terça-feira, 13 de abril de 2010

Romualdo e Thania

Romualdo era um jovem sonhador. Se pudéssemos entender como ele é por dentro, seu específico e interessante funcionamento, poderíamos entender que ainda havia no mundo muitos Dom Quixotes, ou pelo menos um deles, que enfrentariam seus próprios moinhos de vento como se fossem gigantes.


Romualdo era o típico canceriano: se apegava demais às pessoas as quais gostava, as defendia com todo o clamor de uma guerra épica e heróica, típica dos contos gregos. Era tão particular seu mecanismo de funcionamento que colocava todos acima de sua própria importância, não importando em qual tipo de relacionamento fosse.

Nos relacionamentos amorosos, então, poderíamos falar que o amor de Romeu e Julieta era parco em relação ao que ele sentia pela pessoa que estava ao seu lado. Tratava-a sempre como a rainha de um castelo imaginário, com paredes aconchegantes, quadros emolduradas com sonhos, tapetes de amor, cadeiras de conforto e um perfume doce e agradável de companheirismo.

Amava demais. Sofria também demais. Não sabia a hora das medida, das dosagens. Sua adolescência foi marcada por paixões desvairadas, rompantes de comportamento... Tudo isto amadureceu um pouco na sua fase um pouco mais adiantada do jovem adulto. Sempre buscou a serenidade no diálogo, o carisma na personalidade e uma busca por uma auto-confiança peculiar baseada no seu se importar com o ser humano. Buscava sempre a sua realização também pelo outro, de preferência junto com a sua.

Romualdo não se apaixonou durante um tempo. Continuava a trabalhar e estudar, tinha amigos. Poucos, mas bom amigos. Sua vida não era ruim, visto que era de classe média e ainda morava com os seus pais. Como todo jovem adulto da atualidade, Romualdo precisa de muito mais esforço do que seus pais para deixar aquele ninho. E, como para um canceriano isto é difícil, Romualdo buscou fazê-lo da melhor maneira possível e, possivelmente, da mais tranquila e um pouco vagarosa.

Foi quando se apaixonou no Carnaval. Tinha encontrado a mulher mais fascinante de sua vida. Descrevê-la aqui seria inútil, pois levaria dias, meses, para poder descrever uma mulher com tamanha beleza exterior e interior. Trocaram palavras, várias delas, por imensas horas. Passaram uma grande quantidade de tempo juntos. Amaram-se da maneira mais deliciosa e louca possível para quem realizou isto no primeiro encontro. Gritos, sussuros, prazeres. E o beijo, ah, o beijo... Como era doce e envolvente quando suas línguas se cruzavam, entrelaçavam. Era como se o beijo dele fosse esculpido para o beijo dela.

Com o tempo, as juras de amor foram gradativamente aumentando. De um querido, para paixão, para amorzinho. De repente, não mais do que de repente, surgiu um pronome possessivo: MEU. Thania tinha dito isto para ele em um momento distraído, típico ato falho, no qual mostramos mais do que gostaríamos por medo de nos entregar a algo que, na verdade, já estávamos entregues.

Romualdo sorriu. Fingiu que nada percebeu e deixou passar. Aumentaram os carinhos, as carícias, o se importar. Thania lhe dizia o quanto nunca tinha conhecido alguém como ele e Romualdo, gentil com suas palavras acuradas, dizia: - "Eu faço o que faço porque consigo enxergar você através dos meus próprios olhos. Queria colocar você dentro da minha cabeça para que você pudesse ver o que eu vejo, sentir você como eu sinto.". Neste singelo momento, lhe estendeu uma única rosa vermelha. Thania ruborizou-se. Amaram-se intensa, louca e desregradamente. Por horas. Literalmente, horas.

