segunda-feira, 30 de maio de 2011

Um amorzinho

Cansado. Era assim que Antônio se sentia. Cansado da viagem desgastante, do trabalho, de tudo... Seu final de semana havia sido para lá de agitado. Uma segunda-feira produtiva, pensava enquanto caminhava no frio da noite. Mexia, vez por outra, o ombro para tentar aliviar uma certa tensão no omoplata. Contudo, havia algo em sua face que não negava um fato a que estava se acostumando: ser feliz.


Alegrou-se ao lembrar de sua amada. Afagou-lhe a solidão o fato de que a lembrança dela iniciando um sorriso de canto de boca, levantando as covinha enquanto suas belas órbitas castanho-claro ia diminuindo com um certo dilatamento da pupila. Seu sorriso parecia um pequeno sol com tons de luar, pequenos asteroides presos em seus dentes. Tudo isto e o fato de que ela acariciava-lhe a coxa ao fazer isto dentro do carro já era o bastante.

Nem o frio que cortava-lhe o corpo, nem a noite vazia, sem ela... Nada disso era motivo para se aborrecer. Coçou o queixo e espreguiçou-se um pouco, enquanto ainda caminhava para casa. Esta era uma boa saudade, alguém que era bom ter faltando sabendo que era seu; melhor ainda ter por perto. Qualquer um ao avistá-lo na rua afirmaria que ele era um adolescente apaixonado. Era tal qual se sentia.

Tal qual provocava e era também provocado. Se havia algo que era inusitado em sua vida era que o que ele investia na relação também era investido por ela. Havia apoio e mútuo respeito. A felicidade da companhia, as conversar recheadas com senso de humor e a sexualidade que um sentia pelo outro – tudo isto, em tão exíguo tempo e tão bem dimensionado que até lhe causava espécie o fato de nenhum desentendimento ter ocorrido.

Quase conseguiu se preocupar naquele segundo. Deixou tudo de lado ao receber uma ligação de seu amor. Atendeu o celular e conversaram. Enquanto ele sentava em um tronco de árvore e ouvia o dia de sua amada com atenção, apoiava e reforçava seus comportamentos humanos. Indicava-lhe direções, sem ser áspero. Sua preocupação com ela e seu cuidado só aumentavam os sentimentos dela por ele.

Passaram bons e longos minutos ao telefone. Ainda não sabiam ao certo quando se encontrariam, mas isto tudo fazia parte do procedimento que o casal estava adotando. Tudo bom demais para ambos e a necessidade de harmonização sem pressão. A necessidade de se verem gerava a oportunidade de se encontrarem, seja em qual circunstância pudesse surgir: um passeio mais requintado, um jantar em um local caro... Ou, simplesmente, para estarem juntos. Como ele se sentia sortudo.

domingo, 22 de maio de 2011

Simples e natural

João arrumava sua mala. Cuidadosamente, escolhia cada peça que iria precisar nestes dois dias que se seguiriam. Ao fazer isto, contemplava a janela do seu quarto, observando como o sol parecia lhe sorrir. Parou momentaneamente de arrumar suas coisas. Respirou fundo, coçou a cabeça com sua mão direita e expirou. Não sabia há quanto tempo não prezava as coisas simples da vida e nem ao menos o quanto aquilo lhe era significante.

"Liberdade.". Era a única palavra que lhe vinha à mente. Não mais havia confusões, cobranças descabidas e propostas desmedidas. Não mais um furacão, uma torrente de sentimentos angustiantes inundavam-lhe a cada esquina, sempre em razão de se colocar passivo frente a uma pessoa com a qual se relacionava. Sem isto, tudo entrou nos eixos em sua vida. Pouco a pouco, foi-se reconstruindo emocional e profissionalmente. Sentia-se nutrido por tudo o que a sua força de vontade havia permitido que ele fizesse.

Tocou seu telefone. Era sua amada. Uma que compartilhava com ele sentimentos de divisão de pão - companheirismo - de um modo sincero e singelo. Trocaram palavras de afeto e acertaram algumas coisas. Desligou o telefone. Tudo parecia mais do que calmo. Mais do que bem. Coçou a barba e lembrou de como era bom ouvi-la chamando de "meu bem". Fazia com uma propriedade doce e com um sorriso nos lábios, enquanto rolava suas órbitas claras até o momento que a esclera desaparecia, tampada pelas pálbebras. Invariavelmente, recebia um beijo em sua face ou onde pudesse ser aplicado.

Fechou a mala. Sorriu. Poderia agora voltar-se para o mais simplório que a vida lhe oferecia; simplório no sentido da palavra. Simplesmente poder planejar um futuro. Poder amar. Poder ser correspondido. Poder almoçar. Poder jantar. Poder dormir juntos. Poder fazer amor. Poder cochilar. Poder falar bobagens. Poder amar de novo. Poder planejar não saber o caminho para se chegar na viagem. Poder se perder. Poder rir disso. Poder beijá-la. Poder se achar. Poder beijá-la de novo, brincando com sua língua de maneira exploratória dentro de sua boca. Cheirá-la. Observar seus trimiliques. Provocá-los.

