambos estavam, por vezes, acostumados a esta rotina. Ele, porém, percebia que algo estava se partindo.

Sentia, pouco a pouco, seu amor ir se escoando. Era como se ele doasse e não recebe uma outra via. Deixava, por muitas vezes, de lado para que esta situação não atrapalhasse o casal: contudo, estava começando a atrapalhar o seu cotidiano. Vivia preocupado, sem deixar transparecer. Naquela, noite, iria conversar com Myllena sobre tudo o que estava passando pela sua cabeça. Iria ser claro como um rio límpido, se tivesse tal coragem.

Ao pegá-la em sua casa, conversaram amenidades. Ele não conseguia disfarçar a sua ansiedade e ela percebia que algo estava errado. Após alguns minutos, houve aquela pausa constrangedora. O silêncio imperava no ar, denso como argamassa. Ela, apertando as suas pequenas e delicadas mãos uma contra a outra, fez a fatídica pergunta:

- " Aconteceu algum pra você estar chateado?"

Ele suspirou fundo, balançando a cabeça duas vezes de um lado para o outro e soltou o ar. Falou para ela tudo o que o estava angustiando, com parcimônia e calma. Dizia que se angustiava pela falta que ela fazia na sua vida: o fato de poucas vezes conseguirem dormir juntos, o fato de se falarem mais por telefone do que pessoalmente, o fato dela ter deixado de mandar os sms bonitos que mandava no início da relação. Ela ouvia tudo, com os olhos marejados.

Ao acabar de falar tudo, Abreu observou os olhos de Myllena encherem de água e, uma lágrima, escorrer do seu oho esquerdo. Ela olhava para ele com sofreguidão. Ele encostou o carro. Ela pegou na mão dele, como se fosse um tesouro precioso, algo que nunca antes ele havia encontrado em toda a sua vida. Ele se sentiu acalentado e culpado por tudo aquilo. Ele tentou contornar a situação puxando a conversa de novo:

- "Desculpe... " - dizia ele - "Eu não queria..."

Ela, gentilmente, colocou o dedo indicador de sua mão direita sobre os seus lábios.

- "Você disse tanto... E eu, sempre tão pouco. Desculpe por ser assim, mas tenho tanto medo de me machucar de novo. Você é muito especial, Abreu. Eu não mereço uma pessoa que tenha tamanha dedicação por mim. Sei que ando ocupada com o trabalho; este lançamento do livro é importante para mim. Você acha que também não penso em você? A grande vantagem minha é que cada personagem masculino que encanta as personagens femininas do meu livro são inspirados em você. Na sua doçura, na sua gentileza... Olha, adorei que tenha se aberto comigo assim, viu? Mas... Posso fazer uma sugestão?"

- "Pode." - disse ele, com remorso e esperança

- " Nunca deixe chegar a esse nível de angústia, viu? Isto é só coisa da sua cabeça, seu bobo. Aliás, a minha sugestão é a seguinte: vamos deixar de lado o jantar e ir comemorarmos o nosso aniversário de namoro em algum outro lugar mais particular? Sabe aquele corpete com cinta-liga que tanto gosta? Estou com ele hoje." -disse, passando as unhas de leve por cima de sua mão direita - "Que acha de ver se é verdade o que estou dizendo?" - disse, sorrindo a malícia dos amantes.

Abreu sorriu. Ficou aliviado que ela tenha aceitado tudo de uma maneira tão leve e de uma maneira tão gratificante para a relação dos dois. Deixou escorrer uma lágrima, também, tamanha a emoção. Beijou-a, nos lábios de leve e abraçou-a forte, expressando todo o carinho e amor que um homem pode ter pela sua mulher amada. Ficou poucos segundos que pareceram momentos infinitos de eternidade. Após isto, os dois inclinaram a cabeça, com os olhos entre-abertos, olhando-se em suas janelas da alma. Deram-se outro beijo e sorriram. Eram duas crianças para lá de felizes e entregues a sua própria fantasia romântica.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Joanice

Joanice, ou Jô como preferia ser chamada, estava passando por um momento muit difícil na sua vida. Tinha percebido que havia realizado escolhas na sua vida que estavam lhe trazendo muita dor. Sua profissão estava de pernas para o ar e a sua vida pessoal não poderia ser chamada muito bem de vida: não tinha nenhuma. Afundava-se em trabalho para poder esquecer o Cavalo de Tróia que tinha aceitado em sua vida no passado.

Chorava, vez por outra, mas somente por dentro. Desde que tinha ocorrido a abertura do Cavalo e sua cidade havia sido dominada, nem na hora que encerrou o relacionamento com o seu ex-marido. Ele havia contrariado todos os juramentos feitos diante do celebrante: "Amar e respeitar" - todos os outros ela suportaria. O que não suportou foi a traição velada que ele realizara: deixou-a de lado, aos poucos, como se fosse apenas um cd do qual gostamos muito e só vemos sua capa, nunca o tocamos.

Quando sua vida parecia se normalizar, com o trabalho tomando conta de sua vida, sua empresa decidiu lhe dar férias. Tinha duas acumuladas e não desejava pagar por elas. No primeiro dia, ficou dentro de casa, de um lado para o outro. Ligou a tevê, o rádio, tentava ler um livro e cozinhar: tudo ao mesmo tempo. Não queria ouvir a voz de sua própria consciência.

Alguns dias depois, encontrava-se triste. Ela lembra muito bem daquela quinta-feira de manhã. Era fria, com o sol se escondendo atrás das nuvens. Ela caminhava pela rua, procurando um bistrô para comer, quando parou em frente a uma loja de roupas. Olhava, distraidamente os sapatos, quando deu de frente para si mesma. Olhou dentro de seus olhos e, por incrível que pareça, lágrimas rolavam por sua face.

Envergonhada por isto, tentava se conter, sem sucesso. Buscou um templo religioso, qualquer que fosse, para poder ter um pouco de privacidade. Achou um. Sentou em seu banco, sem em momento algum, deixar de escorrer lágrimas por sua face. Estava triste, só não sabia exatamente com o quê. Tentava se recompor, numa vã possibilidade de re-enterrar todo o seu passado. O Inconsciente, porém, é caprichoso: nos avisa através de pequenos sintomas no corpo, tal como atopicidade ou gripe que algo não anda bem. Quando deixamos estes sintomas de lado, outros surgem - até o momento da Revelação.

Flashes passavam pela sua cabeça e ela não conseguia apertar o botão de pausa, para que pudesse lembrar das cenas. Ficou assim por, ao menos, uma hora. Após estar exausta de tanto chorar, algo aconteceu. Não como nas novelas ou em livros, com cores e formas ou até em filmes com cenas marcantes, luzes impressionantes... Ela se sentiu tocada por algo maior do que ela mesma, como se tivesse sido levada para uma montanha e visto a paisagem do seu passado.

Com isto, aos poucos, foi conseguindo obter o controle de sua respiração de novo. Aos poucos, foi observando todos as mazelas que ela própria tinha deixado acontecer na sua vida. Ela ia, de pouco em pouco, separando o joio do trigo do passado. Percebeu que ela própria tinha feito tudo, até mais do que o necessário, para poder ter salvo o seu casamento. Balançou a cabeça, como que se estivesse afastando de sua própria cabeça de que a culpa seria exclusivamente sua.

Deu um sorriso de canto de boca e movimentou a cabeça, instintivamente, para cima. Abriu os olhos aos poucos e sentiu ainda mais paz no seu peito. E um pensamento veio em sua cabeça, de uma maneira repentina, mas concatenado: "Meu Deus, obrigada por todas as oportunidades que me deu para aprender. Eu me perdôo por tudo o que deixei que me causassem, mas a partir de agora, desejo caminhar com esta paz que eu sinto. Desejo mudar tudo, de agora em diante, passo-a-passo. E assim vou continuar porque sei que toda a dor para mudar, será compensada com o amor por mim mesma e, assim, poderei me abrir para o amor de outra pessoa."

