quarta-feira, 7 de julho de 2010

Abreu e seu dilema

Abreu era um jovem bem atípico para a sociedade moderna. Acreditava no amor e no ser humano. Gostava de pensar que as pessoas eram boas por natureza e que apenas quando se sentiam fracas, faziam mal a alguém. Poderíamos chamá-lo de sonhador. Um sonhador romântico, acrescentaria. Namorava apenas uma mulher de cada vez: preferia provar várias vezes a mesma do que uma vez várias. Este é o nosso nobre herói, em poucas palavras.

Abreu estava namorando Myllena. Ele, um romântico e ela, uma pessoa absolutamente racional. Era engraçado ver os dois juntos. Compartilhavam várias características em comum, destoando gravemente somente nesta. Enquanto ele lembrava as datas comemorativas, mandava-lhe flores e escrevia-lhe cartões, ela os recebia e, por vezes, até retribuía. Quando estavam sós, na intimidade, porém tudo se acertava. Estas intimidades eram poucas, dadas as vidas profissionais de cada um: ele, um engenheiro, ela, uma autora de romances.

Pode parecer estranho, mas era exatamente isto. Enquanto Myllena usava Abreu para suas inspirações em seus livros, Abreu a usava para poder sair dos cálculos de estruturas. Abreu gostava de sair para comemorar as datas, sempre sabendo que ela não lembraria. Mas Abreu estava ficando cansado: um dia inteiro havia tentado falar com ela, sem sucesso algum. Isto seria normal, ambos estavam, por vezes, acostumados a esta rotina. Ele, porém, percebia que algo estava se partindo.

Sentia, pouco a pouco, seu amor ir se escoando. Era como se ele doasse e não recebe uma outra via. Deixava, por muitas vezes, de lado para que esta situação não atrapalhasse o casal: contudo, estava começando a atrapalhar o seu cotidiano. Vivia preocupado, sem deixar transparecer. Naquela, noite, iria conversar com Myllena sobre tudo o que estava passando pela sua cabeça. Iria ser claro como um rio límpido, se tivesse tal coragem.

Ao pegá-la em sua casa, conversaram amenidades. Ele não conseguia disfarçar a sua ansiedade e ela percebia que algo estava errado. Após alguns minutos, houve aquela pausa constrangedora. O silêncio imperava no ar, denso como argamassa. Ela, apertando as suas pequenas e delicadas mãos uma contra a outra, fez a fatídica pergunta:

- " Aconteceu algum pra você estar chateado?"

Ele suspirou fundo, balançando a cabeça duas vezes de um lado para o outro e soltou o ar. Falou para ela tudo o que o estava angustiando, com parcimônia e calma. Dizia que se angustiava pela falta que ela fazia na sua vida: o fato de poucas vezes conseguirem dormir juntos, o fato de se falarem mais por telefone do que pessoalmente, o fato dela ter deixado de mandar os sms bonitos que mandava no início da relação. Ela ouvia tudo, com os olhos marejados.

Ao acabar de falar tudo, Abreu observou os olhos de Myllena encherem de água e, uma lágrima, escorrer do seu oho esquerdo. Ela olhava para ele com sofreguidão. Ele encostou o carro. Ela pegou na mão dele, como se fosse um tesouro precioso, algo que nunca antes ele havia encontrado em toda a sua vida. Ele se sentiu acalentado e culpado por tudo aquilo. Ele tentou contornar a situação puxando a conversa de novo:

- "Desculpe... " - dizia ele - "Eu não queria..."

Ela, gentilmente, colocou o dedo indicador de sua mão direita sobre os seus lábios.

- "Você disse tanto... E eu, sempre tão pouco. Desculpe por ser assim, mas tenho tanto medo de me machucar de novo. Você é muito especial, Abreu. Eu não mereço uma pessoa que tenha tamanha dedicação por mim. Sei que ando ocupada com o trabalho; este lançamento do livro é importante para mim. Você acha que também não penso em você? A grande vantagem minha é que cada personagem masculino que encanta as personagens femininas do meu livro são inspirados em você. Na sua doçura, na sua gentileza... Olha, adorei que tenha se aberto comigo assim, viu? Mas... Posso fazer uma sugestão?"

- "Pode." - disse ele, com remorso e esperança

- " Nunca deixe chegar a esse nível de angústia, viu? Isto é só coisa da sua cabeça, seu bobo. Aliás, a minha sugestão é a seguinte: vamos deixar de lado o jantar e ir comemorarmos o nosso aniversário de namoro em algum outro lugar mais particular? Sabe aquele corpete com cinta-liga que tanto gosta? Estou com ele hoje." -disse, passando as unhas de leve por cima de sua mão direita - "Que acha de ver se é verdade o que estou dizendo?" - disse, sorrindo a malícia dos amantes.

Abreu sorriu. Ficou aliviado que ela tenha aceitado tudo de uma maneira tão leve e de uma maneira tão gratificante para a relação dos dois. Deixou escorrer uma lágrima, também, tamanha a emoção. Beijou-a, nos lábios de leve e abraçou-a forte, expressando todo o carinho e amor que um homem pode ter pela sua mulher amada. Ficou poucos segundos que pareceram momentos infinitos de eternidade. Após isto, os dois inclinaram a cabeça, com os olhos entre-abertos, olhando-se em suas janelas da alma. Deram-se outro beijo e sorriram. Eram duas crianças para lá de felizes e entregues a sua própria fantasia romântica.

1 comentários:

Vera Vasconcelos disse...

Quantas vezes sofremos por nao termos a coragem de falar o que ta atravessado na nossa garganta ou algo que deduzimos de outrem. Esse conto nos faz reflatir sobre isso.

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