Tudo isto estava em seu poder. Fazer tudo de uma maneira construtiva. Aprofundar o relacionamento e o conhecimento sobre ela. Poder conhecer a família dela. Poder apresentar sua própria família. Poder mostrar seus amigos. Poder conhecer os amigos dela. Ir a um casamento. Comemorar o aniversário de namoro. Namorar. Amar. Amar mais um pouco. Rir. Cochilar. Roncar. Empaturrar-se. Dormir. Amar mais. Amar ainda mais com uma certa desmedida - até que nem os músculos mais resistam. Acarinhá-la até que ela durma. Sentir-se o homem mais sortudo do mundo. Admirá-la.

Descobrir-se um homem melhor pelos olhos daquela mulher. Ser aceito. Aceitá-la. Conhecer e conviver com seus defeitos. Apreciar suas qualidades. O mesmo ser feito por ela. Não ter brigado. Saber que quando brigar será construtivo e sem farpas. Amar. Pensar nela enquanto escreve um texto para ela. Receber uma mensagem linda dela enquanto se escreve para ela. Mandar por e-mail antes que qualquer um veja - para priorizá-la. Poder mostrar-se sem medo para ela. Para o mundo. Compartilhar. Amar sempre.

domingo, 17 de abril de 2011

Sonhos

Alan era uma pessoa irriquieta e curiosa. Desde criança, sua pergunta favorita era: "Por quê?". Talvez pelo fato de ter sido criado na ausência do pai ou por ter tido um problema com a descoberta sobre o Papai Noel ser uma ficção - este último fato apontado por seu terapeuta como sendo a própria ausência do pai. Anos mais tarde, ele concordara com ele.

Não estranho a seu modus operandi, Alan decidiu ingressar na faculdade de direito para poder descobrir as motivações das pessoas. Dentre defensoria ou promotoria, decidiu pela última: não só pelo fato de poder oferecer a denúncia quando acha-se propício, mas também por poder investigar mais a fundo tudo o que poderia ser afeto ao caso. Escolheu focar na promotoria estadual, uma área na sua visão mais necessitada e que poderia apalatar mais sua necessidade pelo saber.

Após alguns anos de formado, ainda em fase de estudo e advogando, conehceu Marcela. Uma linda advogada civilista, a qual conheceu por acaso no Fórum. Algo chamou a sua atenção e decidiu protrair aquela conversa em uma mesa de um café, ali perto. Embora ela não degustasse café, não afastou a possibilidade de pronto - sabia que podia ser má interpretada. Dali, partiram para uma longa conversa na qual deliberaram sobre vários temas do cotidiano.

Até que, inusitadamente, ao colocar mais açúcar em seu café - preferia sempre o de bule, detestando os de máquina - esbarrou seus dedos nos de Marcela. Uma estranha sensação percorreu o corpo dos dois, um choque, como eles diriam. Um interessado da área de neurologia diria que os processos de neurotransmissão cerebral aumentaram em quantidades alucinantes, acionando principalmente o centro límbico de ambos.

Passaram semanas de paixão intensa, com troca de mensagens fervorosas. O dia de um era pensar no outro, enquanto resolviam seu cotidiano. Cada um gostava de preparar uma surpresa romântica em seu estilo, para que pudessem agradar o outro. Além disto, quando passavam por um problema, procuravam no outro um abrigo. Ajudava muito aqueles dois seres solitários a ter um alguém; funcionou durante grande parte do relacionamento.

Marcela costumava ligar muito mais do que ele para ela, porém ela diminui isto de maneira abrupta. No início, Alan tentou compensar isso, assumindo este papel, numa forma de mostrar para ela que ele seria o seu companheiro. Foi como gritar no vácuo. Resolveu, então, conversar uma, duas vezes... Em vão. Aparentemente, ela só não mais o queria. Estranhou o acontecido, arguiu que a atitude dela era prematura em virtude de um relacionamento tão promissor. Ela até apontou algumas razões: a maioria externas à relação dos dois. Ela veemente o afastava.

Alan iria começar a apronfundar a conversa, quando foi abruptamente cortado por Marcela. Sentiu-se como quem perde o chão, uma sensação de que o fôlego escapava-lhe de toda uma vez. Aquela mesma sensação de um soco no estômago. Ele, pela primeira vez, não sabia como proceder em sua investigação. Ainda que lhe causasse espécie a atitude de seu ex-objeto de desejo, ele simplesmente acatou. Não poderia fazer mais aquilo que mais gostava.