Ficou ainda mais um tempo saboreando aquele doce gosto de satisfação em sua boca, aproveitou para limpar o rosto. Pegou seu espelho de bolsa e olhou-se, feliz. Passou o batom e sentiu-se mais viva, como se tivesse deixado uma bola de aço para trás. Ela libertou-se de sua própria prisão que havia construído para não se perceber como a mulher fascinante, inteligente, bem-humorada e bonita que era. Sentiu-se ainda mais bonita com tudo aquilo. Resolveu sair de lá e aproveitar o dia, como um pássaro que acabado de dar seu primeiro vôo para fora do ninho.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Prazer.

Estamos em nosso próprio universo, onde o tempo e o espaço em nada podem interferir. Neste nosso universo, onde só cabe a mim e a ti, podemos estar entregues um ao outro da maneira mais pura e bela. Observo-te, deitada, encantando-me com teu charme, fitando-me com teu olhar, desejosa que eu me aproxime. Tuas órbitas oculares me chamam para dançar, e eu, feliz e contente, humildemente ofereço-me para tal tento.


Toco o teu corpo de uma maneira carinhosa, o qual fica retesado com a mera aproximação da minha mão. Percebo o teu riso, de satisfação, um riso matreiro de uma mulher que irá ganhar o melhor presente que pode-se esperar de alguém: um amor sem restrições, sem pudores. Após percorrer teu corpo com a minha mão, encosto meus lábios em tua pele. Sinto os teus pelo se ouriçando, e escuto um leve arfar saindo de tua boca. Sem precisar olhar-te, percebo o prazer exalar de teus poros.

Deito-te, em nosso leito nupcial. Percorro cada local, com atenção e zelo, não importa o quão recôndito ou inóspito ele seja. Toda pequena parte do objeto de prazer que me é oferecido merece ser explorado da mesma maneira: apaixonadamente, com improvisações em tudo o que já foi feito, apenas para poder aumentar a tensão que já é quase insuportável entre nós dois separados um do outro.

Ao terminar isto, toco os meus lábios nos teus e a minha língua encontra a tua. Se queríamos dançar, agora só esta parte dos nossos corpos conseguem saciar esta sede. Da saliva, dos músculos se encontrando, do fervor, de tudo aquilo em que até Cronos perderia a noção de tempo e Morfeu nunca pensou em imaginar algo do gênero, surpreendo-te.

Adentro o teu inferno com firmeza. Ao iniciar este processo, vejo que faço você sair do Purgatório da nossa vida cotidiana e alcançar um pedaço do céu. Estamos juntos, ligados por uma ponte do prazer que não tem prazo para terminar. Exercemos nossas habilidades de tentarmos unir nossos corpos sem pressa.

Variamos nossos lugares de amantes e o modo como podemos fazer o nosso pequeno ritual. Enquanto as areias do tempo humano escorrem, tocamos nossas almas com a mesma delicadeza que de um sorriso que nos é dado. Isto, porém, também é insuficiente para podermos satisfazer nossos impulsos. Trocamos juras de amor, sussurramos palavras excitantes e também tentamos falar coisa que não conseguimos, balbuciamos meras palavras tamnha é a volúpia ali instituída e aumentada.

Após um pedido teu, feito entre dentes, quase que lânguido pelo esgotamento de energia, fazemos aquilo que tanto gosta. Coloco-te, de uma certa maneira, em submissão. Deste jeito, o nosso amor pode fluir de maneira ainda mais incontida. Faço tudo aquilo que se é permitido fazer com a pessoa amada. A tua retribuição são os já conhecidos e, ainda assim, surpreendentes jeitos de mostrar-te o prazer que lhe proporciono. A isto, também não resisto, e derramo-me em ti.

Não que seja o fim de tudo... Isto é apenas o início, o aquecimento de nosso amor. Acarinhamo-nos, um ainda preso ao outro, sentindo apenas que o mundo parou. Sorrimo-nos, com a inocência de duas crianças. Apreciamo-nos, como uma obra-prima composta por um gênio. Ali, naquele espaço, no nosso espaço, podemos ser aquilo tudo que temos medo de ser fora dali: nós mesmos. Aceitamo-nos como somos, tudo aquilo que somos. E isto só da margem para mais e mais prazer.

domingo, 4 de julho de 2010

Ataíde e Patriccia

Ataíde tinha acordado cansado naquela manhã de domingo típica de um inverno. Ao levantar-se de sua cama, olhou para o lado e percebeu que sua amada não estava mais ao seu lado. Demorou, aos poucos, tanto pelo sono quanto por não querer lembrar, que ela havia viajado para um Congresso de Medicina. Imediatamente a isto, veio em sua cabeça a discussão que eles tiveram antes dela viajar.


Não havia tido ofensas por nenhuma das partes; sempre se respeitavam. Mais do que isto, chamavam a si mesmos de amantes, mesmo com um relativo tempo de relacionamento. Mais do que isto: prometeram sempre, um ao outro, sempre serem amantes, não importando qual passo da relação mais a frente seria tomado.

Aí residia a questão do relacionamento deles. Ele, um promissor estudante de direito e concurseiro e ela uma médica já realizada na sua profissão. Ele tinha cinco anos a menos do que ela; não que isto importasse um para o outro: importava para ela a vontade que tinha de ser mãe. Ataíde, por sua vez, conversava com Patriccia sobre isto, vez por outra, quando o inconsciente dela trazia a questão à tona. Sexo, amor, companheirismo e conversa eram a base do relacionamento deles, variando de posição dependendo da necessidade do casal.

Eles prometeram não se falar neste ínterim. Queriam aprofundar o relacionamento, levá-lo um passo a diante. Isto, porém, deveria ser dado baseado na falta que o amor de um pelo outro causasse, não simplesmente por uma mera necessidade de se ter alguém – não que fosse o caso – mas Ataíde queria ter certeza de que Patriccia iria tomar sua decisão pautada exatamente sobre este critério: o da felicidade pessoal dela, em primeiro lugar.

Ele, então, decidiu caminhar naquela manhã. Tinha por hábito fazer isto quando precisava juntar os quebra-cabeças de sua vida. Tomou um suco e foi andar. O vento frio, misturado com a luz do sol o fez lembrar dela. Nada que fosse muito diferente, tudo fazia lembrar dela. Ao caminhar, percebeu a marca que ainda tinha em seu braço que ela havia feito fazia uma semana.

Era o polegar dela. Ela o havia marcado em uma tórrida noite de amor, em um descontrole causado pelo prazer que ele proporcionou a ela; um dos inúmeros daquela bela tarde em que comemorou o seu aniversário com ela. Ela, tímida após sempre repetir o mesmo ato, se desculpava. Ele, sorrindo como uma alvorada, dizia que adorava o descontrole dela pelo simples fato de se entregar totalmente a ele, sem pudores.

Algo que ele nunca disse é que o fato de marcá-lo era apenas mais uma maneira dele tê-la em seu dia. Além da mente, tomado pelas doces e inteligentes palavras, o coração era dela também, especialmente o Ventrículo Esquerdo. Mas quanto mais, melhor, pensava Ataíde. O seu próprio corpo era o templo de amor dela e ele gostava que a sua deusa, musa inspiradora, deixasse claro que ali era somente o reduto dela.

Abriu um sorriso de canto de boca, típico que ela fazia quando ficava tímida após confissões amorosas realizadas por ele. Parou a caminhada, olhou para cima e desejou que ela pudesse ler os seus pensamentos de alguma maneira. Alguma maneira que não conseguisse burlar a regra estipulada por eles (nunca foram bons nisso, a ansiedade de ambos sempre debelava estas regras sobre afastamento e futuro do casal).

Ele queria ter uma forma de magia, de canto, de poesia que pudesse dar a ela a certeza do quão especial e importante ela era na sua vida. Por isto, a colocava em primeiro lugar no relacionamento deles, porque ela também o colocava. Ele, sorrindo com aquele amor imenso que tinham um pelo outro, resolveu esperar. Iria ser paciente como os sábios e lembrou-se de duas coisas muito importantes que aprendera em sua meninice.