Porém a vida não é um conto de fadas. Por vezes, acontecem coisas inexplicáveis, coisas que não cabem a nós, como leitores, questionar. Thania pediu um tempo para repensar a relação com aquele jovem romântico. Ela tinha outros fatores de risco em jogo, riscos inclusive financeiros, afinal era uma típica capricorniana. Sua dedicação extrema a Romualdo poderia lhe fazer riscos e ela não é do tipo que corre riscos. Será?

Romualdo resolveu acatar este tempo. Amava demais aquela mulher para que não entendesse a dor e o momento conturbado da vida dela. Tentou ser forte, não derramar uma gota de lágrima ao pegar no telefone. Respirou fundo. Em vão. Ele chorou. Ela também. Trocaram juras de amor, honestidades, dores... Tudo o que uma relação de verdade tem. A relação dos dois era tão sublime e desconcertante que era uma definição difícil de se obter, quase como se fosse algo de conto de fadas. Algo puro e belo, carnal e especial.

Ao final disto, Romualdo foi seu companheiro. Entenderia o que tivesse que acontecer, do jeito que tivesse que acontecer. Não importava o quanto aquela mulher fascinante pudesse fazer falta em sua vida. Romualdo estava determinado a esperar a resposta que a sua companheira fosse lhe dar. Desligaram o telefone. Sofrem os dois, porém agora em silêncio, sofrem para si. Um, da agonia da espera e a outra, da possibilidade da resolução.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Roberval e sua lógica

Roberval era um homem intrigante. Sempre ansioso, buscava respostas rápidas para tudo em sua vida. Buscava ser uma pessoa com respostas prontas, sempre corretas. Sua busca por respostas era sempre baseada em que quanto mais imediata fossem suas respostas, mais rápido poderia ganhar todos os prêmios que a vida poderia lhe oferecer e mais rápido poderia passar por todas as angústias do seu dia.


O que Roberval não sabia é que haviam variáveis que não poderiam ser mensuradas, medidas com suas falhas observações quantitativas matemáticas. Ele buscava, dentro de regras criadas dentro de sua própria cabeça, uma orientação para tudo na vida, de maneira pragmática. Quase que de maneira sintomática, externava sua ansiedade no outro.

Descobriu isto quando percebeu que tinha perdido sua namorada porque era sempre afoito, nunca deixava com que ela opinasse em nada. Sua aptidão para ser rápido só não se estendia a área que fica entre quatro paredes, mas mesmo assim era o único lugar para a qual o seu "tiro rápido" não se estendia.

Sua namorada o deixou porque ele sempre atropelava tudo o que ela poderia falar. Ele nunca a deixava procurar por ele; nunca a deixava presenteá-lo, pois ele sempre lhe dava um maior; nunca procurava fazer uma surpresa, porque ele sempre estragava tudo com o seu raciocínio rápido e inquietante.

Quando sua namorada o largou, ele buscou uma resposta. Uma rápida também. Deu de cara no muro várias vezes porque não conseguia com que ela fosse comprava de maneira empírica. Sua ansiedade era tamanha, mais tamanha, que ele não admitia uma variável de possibilidade, uma pequena variável para que pudesse entender ou, ao menos, passar a levar a vida com uma maior tranquilidade.

Dentre este turbilhão indiscritível de pensamentos lógicos, ele observou, ao longe, uma mulher loira. Parou. Pelo menos parou com todas as suas elocubrações inutéis, tudo aquilo que ele mesmo colocar para atormentá-lo, como se fosse uma faca no seu próprio coração, como se fosse ele o primeiro a ter que fazer tudo... E ele só observou aquela linda jovem loira de olhos esmeraldas cruzando.

Lembrou-se do tempo em que lia mitologia grega e lembrou-se da figura das ninfas que saiam da água, nuas e sedutoras, como se pedissem para serem provados por quem ali estivesse. Ele lembrou-se disso e sentiu a garganta seca. Sentiu suas papilas gustativas se contraírem com a falta de líquido. Sentiu um pequeno frio da barriga e, ao mesmo tempo, esquentar em volta.