Aceitou que ela não mais o queria. Sabia que poderia fazer as coisas darem certo, contudo sabia acima de tudo que só poderia fazer isso de comum acordo com Marcela. Suspirou. Todas as pessoas têm limites e cabe a nós respeitá-los, embora estas mesmas pessoas, por vezes, nem sempre entendiam o que estavam ocorrendo com elas. Todavia, trazia Alan uma ínsita certeza: sonhos de casais só poderiam ser sonhados a dois.

Lembrou de Rilke - autor de um livro que marcara sua vida: Cartas a um jovem poeta - e sentiu-se confortado por tudo o que lhe estava acontecendo. "A primavera há de vir..." - dizia Rilke - "... mas só para aqueles que tiverem a paciência para esperar." Centrou-se. Marcela não mais o queria, nem ao menos esperar o inverno do início de relações passar para poderem acalentarem-se na primavera.

terça-feira, 29 de março de 2011

Contíguo

É contigo que estou junto
Quando me desnudo
Deixo cair tudo sobre meu eixo
Assim como faço o mesmo com seu queixo

Gosto de fazer-te arrepiar a pele
Com um beijo reles
E com este afago
Sorver o teu doce e amargo

A brincadeira de conhecer
Uma pessoa durante toda a vida
Nova que se desbunda em minha frente
E faz-me amar-te de maneira profunda

Não me importo mais
Se é em verso ou em prosa
Gosto de ter-ter toda hora
Venha para mim, agora

Curemos um ao outro
Com um amor de ouro
Sem que tenhamos pressa
Das horas contadas do relógio

Venha
Espero-te
Agora
E sempre

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

De cisão

Samantha sentia-se pequena em seu pomposo gabinete de Procuradora da República. O chão havia se aberto e a sugado para dentro. Era como se vivesse em uma dimensão paralela. O casamento não ia nada bem há mais tempo do que possa lembrar e, agora, ela tinha perdido alguém que lhe tinha sido muito especial. Ele deixou um carta, em seu gabinete. A primeira coisa que ela fez foi lê-la e tomar um susto. Um nó veio-lhe a garganta e lágrimas rolavam pela sua face enquanto percorria com seus olhos a letra dele.

"Sam,

Sei que está chocada por eu ter pedido para sair do estágio do seu gabinete. Na verdade, não mais estou estagiando no Ministério Público. Estou somente em casa, estudando. Quero dizer muitas coisas para você, mas nem todas poderão ser por este e-mail. Afinal, esta aqui é a minha cartada final (perdoe-me o senso de humor ruim) para que possamos dar um caminho, para ambas as nossas vidas. Em primeiro lugar, quero contar que afeiçoei-me demais por você.

Em uma proporção que nem ouso aferir. Você também compartilha deste sentimento, eu sei. As nossas conversas foram nos tornando mais próximos, fomos estabelecendo laços de amizade e confiança. Começou a me contar a sua vida, coisa que não tinha feito com pessoa nenhuma. Sei que se culpa por termos chegado a este amor todo um pelo outro. Pronto, eu disse. Eu amo você. Mesmo que seja a distância, amo o seu jeito, o seu cheiro, o seu cabelo, os seus olhos, as suas risadas em espirais ascendentes deliciosas quando o meu humor acerta em cheio...

Sei que se culpa por causa disso por ser uma mulher casada. Esta maldita moral católica que impinge tanta dor às mulheres, fazendo-as acreditar que o casamento é somente um e se você é infeliz, fique com ele. Não é bem assim. Sei que não pensa desse jeito. Sofrer por amor é uma coisa bonita, mas quando o seu amor, o seu objeto de amor vai embora, o que fazer? Foi isto o que eu fiz, Sam. Eu fui embora porque era torturante ficar no seu gabinete e ouvir todas as crueldades que você permitiu que ele fizesse com você. Não sei qual poder ele tem em exercício sobre você, mas acho melhor descobrir.

Este homem deixou você doente. Com suas ignorâncias, seus gritos e sua indiferença. Nem menciono a parte do enlace afetivo, porque como você mesma disse, isto já acabou faz tempo. Então, qualquer pessoa sem um senso do que é o amor perguntaria: por que ela não larga ele, se pode viver com você? Eu sei que a resposta não é simples. Nem sei ao menos se esta vai ser a sua resposta. De tudo o que nós vivemos, eu sei de uma coisa.

Eu sei que você me ama. Sei que pode não querer lutar pelo nosso amor, sei que pode não querer ficar comigo. Pode ser pela sociedade, pelo seu marido, pela comodidade dele conhecer todos os seus amigos... Qualquer coisa. Quero que entenda que o que estou fazendo aqui, agora, é por amar muito você. Quero que tenha o seu tempo para decidir sobre o que você quer para si mesma. Quero que seja uma escolha pautada na felicidade e não no medo.