A primeira é que lembrou de um ditado que dizia que um homem estava decidindo que estrada tomar para que pudesse resolver a maior questão de sua vida.Resolveu, então, tomar o caminho menos usado, o mais ousado. Foi difícil no início, mas ele percebeu que era o melhor caminho para ele, pois os desafios encontrados recompensavam-no com tesouros ainda maiores a serem descobertos.

A segunda delas é que o amor é como um pássaro, devendo deixá-lo livre para que possa voltar ao seu ninho. Ela era sua pequena borboleta, que trazia-lhe a esperança de que cada dia seria melhor do que o anterior. Valia a pena esperar por ela, mesmo que fosse um éon de espera. A eternidade seria pouco para que ele pudesse desfrutar do que ela poderia oferecer para ele, através da sua própria escolha de felicidade. Paciente, sorriu de novo, com esperança no que poderia acontecer.

sábado, 3 de julho de 2010

Manuel Arthur e Antônia

Manuel Arthur era um sujeito um tanto quanto composto. Em seu parco entendimento lingüístico, preferia ter nascido apenas com um nome, para que pudesse ser mais simples. Ora ele agia como Manuel, ora ele agia como Arthur. Por uma destas coincidências do destino, trabalhava na área de relatórios revisionais e críticas. Seu trabalho consistia em, basicamente, apenas apontar erros e qualidades. Porém, como em quase tudo em sua vida, ficava indeciso e nunca fazia um fechamento, apontando um direcionamento.


No campo do amor, então, teríamos que falar que ele tratava a si mesmo como um verbo intransitivo, incapaz de se relacionar com o seu objeto direto de desejo, invariavelmente nem mesmo caindo no campo do amor platônico. Achava-se por demais simplório em suas concepções de vida: trabalhar para sustentar sua família, ser fiel a sua esposa e também amá-la intensamente. Adicionaríamos a ela, o seu desejo intrínseco de ter filhos. Para ele, era simplório para toda e qualquer mulher um homem destes.

Estranhos e curiosos são os caminhos de nossa vida. Estranho e curioso também seria o de nosso intrépido anti-herói. Em uma destas segundas-feiras, em que não esperamos nada do trabalho, foi realizada uma avaliação 360 graus no seu setor de trabalho. Manuel, claro, não pestanejou e classificou tudo como sempre costumava: buscando anular uma característica boa a uma característica ruim, a fim de retratar que todos eram neutros.

Uma semana após este fato, foi chamado pela chefia de Recursos Humanos. Só havia ido lá por dois motivos: ser contratado e assinar suas férias. Temia, com isto, que sua avaliação foi tão mal realizada que sua demissão seria o caminho. Respirou fundo e, sentindo-se mais uma vez um agente da passiva, como se sentiu em relação a toda a sua vida, caminhou até a recepção dos Recursos Humanos. Esperou, pacientemente, pois a secretária havia informado que a diretoria ainda deveria chegar.

Quando a diretoria chegou, ele a viu somente representada na figura mais bela da mais bela das mulheres que ele já havia visto em toda a sua vida (sim, com mais figuras de repetição e sentimentos superlativos que este pobre narrador poderia ter). Sua tez era branca, harmonizada com a cor de cacau que fluía de suas madeixas. Seus olhos eram negros como a noite e enigmáticos como o oceano iluminado pela lua. Suas curvas somente poderiam ser descritas como de uma bela região montanhosa e perfeita. Tudo isto estava envolto em um belho vestido lilás, com um sapato marrom e uma bolsa da mesma cor.

Sentiu-se menor ainda por ter uma mulher como aquela perto dele. Ela entrou em sua sala. Esperou alguns minutos e o chamou através da secretaria. Manuel tremia feito uma vara verde, mas decidiu respirar fundo e tentar se tornar um sujeito de sua própria vida. Mas, desta vez, ele desejava que pudesse ser um sujeito ativo, cheio de predicativos.

Ao sentar-se, a diretora (chamava-se Antônia) perguntou para ele o motivo de ter feito uma avaliação tão meticulosamente equilibrada. Sentiu um nó na garganta e tentou abrir os lábios. Não conseguiu. Respirou fundo e lembrou-se de sua aula de português. Lembrava que o presente era o lugar do sujeito e deveria usar isto para basear suas escolhas. O passado iria ocorrer assim que ele falasse e, do futuro, nada podia esperar, somente um futuro daquele mesmo presente que ele estava construindo naquele momento.

Com isto, discursou de maneira magnífica sobre como poderia ser bom analisar as coisas de maneira tão analíticas. Admitiu, contudo, pequenos erros e os atribuiu ao stress que gerava fazer avaliações. Revelou, ainda, que estava desejoso por poder contribuir mais para a empresa e que também desejava algo maior para sua vida do que passar dez anos no mesmo setor.

Antônia espantou-se, nunca alguém havia sido tão sincero e tão aberto. Admirou-o por isto. Começaram a conversar sobre amenidades também, uma longa conversa. Um saborosa conversa sobre preferências musicais, gostos por vinhos, literatura e por uma infinidade de assuntos. Riram-se e divertiram-se muito deles mesmos. Até que entraram em um assunto delicado.

Sim, caros leitores, a vida amorosa. Conversaram muito. Ela admitiu que sempre se sentia uma agente da passiva, deixando-se levar por homens que nunca a mereceram. Ele, por sua vez, admitiu que sentia-se também agente da passiva, com algumas vezes tendo se sentido um mero verbo de ligação para o sujeito principal da oração amorosa: a outra mulher que, de vez em quando, ficavam com ele.

Os dois, após um pausa de identificação e timidez típica de duas pessoas que se identificaram, resolveram continuar a conversa no almoço. E depois, em um outro almoço. Começaram a se encontrar tanto e de tantas maneiras que sua história de amor começou a ser escrita pelos dois, mas de uma maneira tão bonita e tão sincera que tornavam-se cada vez mais desejosos um do outro.Cada um, ao seu tempo, tinha virado o sujeito principal e ativo de suas vidas, porém, decidiram compartilhar todos os seus verbos de modo recíproco e não mais receptivo. Amaram-se e casaram-se. E, quando se travava de objetos diretos, poderíamos dizer que “eles tiveram quatro filhos”.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Akino e Bee

Akio era um pequeno goblin. Era verde, tinha olhos negros e sua baixa estatura, vez por outra, o fazia motivo de chacota por outras criaturas daquela pequena floresta. Ele era um goblin de bom coração: gostava da natureza e preservava suas boas amizades. Gostava de cativar as outras pequenas criaturas mágicas que tanto tornavam sua vida feliz. Tinha ele se acostumado a viver como um bom vivant e pouco se importava com o amanhã; ele nunca havia lido o conto da cigarra e da formiga.


Um dia, uma pequena graça ocorreu no seu dia. Ele encontrou um pequeno filhote de unicórnio fêmea, a qual chamou de Bee. Ela havia se tornado a razão de todo o seu viver. A princípio, ele era um pouco raquítica e era meio desengonçada enquanto criança. Aos poucos, o seu tratador e seu melhor amigo forneceu carinho e boa alimentação para que ela se desenvolvesse.

Passavam dias inteiros juntos, Akio escrevia para ela poemas e sonetos. Tudo o que ele tinha, dedicava a ela, até as horas do seu sono. Gostava de velar o sono de Bee, acariciando as suas crinas negras e deslizando a sua mão pela face daquele unicórnio fêmea. Unicórnios crescem não só a base de alimentação, mas principalmente de amor. Akio ansiava para que Bee crescesse rápido, para que pudessem se aventurar para além da pequena floresta. A pequeneza dela havia, pouco a pouco, infectado o pequeno goblin; sentia-se menor do que ele próprio, fato que Bee sempre tentava negar, devolvendo-lhe o afeto dado por ele.

Porém, em uma certa noite, Bee fora vítima de uma grave moléstia. Seu chifre, fonte de todo o seu poder mágico que já se mostrava imenso, começou a apresentar uma coloração estranha. Akio ficou preocupado; conhecia pouco sobre unicórnios e menos ainda sobre as doenças que os acometia. Ficou preocupado. Procurou, então, entre as criaturas mágicas, como poderia fazer para salvar a sua companheira de longa data.