Percebeu que observando aquela cena que durou poucos segundos, passou horas sentindo todo o tipo de sensações que há muito tempo não havia sentido. Ele havia deixado o seu coração bater forte. Ele havia suspirado de amores por uma desconhecida, mas que havia conseguido deixar todas as suas angústias de lado, pelo simples fato de que ele queria experenciar mais a vida. E experenciou.

domingo, 11 de abril de 2010

Atonildo

Atonildo era um rapaz muito legal. Ele era adorado por todos, sempre simpático e carismático. Não havia quem não gostasse dele com o seu sorriso no rosto e sua atitude sempre gentil. Mas ele tinha um problema. Ele sempre se sacrificava demais pelos outros em seu relacionamento interpessoal. Ele não conseguia impor limites. Nunca. Em todos os seus relacionamentos ele sempre se entregava de maneira desmedida. Todos, então, buscavam sempre obter um pouco disso dele.

Uma ajuda aqui e outra ali, mas as coisas nunca corriam bem quando era para ele resolver os seus problemas. Buscava, entre-espacos vazios, resolver seus pequenos traumas do cotidiano. Em vão... Ele somente conseguia ser posto para fora em todas as relações.

Um dia, estava dirigindo o seu carro em direção a um amigo que estava necessitando de ajuda. Era um domingo de manha. Enquanto pensava, ele simplesmente foi abalroado por um outro veículo. Um adolescente de 16 anos atingiu seu carro, totalmente errado. Ele ate quis conversar, mas o adolescente começou a falar que era filho de fulano de tal e... Atonildo, aquele homem gentil, não ouviu mais nada. Apenas escutava sons e o maxilar do garoto se mexer. Era atormentante a voz daquele moleque cheio de si.

Esbofeteou-o no rosto. Não uma, mais duas vezes. O moleque se calou. Após isto, discursou. Cuspiu todos os seus demônios e tormentas internas em cima do adolescente. Sua catarse foi feita ali mesmo, no meio da rua. Ali, naquele pedaço de asfalto quente, suando e falando de um jeito confuso e sem sentido, tinha obtido todos os seus anos de vida que ele tinha deixado para trás. Presentificou todos os seus sentimentos mais sombrios e os absolveu de seus pecados.

Após isto, Atonildo até passou a mudar de idéia. Buscava, entre uma atitude e outra do cotidiano, impedir que as pessoas passassem por cima dele. Resolveu, aos poucos, impor sua própria vontade acerca do que ele deveria ou não fazer. Arrumou uma terapeuta cognitivo-comportamental e fez um sério tratamento. Com um ano, estava mais focado em sua vida. Sua própria vida.

sábado, 10 de abril de 2010

O xadrez

João Pedro era um exímio jogador de Xadrez. Tinha derrotado quase todos os grandes nos circuitos nacionais, mas mesmo assim nunca conseguia prosseguir adiante daquilo que fazia e fazia muito bem. Ele tinha um grave problema: nunca sacrificava seus peões. Ele tinha uma predileção especial por estas peças do tabuleiro. Talvez algum Complexo de Édipo mal-resolvido com sua genitora, Dona Berenice, João Pedro sequer conseguia colocar uma peça desta a perder.

Ele demorava horas no seu jogo, sem nunca conseguir arriscar algo novo. Ele simplesmente fazia o seu mesmo jogo de sempre e conseguia, com ele, manter a segurança necessária para o prosseguimento de seu pequeno jogo lucrativo. Tinha alcançado altas cifras, principalmente as ligadas a um planejamento estratégico, dizia ele, calgados em passos seguros e sólidos.

Era infeliz, na maior parte do tempo. Nunca buscava realizar algo novo em sua vida e nunca buscava inovar. Vivia sempre no marasmo do seu cotidiano. Era mais seguro ser infeliz do que arriscar um lance novo no jogo e acabar a partida antes de suas quatro horas habituais. João Pedro tinha medo do futuro e, enquanto pudesse, jamais prosseguiria com um passo novo. Seria a eterna lagarta presa no casulo, sempre a um passo de desabrochar para o mundo, mesmo que fosse por vinte e quatro.