Decidindo por mim ou por ele, por medo de ficar sozinha, não adianta. Decidindo por ele, por medo do novo, não adianta. Não adianta decidir, igualmente, por mim, por... por... Não sei. Não sei porque não decidiria por mim. Paro e penso, escrevendo estas linhas e, por incrível que pareça, não consigo entender. Deixo isto para você decidir. Ainda estou esperando a sua ligação para conversarmos. Não vou tocar a minha vida para frente até o final do ano. Espero por você. Mesmo que seja para não ficar com você. O amor que lhe tenho é tão grande que estaria sendo infiel comigo mesmo se o violasse com outra pessoa. Ao menos, enquanto decide.

Com amor,
Do seu,
Robeilson"

Chorando muito, ela ainda não sabia o que queria. Ligava para ele, por vezes, só para que ouvisse a voz daquele homem que havia lhe tratado com tanto carinho e dignidade. Ela só tinha certeza de uma coisa: não sabia lidar com a perda - de espécie alguma. Tanto em qualquer processo, quanto na vida pessoal. Não gostava disto e agora, a vida, tinha lhe dado uma situação que iria perder dos dois jeitos: ou ela perderia o presente com o marido, que não lhe nutre mais ou ela perderia o futuro com Robeilson - podendo ser feliz de novo.

A rotina com seu casamento enfadonho, a rotina do trabalho... Tudo a esmagava de uma maneira insuportável. Seu único e verdadeiro porto seguro a havia impedido de nele aportar. Aquilo mexera demais com ela, mais do que poderia imaginar. Apaixonar-se por seu estagiário, amar-lhe em segredo todo aquele tempo e esta declaração bombástica de que era correspondida com esta prova factual, fez com que tudo caísse por terra.

Ela teria que lida agora com o não querer perder e a falta que ele lhe fazia. Esperava que com os dias, pudesse o coração dela ficar mais tranquilo e fingir que nada daquilo tinha acontecido, que era mera fantasia de sua cabeça. Mas a prova cabal estava com ela: a carta. Ela a lia todos os dias, já fazia oito dias - por vezes, várias vezes por dia. Ao contrário do que achava, não diminuira o seu sentimento por ele; apenas fora como represar um rio incontrolável.Ela não conseguia prestar atenção ao trabalho, vivia chorando pelos cantos e não procurara se abrir com ninguém. Tinha medo de ser pré-julgada. Mas agora... Agora era hora dela decidir. E sabia disto. Iria tranquilizar sua alma dorida e verificar o que deveria ser feito.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Do inominável

Vazio. Esta era a sensação que vinha à cabeça de Sophia. Era assim que ela se sentia, neste exato momento, deitada, encolhida, no sofá de sua sala. A forma como ela estava era quase fetal. Seus olhos, inchados de chorar, traduziam tudo o que estava lhe acontecendo. Algo que estava ali dentro, algo que iria acontecer em alguns meses... Não mais aconteceria. Acarinhava sua barriga pela falta que fazia o ser que estava sendo ali gerado.

Para aquele mal, só haveria o remédio do tempo. Nada pode curar a quebra daquela expectativa - ela estava tão feliz! Planejara aquela gravidez com tanto afinco que mesmo tendo ocorrido da maneira como foi, desejara que desse certo. Mas nem sempre o nosso desejo coincide com o desejo de Deus, pensou ela, naquele momento. Nem conseguia ter uma explicação - apenas sofria a falta do nascituro que não mais viria. Assoou o nariz, correndo mais lágrimas pela face. "Justo agora" - pensou ela - "que eu achei que já havia perdido todas a minha energia, ainda resta-me alguma para debulhar-me em rios de águas salgadas."

Não se pode medir o sofrimento de um pai que perde um filho. Uma mãe, então, está fora de cogitação. Deve-se ter um companheiro para que possa apaziguá-la e encaminhá-la no seu luto de uma maneira suave, carinhosa e tranquila. Estes são os momentos que definem o que as pessoas querem ser uma para a outra. Dali em diante, Sophia teria apoio integral de Danniel. Ele seria o seu melhor amigo àquela hora. Era disso que ela precisava.

Sophia ligava várias vezes para ele. Danniel, então, começava a sua seara pela cova dos leões. Seria fácil abandoná-la agora, diante de tudo o que havia ocorrido antes do aborto; a perda do bebê tudo justificaria. Dentre todas as possibilidades, ele optou pela mais honrosa. Aliviou sua dor, direcionou sua angústia e fez com que ela minimizasse. Ele tinha esse poder quase mágico sobre ela: fazia com que tudo ficasse melhor para ela. Ele era o seu presente de Deus, dizia ela.

O caminho seria árduo. O rompimento recente havia prejudicado aquela relação; as palavras ditas por ela haviam sido amargas e ácidas. Saber do bebê e saber que o perdeu em tão pouco tempo, poderia afastar alguém que não mais tinha laços sociais estabelecidos. O que as pessoas nunca desconfiariam, nem eles próprios, era o tipo de conexão espiritual que compartilhavam – sabiam o que o outro sentiam, só por intuição - ou aquele típico aperto no peito, como foi o caso de Danniel naquela fatídica noite.