Foi orientado por uma Pixie que deveria procurar um velho mago que morava ao Leste da floresta. Uma travessia de três dias. Ele arregimentou suas próprias forças e arrumou uma pequena mochila com mantimentos para a viagem. Uma lança para defendê-los de alguma outra criatura que pudesse atacá-los. Assim, com esperança de que tudo desse certo e medo do que poderia dar errado, ele partiu em sua busca.

A travessia, em si, nem fora tão perigosa. Ao chega na velha choupana do mago, Akio teve uma surpresa. Era uma aprendiz do antigo mago que estava lá. Ela explicou para ele que o ancião havia ido atender um pedido do rei dos anões e por isto não estava ali presente. Um nó firmou-se na sua garganta, que foi medianamente dissolvida com as palavras suaves da doce aprendiz.

-“Escute com atenção, pequeno goblin...” – fez isto enquanto olhava cuidadosamente o chifre de Bee – “Este unicórnio tem um laço muito especial com você. Ter chegado até aqui não foi o mais complicado, mas o que vem a seguir o é. Deverá ir na montanha mais alta do pico nevado e encontrar uma erva vermelha, em formato de coração. É dela que precisarei para cuidar de sua amada companheira. Está pronto para isto?”

Um calafrio percorreu a espinha de Akio. Ele nunca havia feito nada tão perigoso e, por seu descuido, Bee havia contraído esta grave moléstia. Ele não sabia o que fazer, nem se deveria confiar na aprendiz. Decidiu, por bem, deixar Bee para que ela cuidasse. Sabia que ela não agüentaria a viagem que poderia possibilitar a sua reabilitação. Tinha medos e angústias, todas refletidas nos seus pequenos joelhos que tremiam.

Perguntou a aprendiz, com os olhos cheios de lágrima, se ela poderia administrar a situação até que ele obtivesse o fôlego necessário para que pudesse prosseguir em sua tão arriscada jornada. A aprendiz sorriu, disse que ele deveria confiar nele mesmo e que iria fazer de tudo para que Bee ficasse viva para que pudesse receber o bálsamo. O pequeno goblin, então, olhou para Bee.

Contemplou todos os seus medos, o medo de perdê-la, o medo de não se sentir merecedor de um ser mágico tão especial. Estava destruído por dentro, arrasado por todos os sentimentos desesperançosos que se pode haver. Chorava copiosamente a dor de poder perder alguém tão especial. Enquanto suas lágrimas se derramavam, algumas escorreram pelo chifre afligido pelas chagas. Algo aconteceu.

Seu sofrimento e angústia pelo amor que possuía por Bee deram uma outra cor ao chifre. Originalmente era branco e havia ficado negro com as chagas; agora, havia tornado-se cinza. A aprendiz o congratulou por demonstrar seu amor verdadeiro e que, pelas lágrimas derramadas, ele havia conseguido o tempo necessário para realizar a sua empreitada. E que, dali por diante, deveria provar que era merecedor do vínculo de amor que havia estabelecido com Bee.

Ele encheu seu peito de esperança de novo. Havia sido renovada toda a sua força para que pudesse trilhar este caminho novo, esta nova aventura, para que pudesse restaurar tudo o que o unicórnio era para ele. Sabia que precisaria voltar o mais rápido que pudesse com o bálsamo, para que o unicórnio finalmente pudesse se desenvolver em sua máxima plenitude, desabrochando uma magia nunca antes vista naquele século.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Nélio e um dia de trabalho...

Nélio era um proeminente advogado. Trabalhava em uma notória firma de direito tributário. Era noivo de Emanuella, uma médica dois anos mais velha do que ele. Eles tinham um bom relacionamento. Ele, um típico canceriano, gostava da paz que um bom relacionamento trazia. Ela, capricorniana, tinha aquela necessidade grande de trabalhar para poder não dar relevância aos seus problemas pessoais. Não que ela fosse uma pessoa ruim, longe disto. Apenas era ansiosa, como ele também.


Em uma quarta-feira, Nélio chegou ao trabalho um tanto quanto desconfiado. Notava que seu superior, que era um grande amigo, pouco trocava palavras com ele após uma avaliação 360 que tinha sido realizada duas semanas antes. Aquilo poderia ser um indicativo de que poderia haver algo de podre no reino da Dinamarca, mas ele pouco se importava com aquilo e continuava a realizar o seu trabalho.

Por volta das dez horas da manhã, recebeu um telefonema do departamento de Recursos Humanos para que lá comparecesse. Gelou. Tinha medo de que fosse demitido, várias e várias coisas lhe percorreram a cabeça. Ajeitou o nó da gravata em uma tentativa de que aquilo fosse lhe dar o centro necessário para prosseguir. Caminhou, até lá, de uma maneira a tentar acalmar-se. Parou em frente a porta e a abriu.

Observou que o superior do departamento no qual trabalhava estava lá junto com o diretor dos Recursos Humanos. Jamil, o superior, lhe dera os parabéns. Ele seria ali promovido para uma outra área como chefe do setor. Nélio, por sua vez, soltou um suspiro aliviado e cumprimentou os dois chefes. Ele voltou para sua mesa muito feliz. Ligou para uma floricultura e mandou entregar um belo buquê de lírios para sua amada.

Após voltar do almoço, não tinha recebido nenhuma ligação de Manu. Resolveu ligar para ela. Emanuella estava com uma voz atravessada, para lá de mal humorada. Ao passo que Nélio perguntou o porquê, ela disse que iria sair de um dos plantões que ela fazia e que ela estava preocupada com a situação financeira. Nélio falou para ela que seria bom, mas ela o cortou no meio do caminho. Falou que estava chateada com várias coisas e nem o ouviu. Nélio recolheu-se e falou que iria ligar para ela mais tarde. Não havia dado tempo de dar a sua boa notícia.

Nélio tentou esquecer aquela pequena desavença e voltou a trabalhar; estava preparando seu último relatório para que fosse cumprido o prazo de até as seis horas daquele mesmo dia. Pediu auxílio da sua estagiária, que sempre flertou com ela. Ela parecia muito mais amável naquele dia. Ele sempre a cortara, não deixando que ela pudesse ter qualquer tipo de esperança. Naquela hora, porém, ele até aceitou o flerte momentâneo.

Trocaram algumas palavras com algumas segundas intenções, mas nada que fosse além de pequenas coisas. Ao pedir para que ela fosse pegar alguns livros e faturas, ele colocou sua mão direita sobre a mesa e observou a sua aliança. Brincou no dedo com ela, girando-a. Lembrou-se de quando a deu para Emanuella, em uma cantina italiana que eles sempre gostaram, ao som de um belo violino.

Nesta hora, seu celular tocou. Observou que era Manu. Respirou fundo, preparando-se para uma conversa que não seria frutífera. Ao atender, notou que a voz dela estava pequena do outro lado, como se sentisse acuada. Ela pediu desculpas pelo jeito que o havia tratado, agradeceu imensamente as flores. Ele, enfim, contou as suas novidades. Ela chorou, um pouco. Deu um pequeno soluço e disse para ele que sentia muito. Após isto, ele apenas pediu para que ele resolvesse as suas coisas.

Ela tomou um susto. Perguntou como ela poderia resolver suas coisas. Ele, sorrindo largamente, falou que ela devia enfrentar seus problemas e nunca deixar as coisas para a última hora. Falou que os dois eram ansiosos e deviam sempre procurar planejar e resolver, nunca postergar. Era um hábito deles, mas que ele fazia para ela as resoluções porque achava necessário.

Falou que de agora em diante, iriam dividir esta responsabilidade; que a amava e que a iria esperar em casa com um bom vinho. Lembrou que iria ajudá-la neste caminho e que também precisaria da ajuda dela, para sempre poderem andar de mãos dadas rumo a um belo futuro. Ela sorriu, agradeceu novamente o carinho que ele tinha para com ela e também lhe prometeu uma boa surpresa. Ao desligar, Nélio também sorriu e percebeu que tinha tudo o que precisava para ser feliz com Emanuella.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Arinaldo e Brendha

Arinaldo era um homem de meia-idade que não havia crescido. Ele tinha congelado seus sentimentos na sua infância e parte do início da sua adolescência. Possuía aquele olhar ingênuo e um coração doce. Procurava sempre ser gentil com todos que encontrava e buscava ajudar as pessoas. Tirava do que possuía, por muitas vezes, para poder doar.