Porém, a vida, tão diletante vida, ela nos atropela por vezes como um caminhão. Enquanto João Pedro desafia um jovem e novo adversário (aproximadamente cinco anos e meio mais novo do que ele) jogava seu mesmo jogo. Porém, aquele adversário nanico, de óculos e cabelos cerrados megros lhe encafifava. Ele o desafiava de uma tal maneira ilógica e irracional que ele jamais conseguiria explicar em termos quantitativos racionais.

Seu adversário sempre dizia: "A vida, por vezes nos atropela feito um trem... E devemos saber lidar com o que acontece após isto. Devemos saber aproveitar a viagem". Viagem, trem, tudo... Tudo aquilo parecia impreciso para João Pedro. Para ele, a vida não era feita de sacrifícios. A vida era algo seguro e quantitativo lógico-matemático, algo mensurável, palpável... Algo que nunca deixaria sua zona de confiança, sua zona de conforto. João Pedro nunca arriscaria.

Porém, viu uma oportunidade de acabar de vez com aquele duelo daquela pessoa metida e diletante, daquele ser repugnante por falar tantas verdades, daquele pequeno sapo que nunca seria um príncipe de conto de fadas... E João Pedro tomou-lhe a Rainha. Seu adversário, ao invés de ficar aturdido, simplesmente sorriu a jogada de João Pedro. João não tinha entendido o que tinha acontecido, até o próximo lance.

Seu adversário sacrificara um peão, daqueles que João nunca faria. João o tomou com seu bispo, com uma facilidade inacreditável. Foi quando abriu-se uma avalanche no tabuleiro. Com três jogadas, seu adversário tinha feito duas rainhas. Duas. João não entendera e perdeu o jogo naquele dia. Ficou dias pensando sobre aquele assunto, sobre como alguém poderia ter derrotado sua técnica tão racional.

Seu adversário lhe respondeu: "Não se preocupe... Depois de ter tomado o gosto da liberdade e do risco por ter tido seus lances no tabuleiros, suas jogadas diferentes... Nada mais será o mesmo. Tudo será modificado, seus valores serão tocados de maneira tão interna que irão se revirar pelo avesso. Não só no jogo, mas em toda a sua vida. Teve uma oportunidade única de ter jogado desta maneira. Aproveite."

João pode não ter entendido todas as frases exatas, todos os gestos e nuances... O vinho doce, porém temperado com o doce amargo da derrota, o fizera refletir sobre tudo aquilo que tinha acontecido. Percebera que não poderia ter metade de uma coisa, muito embora uma metade lhe trouxesse a mera satisfação de ter algo para guardar. João deveria arriscar o tudo ou nada, sabendo que poderia ser feliz ou não. Mas sabendo, fundamentalmente, que poderia se tornar melhor depois daquilo.

Se João e o novo jogador se tornaram amigos e confidentes, ninguém sabe. Apenas sabe-se que João tem refletido muito no que significou aquels poucos lances naquele intrigante e inusitado tabuleiro, que trouxeram tamanha surpresa a João que não podia ser medida com nenhum tipo de calculadora ou trena humana... Poderia apenas ser sentida. E como sentida e doída era a derrota, mas como a possibilidade de uma nova vitória sobre o mesmo desafiante lhe traziam (?) uma certa coragem (????) para poder concluir (??????) a jornada?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Atrópico e a Indecisão

Atrópico era um ser perturbado. Era indeciso por natureza. Nunca conseguia escolher nada. Nunca ia a restaurantes a quilo porque era tamanha a gama de opções que tinha lá que ele simplesmente se perdia. Acabava misturando salada de batata, com macarrão a bolanhesa, purê de batata, arroz, feijão e farofa. Aprendeu, com um amigo, a ir sempre em restaurantes de prato feito. Era mais fácil.