Os dois não sabiam o que resultaria aquele afago. Danniel não se preocupava com isto agora, embora Sophia cogitasse esta hipótese. Sabia que Danniel poderia já estar com outra – um misto de ciúme, amor e dor veio a sua mente, ao perceber que poderia perdê-lo para sempre – hipótese que ele preferiu cogitar só após a sua recuperação de alma. Ela estava doente d´alma e precisava de afeto. E tempo. Só isto importava desta feita.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Um dia...

A vida não é uma receita de bolo. Genésio saboreava esta sensação meio amarga, enquanto sorvia um copo de vinho, sentado à poltrona da sala de sua casa. Descalço, passeava com os pés pelo tapete, sentido a aspereza entre seus dedos. Olhou para o chão, branco e frio de seu apartamento e o ambiente ao redor. Havia conseguido sua casa própria e seus móveis. Tinha em si a sensação de uma satisfação social cumprida e sua segurança contra as intempéries asseguradas.

Há algum tempo, fez uma escolha por si. Com esforço e trabalho, conseguiu descobrir um método para passar nas provas. Além de concursado, começou a escrever livros para poder auxiliar os estudantes que almejavam o mesmo objetivo que ele já havia alcançado. Surpreendeu-se quando um amigo que possuía uma pequena editora o procurara para ler tal material. Começou com uma pequena tiragem e logo começara a dar palestras pelo país.

"O que é mais preciso em um concurso é paciência e dedicação." - dizia ele - "Devemos sempre ter na mente o objetivo que desejamos alcançar. Nada é impossível para aquele que se esforça. Pode não ser neste, mas no próximo com certeza será." Com isto, sua conta bancária subia a passos largos, enquanto erigia o seu patrimônio pessoal com orgulho. Havia deixado de lado o sonho de ser baterista, mas tudo o que conseguiu conquistar foi devido a esta obstinação.

Sua mente remeteu-o a um hotel na Bahia, onde tinha acabado de dar uma palestra. Uma das perguntas que lhe fizeram fora feita por uma jovem de pele alva, olhos esmeraldinos e madeixas loiras. A indagação girava em torno do que ele sentia ao trabalhar com algo de que não gostava. "A experiência nos mostra que só podemos ter um conceito formado, normalmente, após a praxis. Há, ainda, fatores de previsibilidade. Tudo varia de acordo com o seu senso de moral e o seu comportamento. No serviço público, a certeza de que está se dedicando para algo melhor para a sociedade deve ser o ponto de partida."

Vez por outra, a voz da jovem ecoava em sua cabeça, mas nada que pudesse perturbá-lo. Se fosse mais novo, corroeria-se por dentro com isto. Agora, mais velho e tendo alcançado sucesso, apenas uma marola da praia trazia este sonho de adolescência. Ainda tinha uma banda de amigos. Na verdade, era este o seu laço com este passado - um passatempo com amigos que também compartilhavam deste mesmo sentimento. Sorriu. Colocou o copo de vinho em cima da estante da sala. Espreguiçou-se na poltrona.

Ao bocejar, ouviu um rodar de chaves à porta. Barulho no corredor. Vozes de crianças. Sua mulher tinha acabado de voltar do shopping com as crianças. Agachou-se no chão para recebê-las, enquanto suas duas filhas faziam algazarra e correram em direção a ele, derrubando-o ao chão. Brincavam de cócegas. Ao conseguir desvencilhar-se dela, olhou sua mulher de pele branca, com seus olhos eternamente negros, admirando aquela cena. Em uma mera troca de janelas de alma, sabiam que tudo aquilo que tinham era precioso.

Após finalmente aquietarem as pequenas feras, tiveram um tempo para eles. Conversaram sobre o dia, enquanto ele a servia de vinho. Brigaram há cerca de dois dias, por um motivo que ele se sentia culpado. Ao passo que ela sabia o que ele havia passado para estar ali com ela. Os dois amavam-se, isto era verdade. Não era um hábito ou um gostar de meros companheiros de república. Os anos tornaram uma tórrida paixão em um amor sólido, com picos expressivos de paixão.

Entre um pedido de desculpa e um beijo, ele pediu um momento para ela. Deu-lhe um envelope. Trêmula e sem entender se era um pedido de divórcio, abriu-o. Era uma escritura da casa que ele havia comprado para que ela pudesse realizar o sonho de montar um abrigo de animais. Ele a entendia mais do que ela própria, em sua nuvem de pensamentos. Ela o abaçou tenramente, não por ter sido "comprada". Apenas por ter sido compreendida e saber que havia optado por ele no momento certo de sua vida. Amaram-se, no sofá, mesmo com as crianças em casa.

sábado, 30 de outubro de 2010

Da auto-ajuda...