Morava em um humilde apartamento, com muitos livros. Na verdade, o apartamento de dois quartos tinha um totalmente ocupado por livros. Ele gostava muito da leitura. Passava grande parte dos seus dias lendo e observando as pessoas. Ganhava seu dinheiro escrevendo sobre as pessoas e sobre ele próprio, sempre se disfarçando em um personagem ou outro.

Todas as garotas do colégio que nunca lhe deram bola se transformavam em suas musas inspiradoras. Seus contos eram matizados por uma tristeza sincera e uma incapacidade de suas personagens mudarem seus comportamentos em relações ao cotidiano. Sempre que se encontravam diante de uma indecisão, suas personagens resiganavam-se a sua própria mediocridade e se recolhiam nos mais recôndito lugar de suas almas.

Um dia, meio que por acaso, Arinaldo sentiu-se em um de seus contos. Encontrou uma das meninas pela qual era apaixonado na adolescência, Brendha, em um restaurante chinês no qual almoçava todas as terças. Demorou aproximadamente um mês para que pudesse trocar uma única palavra com ela, tudo isto porque ela se aproximou e esbarrou nele. Ele simplesmente verbalizou:

-"Desculpe." - Deu de ombros e quando estava indo embora, ouviu uma voz.

-"Arinaldo?" - Disse ela, com um sorriso nos lábios - "Há quanto tempo que não nos vemos. Como você está?"

Ele reparou que ela em nada tinha mudado. Possuía a mesma pele branca, algumas marcas de espinha na pele e seus atípicos olhos negros. Conversaram durante horas sobre amenidades, coisas do colégio e até do seu cotidiano. Ela era viúva, agora e ele nunca havia se casado; na verdade, nunca havia chegado perto de ter um relacionamento duradouro no qual ele não precisasse pagar para ter companhia. Trocaram telefones.

Ele, então, ao chegar no seu apartamento, escreveu durante horas. Seus dedos doíam a cada tecla que digitava no seu computador. Estavam vermelhos, doridos, mas mesmo assim ele prosseguiu. Chegou a escrever mais de cinquenta páginas naquele dia. Caiu exausto. No dia seguinte, não teve coragem de ligar para Brendha. Continuou escrevendo durante quatro dias. Enviou para o seu editor um romance lindo, mas este era diferente dos demais contos e romances. Este tinha um final feliz.

Estava resignado, como todos os seus personagens. Até o do seu recente romance tinha sido assim: a sua amada platônica teve que tomar a iniciativa. Lembrou disto enquanto estava deitado no seu sofá da sala. Escutou o seu celular tocou e se dirigiu até ele. Viu que era o número de Brendha. Segurou o celular na mão, observou e não atendeu. Ficou feliz de tê-la imortalizado no seu romance.

Alguns meses se passaram enquanto ele se dirigia para a sua noite de autógrafos. Odiava aquilo porque odiava intimidade com as pessoas. Preferia as observar de longe, de onde pudessem quase ser controladas com suas percepções e suas técnicas psicológicas defensivas. Naquela noite, porém, só o vinho salvaria sua já patética insanidade. Decidiu autografar todos os livros que lhe fossem enfiados goelas abaixo.

Um dos livros, porém, chamou-lhe atenção. Não tinha a capa de sua editora e sim uma capa personalizada, com uma foto sua e seu nome. Olhou para a mão que lhe tinha entregue. Era uma mão feminina, unhas bem feitas e tonalizadas com a cor violeta. Continuou seguindo e observou uma pulseira de ouro com pedras com a cor parecidas as das unhas. Ao continuar o caminho daquele alvo braço, encontrou o rosto de Brendha.

Ele, desnorteado, levantou-se e foi para fora da livraria. Começara a precipitar a chuva. Ele se sentia desolado e inerte por sempre ser daquele jeito. Iria voltar para dentro para tomar a atitude que poderia mudar a sua vida. Parou diante da porta e virou de costas. A chuva aumentou. Encostou-se no poste da frente, voltando sua face para cima, para apreciar cada gotícula de sua incapacidade. Fechou os seus olhos.

Sentiu um toque na sua face, acarinhando-o. Era Brendha. Olhou-o bem profundamente em suas janelas da alma e deu-lhe um beijo na face. Ele sorriu, tirando o rosto, quase como se não merecesse o beijo. Ela o acarinhou de novo. Desta vez, ele conseguiu reagir a sua baixa-estima. Ele, agora, foi de encontro aos lábios dela, tocando-os com os seus. Abraçou-a e deixou uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Ele tinha conseguido mudar, como os seus personagens. Graças a uma iniciativa acolhedora de uma mulher pela qual sempre teve sentimentos verdadeiros.

domingo, 13 de junho de 2010

A uma mulher fascinante

Nas minhas horas mais doridas
Tu me sorristes com teus olhos
O doce néctar da esperança

Curastes minhas chagas
Com o acalento de teus abraços
Sempre com compaixão
Não és médica só de homens, mas de minh´alma

És, além de minha companheira
Uma mulher para toda a minha vida
Com teus lábios molhados
Toca-me como menhuma outra

Orgulho-me de teu doce pedaço do céu
E tão tentador inferno
Sempre ao alcance de minha imaginação

És a fonte dos meus anseios
E desejos mais ocultos
És uma fada amorosa
Podendo a todos eles realizar

Quero sempre te embalar em meus braços
Recostar tua cabeça em meu peito
E ser, minimamente, o que desejas
Pois sempre me esforço para ser o que mereces

Não sei definir tua imensidão
Nem a profundidade do que sinto
Contento-me, apenas, em amar-te

Amarei-te ontem menos do que hoje
Hoje, menos do que amanhã
Fronte de júbilo
Mulher de regozijo interminável

Ardo por ti agora e de novo
E a cada dia quero-te mais
Nas infinidades de nossas noites
Nas impossibilidades de nossos dias

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Do casulo a borboleta - A coragem de ter fé em si

Vivemos na nossa própria solidão. Apreciamos as outras pessoas para não observarmos o quão sozinhos estamos. Quando nascemos, não temos mais alguém que nos acalente e nutra todas as horas do dia. Passamos, então, a interagir com um mundo que é maior do que o anterior e mais estranho; frio, quando deveria ser quente. Este frio vai modelando parte das nossas relações humanas. Chama-se decepção.


Crescemos e vamos aprendendo como vamos conquistando a atenção do outro. Buscamos sempre uma forma de procurar ter aquilo que nos atrái. Nem sempre conseguimos. Ao conseguirmos, procuramos tratar daquilo como a melhor coisa do mundo. Podemos, por vezes, enjoar daquele brinquedo antigo. Então, colocamos ele na prateleira. Mas as pessoas não são como brinquedos: elas vão embora, quando percebem que não mais temos aquele amor tanto por elas quanto dizíamos.

Perdemos. E quando perdemos, ou na iminiência de perder, tentamos dar o valor que achávamos que devíamos antes de temer a perda. Pode ser tarde demais... Ou pelo motivo errado, de simplesmente não querermos perder ou pelo motivo certo, de procurarmos valorizar aquilo por nos ser caro (nos ser especial). O tempo é crucial neste tipo de situação para que o outro não perceba que podemos estar agindo pelo motivo errado.

Quando há a percepção do outro neste sentido, poderíamos usar a analogia de Hegel para o Senhor e o Escravo. Ao escravo perceber que é mais importante para o senhor do que o senhor para ele, ele se liberta. Então, o que acontece com nós mesmos, aqueles que tentaram resgatar o outro é que percebemos que perdemos. E, ao perdermos, sabemos que não nos pertence mais. Somente pertenceu enquanto agíamos daquele modo.