Atrópico tinha chegado a um estágio da sua vida que se questionava porque era tão indeciso. Passava horas, dias... Por vezes até semanas pensando no porquê. Poderia ser algo causado na fase oral da sua infância, algum trauma irreparável a não ser por décadas de terapia psicanalítica freudiana combinada com vários tipos de psicofármacos. Mas nada disso adiantaria.

Poderíamos dizer que ele era um frouxo no cotidiano. Nunca escolhia suas namoradas, nunca escolhia seus amigos, nunca escolhia nada. Por sorte, ou algum Deus maluco bancando uma de bonzinho nas horas de folga, foi parar em um trabalho que ele não precisava fazer absolutamente nada. Contava, somente. Era contador. Não precisava fazer nada naquele emprego, apenas contar números de estoque. Com um formulário padrão, tudo certo, ele nunca precisaria escolher.

Sua mulher atual (já havia se separado duas vezes: nenhuma mulher o aguentou e o traiu com o Josemar) também já não o aguentava mais. Mas Atrópico apenas prosseguia na sua triste caminhada rumo a um Buraco Negro cada dia maior. Não iria a lugar algum na sua vida, um pobre cachorro correndo atrás do próprio rabo. Era um coitado.

Certo dia, quando não conseguia se decidir se atravessava a rua ou não, foi atropelado por uma bicicleta. Bateu com a cabeça na calçada e desmaiou. Acordou dias depois em um hospital. Por sorte, ou azar, o traumatismo craniano não lhe deu qualquer sequela, como uma amnésia temporária capaz de mudar sua vida, como em uma história romântica do cotidiano.

Não, meus amigos, esta história é cinza. Cinza como a vida. Atrópico continuou seu mesmo não-caminho. Após sua atual mulher tê-lo deixado, ele resolveu fazer algo impensável. Ele resolveu dar fim a sua trôpega existência. Tinha decidido não mais viver sobre a ditadura de ninguém, decidiu que ali ele poderia dar fim a sua agonia existencial. Ele, de uma vez por todas, decidiu tomar conta do seu destino.

Pendurou uma corda no teto. Fez um nó que aprendeu no tempo dos Lobinhos. Subiu em um banco e, num momento entre lágrimas e desespero, chutou o banco para o lado. enquanto pendurado pelo pescoço, entrou em desespero por não ter escrito um bilhete de suicídio. Tentou se desvencilhar do laço que tinha feito, mas era apertado demais. Debatia-se inutilmente em busca de tentar, ao menos, deixar sua marca no mundo. Tudo apagou.

Mais tarde, de volta ao mesmo hospital, descobriu que ele não tinha morrido. Ele fez o nó belíssimo, porém a corda não aguentou seu próprio peso e cedeu. Tinha sentido algo diferente dentro dele, agora sim ele poderia mudar a sua vida. Agora sim ele poderia fazer algo de diferente e poderia sim ser senhor dele mesmo. Talvez o suicídio tenha sido apenas a peça inicial, o primeiro peão sacrificado no tabuleiro da nova vida que Atrópico decidiu assumir para ele.

domingo, 4 de abril de 2010

Um conto de Páscoa...

Hoje é domingo de Páscoa. Apreciamos o sentimento de Páscoa normalmente junto aos ovos de chocolate. Uma mistura de proteínas, gorduras... E flavonóides, com ação cardioprotetora. Se devem as estas substâncias o fato de apreciarmos tanto o chocolate e não em relação as endorfinas que ele libera ao ser ingeridos por nós.

Tirando o chiste jocoso inicial, poderíamos falar da Páscoa em vários sentidos. Os judeus consideram neste mesmo período a libertação do seu povo do jugo do faraó; os cristãos consideram a ressurreição de Jesus Cristo; os """pagãos""" associavam este culto à Deusa da Fertilidade (o termo Coelhinho da Páscoa vem da Lebre que suas sacerdotisas abriam as entranhas para ler a sorte da pessoa) e deve-se ao povo pagão o fato dos ovos pintados com runas, agora com cores.