Sinto como se fosse um soco no estômago, roubando-me o ar que outrora me nutria. A angústia toma o meu coração e tenho vontade de colocar o que nem tenho no estômago para fora. A garganta arranha, as pupilas dilatam e lágrimas de desesperança correm-me à face. Não sei nem onde estou, se me perguntarem. Parece que o chão saiu do lugar e alguém inverteu o céu de ponta cabeça. Nunca o meu inferno pessoal foi tão exultante e pavoroso.


Não há nada a fazer. Somente devo aceitar o que estou passando. Paro, sento e fecho os olhos. Antes de erigir a minha estrada para dentro de mim, preciso limpar as pedras. Faço, com calma, o coração parar de se atribular. Escuto um barulho de rio ao longe, o que me ajuda a serenar a minha respiração. Começo a sentir de novo meu corpo, como um todo. Tudo vai tomando seus lugares.

Momentos de relutância vêm, a angústia simplesmente não quer deixar o meu coração. Em um lance de impulsividade, quase a arranco de mim com força. Mas não é necessário. Convido-a para sentar juntar a mim. Ela estranha e, aos poucos, este sentimento de desespero vai desfazendo seus próprios nódulos de medo e vai indo embora, tendo agradecido pelo tempo que se abrigou em meu peito.

Com isto, resta apenas o que eu sou. Após este momento, vou caminhando com serenidade para o que parece ser a minha consciência interna. Isto me acalma, me indica uma rota. A rota da passividade, da espera e da construção. Aplainando o terreno para construir um belo castelo de paz e harmonia. Uma verdadeira fortaleza em face das intempéries do destino. Sorrio. O destino somos nós próprios que escolhemos.

Esta escolha é baseada em dois fatores: medo ou amor. Quando é por medo, tomamos o caminho mais fácil e pelo qual enveredaremos por infortúnios. Quando usamos o medo para ser nosso consulente em nossa jornada, apenas teremos a certeza de que abandonamos a felicidade para viver uma fantasia criada por nossa própria mente. Isto não é saudável e, com o tempo em que não nos escutamos, danificamos nosso corpo. Sintomas eclodem pelo fato de não procedermos pelo nosso caminho.

O caminho do amor é mais doloroso. Precisamos nos desapegar de coisas pequenas, de nós mesmos... Para que possamos dar a importância ao que devemos: a nós mesmos, como pessoas. Quando optamos por nós, optamos por sermos felizes. Isto significa escolher um caminho árduo, mas gratificante. Quanto maior o prêmio que almejamos, maior o sacro ofício que devemos perpetuar em busca do nosso destino.

Para fazer isto, devemos nos aliar a nós mesmos e respeitar os nossos temores. Aproveitar as pessoas que estão dispostas a dividir uma caminhada em direção a um destino em comum. Rirmos de nós mesmos e ajudarmos o próximo. Quando ajudamos alguém, estamos nos esforçando para compreender aquela pessoa pelo seu próprio universo e isto nos faz ver um dos grandes milagres da vida: não há verdades absolutas, nem regras inquebráveis; apenas a necessidade de sermos felizes.
 
Aceite este conselho como um presente, um presente de um amigo. Como todos os amigos, sempre estaremos presentes na vida do outro e poderemos plantar uma semente que gerará vida própria. Esta é uma capacidade una, a de sincronizar almas. Quando isto acontece e você conhece alguém assim, passe mais tempo com ela. Aprenda a conhecê-la e amá-la. Isto fará com que o seu caminho e o da pessoa seja mais florido. Não porque você plantou mais flores para si; mas, porque o fez para o outro.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Da distância...

A distância é uma marca de um ponto A para um ponto B. É um caminho que se percorre. Quando estamos distantes de quem amamos, isto nos incomoda profundamente. Incomoda por não sabermos como aquela pessoa está e nos refugiamos na insegurança de que ela pode precisar de algo e nós não estaremos lá para auxiliá-la. Isto pode ser verdade. Mas devemos lembrar, também, que este fator é influenciado pela distância do sentimento.


Não no sentido de ser distante, mas a dos pontos em profundidade de bem-querer. Quanto mais gostamos de alguém, mais profundo tornar-se o amar por aquela pessoa. E o que fazer, então, quando a distância é grande e o sentimento mais profundo? Doer, dói. Amar dói. Amar é você abrir a sua guarda, os seus medos e anseios e convidar aquela pessoa para bailar junto a sua alma, em uma valsa com a duração que os dois determinarem.

Sofrer, já é questão opcional. É claro que ninguém gosta de ficar longe de quem se ama por tempo demais. Aos apaixonados, dez minutos já é uma eternidade. Aos companheiros, pode ser que este tempo também seja, mas ele já é mais dilatado, pela certeza de que irá encontrar quem você realmente ama em sua residência. A angústia pela espera do seu objeto de desejo é amenizada por esta certeza.