Esta é uma questão para nos libertarmos de nós mesmos. Os elefantes são amarrados com correntes a um pequeno cotoco de madeira. Ao não conseguirem fugir, eles simplesmente se acomodam naquela situação. Ao crescerem, não precisam de cordas mais fortes nem cotocos maiores: eles simplesmente vão ficar ali amarrados e nunca mais sairão daquela espécie de zona de conforto.

Este é o passo para nos conhecermos, nos libertarmos. Podemos ser como lagartas toda a vida ou arriscarmos sermos as borboletas. Para isto, porém, temos que entrar em um escuro casulo dentro de nós mesmos e maturarmos nossa própria idéia de liberdade, não importa quanto tempo dure. O verão há de vir, como diria o poeta, e ele virá somente para aqueles que tiverem paciência. Acrescentaria eu, para aqueles que tiverem paciência e amor.

Nunca sabemos o que poderemos encontrar em uma nova esquina, mas devemos fundamentalmente nos aventurarmos naquela nova esquina para sabermos o que podemos encontrar. Basta olharmos para dentro de nós mesmos e respirarmos fundo: poderemos encontrar tesouros enormes, diamantes lapidados dentro de nós mesmos... Tudo porque podemos ter tido alguém que nos mostrou nosso interior com uma luz linda - o nosso próprio reflexo no espelho.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Almerinda - Primeira Parte

Almerinda era uma linda mulher, com seu um metro e setenta cinco, uma pele branca como a neve e macia como seda. Seus cabelos e olhos negros como o espaço sideral, geravam um contraste encantador. Tinha um porte nobre, com um rosto doce e firme. Era extremamente racional na maioria de suas atitudes, padecendo de uma ansiedade enorme na sua área emocional. Sua voz, um pouco rouca, era apreciada e complementava todo aquele belo ser que ela era.

Quando ingressou na faculdade de direito com seus dezenove anos, festejou muito. Vinha de uma família humilde e sempre estudava muito para conseguir o que queria. Sua dedicação em sala de aula rendeu-lhe elogios de vários professores, e chamou até a atenção de um dos administradores do curso. Enamorou-se por ele nos últimos dois anos de faculdade e tudo estava bem. Ao formar-se, foi pedida em casamento por ele. Vilar lhe deu um pequeno anel, mas ela pouco se importava com o tamanho. Apreciava o carinho que ele tinha para com ela.

Iniciaram o processo de marido e mulher como muitos recém-casados: algumas dificuldades, mas compensavam isto com o companheirismo que nutriam. Não que Vilar fosse a mais fina flor do campo, mas a amparava minimamente quando ela precisava. Vez por outra, até perguntava como tinha sido o dia de trabalho dela. Comemoram quando ela conseguiu a vaga em um conceituado escritório no centro da cidade. Ele iria exercer o que mais gostava: Direito Trabalhista.

Estes foram os seus primeiros dois anos. Almerinda dedicava-se a sua profissão e buscava criar um harmonioso lar: procurava sempre fazer pequenos carinhos ao seu amado, embora percebe-se que ele estava um pouco distante. Isto a machucava, vez por outra, mas nada com que ela não pudesse lidar. Com o passar de alguns meses, porém, o casamento tinha virado uma espécie de campo infértil, de onde nada poderia surgir.

Ela fez uma viagem surpresa para uma praia em Fernando de Noronha que Vilar tinha mencionado uma vez. Isto manteve algo de bom por alguns outros meses, mas depois havia sempre aquela rotina, aquela imensidão de espaço denso entre duas pessoas que sempre deveriam estar ali, uma para a outra. Almerinda decidiu fazer mais surpresas, mas todas foram refugadas por seu marido.

Nunca irá esquecer que tinha feito uma cesta surpresa de dia dos namorados com várias coisas interessantes para usarem. Ela lembra a sensação até hoje, de como ele simplesmente agradeceu e a empurrou para o lado, enquanto lia o cartão todo especial que ela tinha feito. Após ler, colocou de lado. Levantou-se, foi na direção dela e beijou-lhe a testa. Foi para a sala e ligou a tevê. Ela lembra de ter sentido ser apunhalada pelas costas e ficou atônita em pé.

As poucas relações que mantinham sempre partiam dela. A procura de seu marido estava zero e sentia isto ao longo dos anos. Toda a paixão que tinham foi esmorecendo. Ele culpava o gênio ruim dela, suas grosserias por ter feito isto com ele. Ele, porém, nunca levava em consideração as poucas gentilezas e verdadeiras grosserias que ele fazia com ela com o mero intuito de se manter à frente do relacionamento. Ele buscava se valorizar na relação desvalorizando o que ela era.

Quase sete anos se passaram. A ascensão profissional de Almerinda aconteceu de uma maneira rápida demais para os outros, mas suficiente em como ela era boa no que fazia. Usava a falta de um leito quente e acolhedor para que pudesse despontar, para que fosse reconhecida minimamente no que fazia; o afeto que lhe faltava era enorme e deveria ver de algum lugar.

Seu marido também teve uma ascensão ao trocar de emprego. Com sua pós-graduação recém-adquirida, passou a trabalhar em uma firma que fazia auditoria. Viajava muito e sempre buscava trazer um souvenier para a esposa, por vezes até caro. Almerinda apreciava mais o tempo que ele ficava fora do que com ele em casa: a figura do seu esposo lembrava o fracasso que tinha se tornado o seu casamento.

Houve, porém, uma manhã chuvosa de segunda-feira de feriado. O clima era até amistoso, ela tinha cozinhado a refeição favorita dela. Ela lembra dele até ter elogiado, enquanto ela limpava os pratos. Sentiu-se bem com aquele afeto, por menor que fosse, pois dali poderia surgir algo. Após arrumar tudo, ela disse que iria descansar um pouco para ele. Eram duas da tarde.

Ao acordar, viu que estava sozinha na cama. Buscou-o pela casa. Nada, nem tinha um recado. Pegou no celular e viu que eram quase quatro horas. Ligou para ele e havia dado fora de área. Nervosa, ligou de novo. E outra vez. Parou na quarta. Apertou o celular com tanta força, como sentia o seu coração naquele momento. Não era a primeira vez que ele fazia isto, já havia se tornado um hábito, mas eles ali tinham quase tido um bom clima, estava minimamente aprazível.

Foi ao banheiro e ligou o chuveiro bem quente. Suas lágrimas começaram a minar de seus olhos, uma por uma. Limpou-as do rosto, na tentiva de não mais pensar em seus problemas. Tentou respirar fundo, tudo isto em vão. Elas voltaram a emergir com mais vigor, teve de se apoiar na pia do banheiro. Nem mais sabia quantas vezes tinha feito este ritual de chorar de raiva, de se culpar por tudo ter dado errado.

Foi para o boxe e escorreu pela parede do banheiro, sentando no chão frio. Havia soluços, lágrimas, balbuciava palavras sem sentido... Havia dor. A dor mais lancinante que já tinha sentido, incomparável com a das outras vezes. Arrastou-se até a água que caía e deixou que a ela se misturam-se suas lágrimas, suas angústias, tudo o que lhe pertubava, na esperança de que fossem ralo abaixo. Conseguiu, com o tempo erguer-se e banhar-se.

Observou o relógio, passava pouco mais das cinco. Arrumou-se e foi sentar-se em sua poltrona da sala, no escuro. Era inverno e tudo tornava o clima mais morto. Lembrou que fazia questão de dizer a si mesma que já havia se acostumado a ser infeliz, que o casamento não estava bom, mas era tudo o que tinha. Não queria correr o risco de perdê-lo, ainda mais por ser protestante. A sua religião a cobrava demais e sempre a impedia de se impor dentro da sua relação. Balançou a cabeça de leve, de uma lado para outro o outro e decidiu focar em outra coisa que atrapalhasse menos o seu processo decisório.

Observou bem a sala, bem a sua casa. Tentou organizar racionalmente tudo o que estava acontecendo, pesar numa balança. Conseguiu por alguns minutos, mas uma infinidade de sentimentos e de pensamentos percorriam-lhe o ser. Buscou, com calma e paciência, organizar toda a sua dor. Nunca havia discutido com Vilar até o ponto em que achava que devia, por entender que poderia dar um fim no seu relacionamento com ele. Hoje, ela iria jogar suas fichas na mesa e pagar para ver.