Mesmo assim, poderemos tentar buscar um sentido primitivo para este termo, não importando o tipo de lente que usamos em nossos óculos do cotidiano: judáica, cristã, pagã, espírita, hinduísta... Buscamos com a Páscoa algo que é muito peculiar em nossas vidas: o Renascimento de nós mesmos. Temos em nós uma essência peculiar, poderíamos até associá-la com o bóson de Higgs, uma partícula que o cientistas dizem que seria o átomo fundamental procurado pelos pré-socráticos e a filosofia.

Se esta Partícula de Deus está presente em nós, isto quer dizer que nós próprios temos o poder de criação, limitado a nossa ignorância humana. Pois bem, podemos nos fazer renascer a cada dia de nossas vidas, durante toda a nossa vida, sempre buscando um caminho para que possamos nos encontrar. A vida não é fácil. Nunca foi. Nunca vai ser.

Perturbações do nosso cotidiano, morte de parentes, perda de emprego, perda de amigos, agressões, separações de pessoas que amávamos, brigas, catástrofes naturais, má decisões administrativas, judiciárias, legislativas... Tudo isto faz parte do nosso triste cotidiano sombrio. Sempre teremos isto em nossas vidas e sempre buscaremos lidar com isto.

O que torna tudo mais fácil? Saber que existe um outro lado da moeda, algo que pode ser que não vejamos a priori, mas que possamos constatar a posteriori. Esta constatação é através da vida, de buscarmos dentro de nós mesmos acreditar em algo que não pode ser racionalmente explicado: a fé. A fé em nós mesmos. Eminentemente a fé em nós mesmos, a fé que poderemos mudar a situação.

Esta mudança da situação é feita através de outro olhar que buscaremos, outro sentimento que teremos a lidar com aquela situação. NÃO podemos mudar as pessoas. Podemos conversar, mostrar... Mas só a pessoa muda a pessoa. Somente nós mesmos podemos permitir que o outro possa contribuir, ou não, com algo relevante para a nossa vida mediante o diálogo.

Hoje. Agora. Depois de ler estas palavras, espero que algo tenha mudado. Espero que algo tenha se descobrido dentro de você. Como aquela casa em que os móveis estão cobertos por lençóis velhos, empoeirados... E você encontra-se aquela cadeira antiga que relembra a sua infância. E após vê-la, senti-la, você buscará adaptá-la hoje para o seu cotidiano.

Espero que todos possamos renascer a cada dia maravilhoso ou dificultoso em nossas vidas. Espero que possamos revalorizar sempre tudo aquilo que buscamos. Espero que possamos olhar através dos olhos das pessoas que nos amam e que nós amamos e possamos sempre buscar um conforto, um riso, um amor e uma esperança de que tudo dará certo. E dará, porque nós queremos que dê.

Espero vem de esperar, talvez do mesmo radical de esperança. Desejo que você tenha esperança nesta Páscoa de algo algo vai mudar na sua vida. Espero que possa olhar o futuro e afastar as nuvens cinzas da dúvida, do medo e da insegurança. Espero que nesta Páscoa possa confiar ainda mais em si, com o riso maravilhoso de estar eternamente se redescobrindo. Espero, ainda, que muitos sejam os caminhos que possa escolhar, mas que escolha sempre o mais feliz.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Pereba...

Pereba era um rapaz legal. Do tipo agressivo-passivo que todos adoram ter por perto. Sempre prestativo, procurava ajudar os outros. Sua simpatia em relação a isto era pública e nototória. Pereba buscava ajudar até mesmo as pessoas que procuravam informações em um Shopping. Mesmo que não soubesse a língua, por vezes eram estrangeiros, ele buscava pela familiar linguagem de sinais disformes e algo que se aproximasse da pronúncia do idioma.