Podemos, conquanto, tirar uma lição valiosa disto. A distância física pode ser enorme, mas não é nada em comparação a quando dois corações estão conectados. Para isto, basta fechar os olhos e lembrar daquela pessoa maravilhosa que compartilha um sentimento de ternura profunda e tudo se torna mais leve: para você, por acalmar a sua alma e para a pessoa, por estar recebendo este sentimento profundo e sincero. Lembro sempre de cenas de filme e, acreditem, isto funciona na vida real.

Não deixem que problemas atravanquem isto. O direcionamento é sempre de apoio, sempre de querer integrar-se ao outro. A insegurança existe, o amor persiste. Devemos nos encaminhar para este ponto. Aos amantes, uma lição valiosa: a amizade é a base do relacionamento. O sexo importa, mas só é realmente bom mediante a intimidade de se desnudar a alma para outro. Em certos momentos da vida, devemos valorizar mais este companheirismo para que os mares possam estar revoltos, mas para que um seja o porto seguro do mais necessitado. Este é, na verdade, o sentimento mais profundo de um verdadeiro casal. Os outros são os condimentos necessários para que a vida a dois nunca caia em uma rotina.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Da persistência

Mizael era um jovem determinado a escrever um futuro melhor para si do que o destino tinha lhe previsto. Vindo de uma família humilde, sabia do valor que o esforço em seu cotidiano tinha para se alcançar um objetivo. Como somente tinha terminado o segundo grau e não poderia ter um rendimento bom com este diploma, resolveu planejar um futuro para si. Resolveu, então, continuar trabalhando em meio período enquanto ainda morava com os pais e estudar para um concurso público no qual o seu diploma pudesse lhe da uma ascensão financeira.

Passava os dias no trabalho, pensando no concurso e resolvendo questões mentalmente, enquanto empacotava os sacos de compra. Na quinta-feira, um cliente que era juiz, aparecia na loja. Ele sempre o ajudara e, com isto, tomara lições de direito com ele. Este senhor, Romualdo, sempre o incentivava a sonhar mais alto e ir, aos poucos, concretizando este sonho. Neste dia, porém, ele trouxe-lhe um presente: havia comprado a apostila com todas as matéria para Mizael. Este, exultante, agradecera a Romualdo; ele, porém, apenas estava retribuindo um favor, passando-o adiante.

Estudava todos os dias, sempre que chegava a sua casa. Conseguia manter os estudos e o trabalho - e ainda conseguia ver Sylvia nos finais-de-semana, de modo romântico. Sua namorada o apoiava como nunca nos estudos, estando ela também engajada em passar, estudando também com ele para o concurso. Após alguns meses de estudo e a realização da prova por parte de ambos, cabia somente a espera. Esta, de uma maneira corrosiva e ansiosa, tomava-lhes uma parte do tempo.

Os dois tiraram férias de quinze dias de seus empregos e resolveram apenas passear. Não que fosse algo típico da novela das oito, mas era um romance sincero. Caminhavam pela Floresta da Tijuca e, quando podiam, faziam amor na casa um do outro - sem a presença dos inúmeros irmãos. Ele, porém, ao voltar de férias, fora demitido. Entrou momentaneamente em parafuso - sua contribuição era pouca, mas necessária para aquele âmbito familiar. Começou a espalhar currículos, sem sucesso. Sylvia ainda tentou acalmá-lo; resultou em uma briga.

Após alguns dias sem se falarem, havia saído o resultado. Os dois haviam passado. Mizael, então, resolveu procurá-la para conversarem. Com uma certa resistência, ele conseguiu explicar a situação para ela e pediu desculpas. Ela, entre lágrimas, falara que não era somente culpa dele; ela também estava muito nervosa com tudo o que estava acontecendo na vida dela. Ele indagou-lhe o que ocorrera. Ela silenciou por poucos segundos, mas o tempo de uma eternidade para aquele jovem casal.

Ela pegou a mão direita do seu amado, com calma, e pousou sobre o seu ventre. Ele a havia fecundado. Sabia que ela andava estranha e, até o momento, não entendia o motivo. Não desejava que sua filha tivesse o presente sofrido de ambos. Ele, chorando, prometeu que isto não ocorreria com ela, que eles continuariam estudando para que pudessem alcançar um patamar social cada vez mais elevado - afinal, amor puro e sincero eles já tinham mais até do que o suficiente.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Das realizações

Por definição, usamos o termo "Ser Humano". Somos na medida em que nos encaminhamos para o que nos é humano. Peculiar, no entanto, é como construímos este caminho. Este era o dilema de Alucrécio. Estava dividido entre ficar estagnado e proceder em um outro caminho. Uma escolha não é fácil de ser tomada - há incertezas e inseguranças, afinal por pior que seja o seu estado existencial, ele o é conhecido, não necessita de navegar por novos mares.