Quando ela escutou o barulho do carro dele estacionando, já era quase oito e meia. Esperou ele abrir a porta, viu a maçaneta rodando. Respirou fundo e lembra que bateu em ordem os dedos de sua mão direita três vezes, do dedo mínimo ao indicador, em sequência. Respirou fundo, pensando se realmente iria tomar aquele caminho. Tinha uma bifurcação em sua vida, com uma rota mais fácil e a outra mais difícil. Lembrou que tinha escolhido a rota mais fácil por tempo em demasia e que, na verdade, não era a mais fácil.

-"Por que saiu e não me avisou?" - perguntou ela, comedida. Ele se assustou, tentou se recompor. Procurou-a e acendeu a luz da sala. Pigarreou.

-"Eu não queria te acordar." - disse, seco.

-"Podia ter deixado um bilhete, ter me ligado... Gostaria que eu fizesse isso com você?"

-"Você nunca reclamou disso."

-"Eu sempre reclamei disto e você sabe muito bem."

-"Você nem me começa com isto, vai... Este seu gênio é ruim mesmo, não? Sempre disse para você que gostava de certa dose de liberdade e você fica marcando em cima como se fosse um zagueiro querendo me tomar a bola. Sabe do que mais? É por isto que eu não quero ter um filho com você... Já cansei de falar sobre isto!"

Ele sempre usava este argumento quando queria encerrar a discussão. Ela se recolhia, envergonhada de si mesma e saía de lá. Sentia-se como aquele cachorro de padaria que é enxotado. Tinha chorado tantas e tantas vezes, por tantas noites sozinha com isto: ela desejava ser mãe, com todas as fibras do seu ser; por isto se dedicava tanto em sua profissão, para que seu filho pudesse ter a parte material que tinha lhe faltado na infância.

Todas estas cenas lhe passaram pela cabeça em um micro-segundo. Respirou fundo. Ela tinha decidido ir em frente. Ela não sabe bem da onde ou como iria fazer aquilo, mas decidiu que não mais poderia ser refém de si mesma, refém da sua própria covardia. Iria arriscar, mesmo que fosse perder tudo. Resolveu, ali, pagar para ver de verdade. Sentiu um pedaço de paz, como se sentisse um amigo colocando a mão no seu ombro aquela hora. Sabia que estava tomando a atitude certa.

-"Eu estou cansada de você sempre usar este argumento comigo, Vilar." - Falou de maneira calma e pausada. Tinha readquirido a sua paz de espírito com aquela atitude -  "Afinal, não poderíamos ter um filho mesmo, não é? Há meses você não me procura. E não é o meu gênio ruim, não. É a sua falta de amabilidade que jogou a nossa relação neste poço sem fundo onde ela se encontra. O meu gênio você já conhecia quando nos casamos. O que eu desconheço é o seu desdém comigo. Mas, agora chega, não vou ficar lhe acusando de mais nada. Quer saber do que mais? Eu desisto."

Ele se assutou. Ela nunca havia tomado aquela atitude. Sua tez tencionou e seu olhos quase saltaram de suas órbitas. Algo havia acontecido e ele não sabia como reagir. Embora fosse uma epifania de uma tragédia já anunciada pelo seu comportamento parco de amor e porco no tratar, ele se desesperou. Procurou ele, agora, respirar.

-"Olha, não desiste... Ainda podemos ter um filho e..."

-"Não é isto..." - disse ela - " Eu desisto de você. Aliás, anos mais tarde do que você desistiu de mim. Eu passei somente a ser um maldito objeto de decoração aqui dentro desta casa, Vilar. Tudo o que fiz nestes anos por nós você jogou ao vento. Eu cansei disto tudo. Cansei de você. Não queria que acabasse assim, mas acabou. Peço somente respeito pelo que vivemos e que possamos fazer isto de uma maneira amistosa."

Os minutos seguintes foram de argumentação dele, completamente rechaçada por ela. Tinha decidido que tinha que confiar no seu instinto de buscar algo novo, algo que fosse melhor do que aquilo. Sabia o que não queria e o seu primeiro passo seria abandonar o que estava vivendo, mesmo que fosse para viver somente ela com seus vários gatos. Poderia até ser uma senhora sozinha, mas preferia ser sozinha do que mal-acompanhada. Seus trinta e três anos de vida lhe permitiam recomeçar a vida. Sentiu-se insegura ao lembrar de sua idade. Foi quando Vilar lhe deu a certeza de que não mais a queria por não confiar nela.

Ele leventou a possibilidade dela ter um amante. Não que isto a tivesse ofendido. Uma antiga professora de Direito de Família dizia que "Quando não se tem comida na rua, procura-se fora.". Até arrependeu-se por nunca ter tido um. Sorriu e lhe respondeu que não tinha, embora até tivesse tido oportunidade para ter vários. Ele ficou chocado. Quando ela perguntou se este era o motivo da ausência dele, ele apenas calou-se e deu de ombros. Era tudo o que ela precisa para apenas confirmar a sua intuição inicial. E prosseguiram, até de maneira amigável, para o fim do matriônio, dividindo todo o patrimônio.

Almerinda resolveu mudar para um outro bairro e comprou uma casa. Havia tirado aquele mês de férias para poder arrumar a sua vida. Desejosa de vida nova, decorou-a com um ar mais moderno, algo que sempre lembrasse do quão difícil e do quão especial tinha sido para ela se dar uma segunda chance. Na segunda sexta-feira das férias, via sessão da tarde regada a pipoca, brigadeiro e um guraná bem gelado. Ria muito sozinha, divertindo-se como há muito não o fazia, com sua recém-conquistada Carta de Alforria.

Enquanto arrumava a bagunça das panelas, escutou a campainha. Ela ficou feliz, deveriam ser os livros novos que tinha pedido pela internet. Tinha voltado a ler romances, coisa que havia deixado de fazer para dedicar seu tempo ao seu ex-marido. Calçou os chinelos e foi em direção ao portão. Deu uma ajeitada no cabelo em frente ao espelho antes de atender a porta. Tinha recuperado a sua vaidade, sua auto-estima que tinha deixado sob o tapete de sua sala de estar na primeira briga que tinha tido com Vilar. Mas isto era passado agora, ela estava com um belo presente em suas mãos. Estar sozinha lhe fazia bem. Porém, mal sabia ela o que a esperava ao abrir aquela porta...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Lucrécio e Joanna

Lucrécio era uma pessoa boa, porém impulsivo e irascível com o que considerava um erro de uma outra pessoa. Podemos até usar as suas palavras para definirmos melhor o seu comportamento: "Eu apenas não tolero excesso de estupidez. Para mim, quem é burro pede a Deus que o mate, o Diabo que o carregue e que arrume um trouxa para cuidar do corpo.".


Isso gerava problemas com sua família, vivia trocando de namoradas (por vezes duas ou mais ao mesmo tempo) e até mesmo de amigos. O único bom amigo que conservou era Henriqueto, seu conselheiro para as situações mais adversas. Não que o ouvisse muito, apenas gostava de conversar com ele sobre o que lhe acontecia. Como um bom amigo, Henriqueto não concordava com suas atitudes intempestivas. Como um bom amigo, Henriqueto também aguardava o retorno do seu irmão ferido do combate da vida para poder lhe tratar.

Em uma destas segundas-feiras, em que não esperamos que nada de anormal vá acontecer, Lucrécio pára em um banca de jornal para adquirir um. Ao pagar, escuta uma voz feminina perguntando onde era o ponto de ônibus mais próximo para se dirigir a um outro município. Ele, de um jeito até simpático, sem dar muita bola, explicou de costas o caminho. A voz feminina agradeceu e encostou a mão em seu ombro.

Ele, num rápido reflexo para certamente dizer algum impropério, parou ao ver aquela mulher de olhos negros e pele branca. Perdeu o fôlego, por um momento, e se propôs a levá-la até o seu destino para aguardar a sua condução. Conversando, no meio do caminho, descobriu que era uma arquiteta recém-formada e que estava indo procurar um emprego em um escritório em franca expansão.