Mas, como todas as pessoas, Pereba não era perfeito. Tinha seus pequenos pecadilhos e suas pequenas, na verdade imensas para ele, falhas. Conservava este apelido dado pelos seus amigos de infância e o levava adianta. Não sabia jogar Handebol, esporte predileto de seu colégio, embora fosse muito bom em Xadrez. Mesmo assim, até sua idade adulta, ainda carregava tal alcunha.

Aconteceu algo com Pereba, certo dia. Ele passeava pela rua e quando ia tirar uma informação de uma pessoa, sofreu um infarto. Quase fulminante, senão pela sua constituição física privilegiada e muitos hambúrgueres da esquina de sua casa. Ficou alguns dias no hospital. Recebia poucas visitas, ainda menos ligações. Recebeu dos médicos um encaminhamento para terapia.

Seis meses após isto, desistiu da terapia. Perguntava-se sempre se o seu psicanalista dormia enquanto ele falava. Sabia que na hora da saída, perto do horário do fim da sessão, o mesmo sempre estava alerta. Ponderava o terapeuta com alguns "Ahan", "Continue" e "Como se sente em relação a isto?". Decidiu abandonar tudo isto. Iria procurar algo.

Quando um mendigo na rua pediu-lhe uma esmola, ele disse não. Ficou parado alguns minutos ali, buscando uma resposta. Não sabia porque tinha negado isto, mas sabia que era o sinal de algo novo. Vira que a terapia tinha dado algo novo a ele, mas não sabia exatamente como deveria caminhar.

Passou a responder as pessoas com a educação habitual, mas não mais se sobrecarregava no trabalho fazendo as tarefas dos outros. O seu amigo de infância, Joselino, até chegou a ser demitido por causa disso. Ele simplesmente deixava com que Pereba fizesse todo o seu trabalho. Ia ser promovido. Ao invés disto, acabou por acontecer algo engraçado: Pereba foi promovido em seu lugar e...

-"Ei... Narrador?"

-"Anh... Sim?"

-"Pereba, não... Me chama de Valdecir. É o meu nome."

-"Anh... Sim."

-"E faz o favor: escreve um final feliz, viu?"

-"Anh... Sim."

Mesmo sem muitas palavras pela interferência de Valdecir, procurei continuar observando a sua vida. Valdecir não sabia que o meu poder não era decidir qual seria o rumo de sua vida, mas somente descrever como ela seria. Como uma câmera que filmava o que acontecia, a este humilde Narrador cabia apenas uma coisa: torcer pela sua felicidade.

Entretanto, pessoalmente acho que Valdecir vai se sair muitíssimo bem. Ele estava se libertando de suas amarras. Como os elefantes que são amarrados quando pequenos e mais tarde não conseguem se libertar de suas próprias amarras, Valdecir estava decidido a quebrar este círculo.

Esta dicotomia de Senhor e Escravo que ele mantia em si, aos poucos ia desaparecendo. A promoção chegou em um ótimo momento de sua vida e até encontrou uma amiga da escola, uma das que ninguém dava bola. Ele tinha se tornado uma mulher interessante e Valdecir a tinha encontrado na hora do almoço, em um novo restaurante do Centro da Cidade.

Conversaram muito. Sobre muitas coisas. Trocaram telefones. Apaixonaram-se. Casaram. Tiveram dois filhos: Adalberto e Rosana, em homenagem a avó de Helenice. Viveram juntos. Não felizes para sempre, porque brigavam por vezes. Mas não deixavam que estas pequenas brigas atrapalhassem seu relacionamento. Mesmo com todos os problemas, com a falta de dinheiro por comprar algo melhor para os seus filhos, eles tinham uma certeza: tudo iria dar certo.

E este narrador fica feliz. Feliz em ver que mesmo só podendo observar de longe e torcer, ver que seus pequenos filhos podem levar sua vida adiante, mostrando sempre algo de bom, algo de ruim... Ou seja, apenas sendo seres humanos.
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