Ela, toda sorridente, perguntou o que ele fazia. Disse apenas que era funcionário público, omitindo o fato de ser um policial. Achava-a ingênua e sonhadora, pensou ele, lembrando que um dia, ao prestar concurso público, também tinha um pouco daquela esperança no futuro que a jovem demonstrava. Perguntou-lhe seu nome. Ela disse:

-"Joanna, prazer. E você?"

-"Lucrécio. Prazer."

-"Olha, eu achei você muito simpático, viu?"

-"Eu também. Pena que vamos perder o contato, né?"

Ela, meio que tímida, estendeu-lhe o seu cartão. Dizia: "Joanna Alencar, Arquiteta". Continha o telefone dela e o e-mail. Nisto, percebeu a aproxomação do seu ônibus e fez-lhe sinal. Despediu-se de Lucrécio dizendo que ia esperar uma ligação dele, embora não tivesse sentido um certo interesse de sua parte. Disse isto sorrindo, daqueles sorrisos marotos femininos que fazem cair por terra qualquer defesa masculina.

Lucrécio esperou três dias, algumas incursões policiais a serem realizadas. Estava já enojado daquele serviço, desejoso de algo diferente. Teria o final de semana de folga e resolveu ligar para a arquiteta. Conversaram alguns bons vinte minutos antes de marcarem algo. Lucrécio sugeriu um restaurante no meio do caminho dos bairros onde moravam, o que agradou bastante Joanna. Com sua habilitação para dirigir recente, não gostava de percorrer longas jornadas - não comentou sobre isto, é claro.

No dia, ele estava até apresentável. A barba estava por fazer, mas não cheia, apenas para dar aquele charme. Camisa social azul, calça jeans escura e tênis também azul. Usava um perfume com um cheiro amadeirado, com toques de limão. Gostava de perfumes ácidos. Ao chegar na entrada do restaurante, percebeu que Joanna já estava lá. Aproximou-se devagar, admirando aquela bela mulher e seu vestuário.

Joanna virou-se ao perceber sua aproximação. Usava uma blusa lilás, com uma calça jeans cheia de detalhes e um pouco de brilho, e um sapato de salto alto de bico fino na cor de um lilás mais denso, para combinar com a bolsinha de mão que portava. Percebeu que suas unhas eram vermelhas vivas, assim como o batom de sua boca. Alguns retoques de lápis de olho destacavam ainda mais suas duas órbitas, tudo complementando com os cílios um pouco alongados.

Beijaram-se no rosto e ele a conduziu para dentro. Falaram de coisas amenas, enquanto comiam um prato de salada primavera com carne vermelha (a dele mal passada e a dela ao ponto) e suco natural de abacaxi. Após a refeição e uma certa briga por quem iria pagar a conta - Lucrécio queria pagar toda e Joanna o "ameaçou" de não mais sair com ele se não fosse divida - ele acabou cedendo.

Após a saída do restaurante, ficaram um olhando com cara do outro como a criança que deseja demais o presente de aniversário e tem vergonha, pelo menos inicialmente, de pedir para a mãe que o compre. Lucrécio tomou a iniciativa e pegou na mão de Joanna. Sentiu que ela acariciou seus dedos de leve e resolveu também tentar o beijo. Seus lábios se tocaram de um jeito leve, inicialmente, sondando como seria aquela pequena intimidade. Roçaram os lábios uns nos outros, de leve.

Mas depois deste reconhecimento, o que se percebia era a paixão de um pelo outro. Suas línguas se entrelaçaram e começaram a bailar. Quando um recuava, o outro imediatamente avançava, buscando ampliar aquelas sensações todas que vinham à tona. Seus corpos estavam unidos, sendo tocados nas costas pelas mãos um do outro, terminando este primeiro longo beijo com um carinho no rosto por parte de ambos. Ao abrir os olhos, Lucrécio observou Joanna sorrir como uma adolescente. Isto o comoveu.

Passearam pela praia de mãos dadas, trocaram beijos e carícias naquela noite. Lucrécio chegou em casa tarde, desistindo até do convite de colegas da profissão para uma festa que aconteceria em um sítio de um deles. Resolveu apenas tomar um banho e se deitar, procurando entender como tudo aquilo poderia ter acontecido naquela semana. Ao sair do banho, viu que tinha uma mensagem em seu celular. Dizia: "Obrigada pela noite. Beijos". Ele sorriu de canto de boca, com um típico orgulho masculino de ser um macho alfa.

No dia seguinte, foi almoçar com seu melhor amigo. Henriqueto o tentava convencer a prestar um novo concurso público e a retomar a faculdade de direito. Lucrécio sabia que este seria o tema central da conversa, já indo para o local com seu mecanismo de defesa ativado. Chegando lá, porém, esta não foi a tônica da conversa. Henriqueto percebeu que seu amigo estava diferente e conversaram sobre isto. Lucrécio demorou a admitir, mas deu o braço a torcer e falou sobre Joanna e como aquela jovem era sonhadora, engraçada e linda.

Henriqueto escutou a tudo atentamente, esperando Lucrécio acabar de divagar sobre Joanna. Após isto, conversou com ele sobre como a vida nos mostra opções diferentes do que podemos e do que queremos fazer. Perguntou há quanto tempo Lucrécio não se sentia assim por alguém e se não era este o momento de fazer uma mudança em sua vida. Lucrécio, porém, não usou de sua habitual impulsividade. Apenas falou que seria um caso a se pensar. Henriqueto sorriu; não esperava que o amigo fosse concordar assim.

Encerraram o almoço e Lucrécio sentiu vontade de ligar para Joanna. Não sabia exatamente no que daria aquela ligação e se aquela não seria apenas mais uma das muitas mulheres que ficaram na sua história. Parou, retirou o celular do bolso e o colocou de volta. Nunca havia exitado antes, sempre soube exatamente o que fazer; mas daquela vez, tinha algo diferente, algo novo. Resolveu fazer o que seu amigo lhe aconselhou, resolveu arriscar. Retirou o celular e ligou para ela.

Encontraram-se naquela noite e amaram-se. Fizeram isto quase todos os dias daquela semana. O sentimento de um pelo outro crescia junto com a paixão, mas não era só: começavam a limpar um canteiro obscuro de seus corações e a criar bases sólidas para uma relação de companheirismo. Assim como ela o aplaudiu por ter voltado para a faculdade, ele a aplaudiu quando ela foi fazer mestrado. Percebiam que o que tinham era algo de precioso, algo raro em um mundo tão cinza.

Lucrécio decidiu não ter mais um mundo cinza. Ao se formar após um ano, prestou concurso público e foi alocado em uma área da Administração Pública onde não usasse mais armas. Desistiu de precisar delas para combater na vida. Joanna, com seu sentimento sonhador e suas palavras doces, conseguia aos poucos derreter todo o gelo e o amargo de seu coração. Sua batalha agora seria outra, seria a de lutar por uma vida a dois digna.

A sua raiva de suas frustrações foram apaziguadas por alguém que o fez querer ser um homem melhor. Foi isto o que disse a ela em um jantar para comemarem seu ingresso na sua mais nova área de trabalho. Nesta noite, tivemos duas pequenas surpresas. A primeira era a de que ele pediu a sua mão, com um lindo anel de ouro e uma pedra de rubi, delicado e sutil, como ele buscava tanto ser com ela.

A segunda é que não mais seriam só os dois: Joanna estava gestante. Neste mesmo momento, Lucrécio enchou os olhos de lágrimas, levantou-se, ajoelhou-se e beijou a barriga de sua amada. Pegou em sua mão e lhe agradeceu por tudo o que ela representava em sua vida. Joanna sorriu, o chamou de bobo e o beijou. Disse-lhe que Deus sempre nos dá uma oportunidade na vida de fazermos algo bom para nós, é só prestarmos bastante atenção. Tinha percebido que sua mudança havia começado naquela banca de jornal, ao não ter cruzado a linha do razoável... E desde aquele momento, já era tocado pela presença de Joanna, mesmo que não soubesse quem ela se tornaria na sua vida.
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