Ele, por sua vez, resolveu arriscar. Pouco era de fazê-lo, e somente transcorria assim por poucos motivos. Havia achado um em particular e resolveu seguir em frente. Pegou um sonho e o plasmava da matéria da concretude. Passo-a-passo, tornava-se mais forte no caminho em que seguia. Não sem dificuldade, choro ou mágoa; apenas resolveu caminhar em direção a algo melhor para ele. Não sabia o que, exatamente, mas sabia que o que vivia não podia mais ser bom. Sentia-se preso a um passado estéril.

Chegou, então, o momento em que poria à prova tudo o que tinha realizado. Fez o que todo combatente honrado faria: apostou tudo de uma única vez, crendo que aquilo traria a sua tão sonhada recompensa. Depois, esperou. Era uma espera tranquila, na maioria das vezes. Por outras, a sua ansiedade subia-lhe a garganta e sufocava-lhe o peito de tal maneira que achava que iria sofrer um infarto no miocárdio. Conquanto, sobrevivera a tudo isto.

Lembrou de uma vez em que viu um filme, onde um mestre ensinava um discípulo sobre como deveria aprender a lidar com o medo. Não é que ele devesse não sentir medo; todos sentiam, até o seu mestre. Ele apenas deveria canalizá-los para algo positivo, algo que fosse construir um bom futuro. Quando o medo batesse à sua porta, ele deveria dizer para entrar e mostrar o seu lar. Assim, o medo ficaria encolhido com tamanha luz que ele emitira.

"Não é com o nosso lado sombrio que devemos nos preocupar..." - disse ele - " E sim com a nossa dificuldade em aceitarmos ser felizes pela luz. É algo muito difícil nestes dias turbulentos; as pessoas ocupam-se em não serem felizes, em ratearem em direção a algo positivo." Alucrécio se alegrou com isto. Por pior que fosse temporariamente seu caminho, ele estava indo em direção a algum lugar. Este lugar seria o de sua felicidade, onde poderia erigir os templos mais bonitos para si próprio.

Sorriu. Um gosto de vitória e esperança subiu-lhe as papilas gustativas, dançando com elas como dois amantes dançam à meia luz, nus, em um quarto de hotel. Fechou os olhos e pequenos momentos de infância passaram como flashes de filmes. Sentia-se bem melhor ao saber como estava sendo humano naquele momento, aceitando suas fraquezas e ultrapassando-as, pouco a pouco. Dali em diante, os dias não seriam melhores, nem piores; apenas mais prósperos.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Do método objetivo

Genivaldo era um daqueles típicos heróis românticos do século XVIII. Tudo era por demais intenso em sua vida: transitava do amor mais nobre para a raiva mais profunda, sempre pelo mesmo objeto de desejo. Ao ser afastado do mesmo, até quando ele o queria, sofria por demais. Era desesperado, ligava todo o tempo, mandava flores... Por vezes, elas eventualmente voltavam. Apenas para, logo em seguida, darem o adeus eterno.

Foi no último término o que ele mais se exasperou. Era uma mulher do jeito que queria: inteligente, culta, independente financeiramente, divertida, bonita, boa de beijo e melhor ainda de cama. Eram horas de sexo selvagem e despudorado. Após isto, sempre riam muito e brincavam. Ela se abriu para ele, como ela dizia, de uma maneira que nunca havia feito para homem nenhum. Ele era importante para ela até no momento de decidir o cartão de crédito ou o carro que devesse comprar.

E, então, ela foi embora. Ele não conseguia suportar este fato, fez tudo: email, flores, ligações... E nada adiantou. Ele, então, sentiu-se um pombo - apenas se alimentando das migalhas emocionais por ela disparadas. Cleidiane ainda o atendia, ainda falava com ele, sempre deixando uma fresta da porta aberta para que ele adentrasse. Perguntava sobre seus pais, sobre coisas do cotidiano dele... Após isto, dava-lhe uma estocada por algo que ele tivesse feito que a magoara e desligava.

Nosso herói, então, resolveu parar e respirar. Genivaldo pensou que o amor é bom, quando é bom para os dois; assim como a vida só gosta de quem gosta dela. Algo mágico aconteceu neste momento - ele valorizou a si mesmo. Era um homem sincero, honesto, fiel, simpático, inteligente, culto e batalhador. Havia sido promovido e usaria isto para comprar o anel de noivado que já havia reservado em uma joalheria para lhe pedir em casamento.

Pensou, então, no mais razoável. Ele e ela era independentes financeiramente. Ela estava confusa por ter se separado há pouco de um marido a qual estava acomodada. Ela... "Espere! " - pensou ele "É a minha história que estou escrevendo e não a dela. Ela não mais quer fazer isto comigo. Cleidiane não me ama o suficiente para ficar comigo. Ela pode ter medo, tudo... Mas no final das contas, é ela quem não optou por mim. Não há nela o aquisciemento para sermos um casal."

Ia começar a chorar, quando a lógica surgiu-lhe: ainda bem que ela não estava mais com ele. Desejava alguém por inteiro. Era bom o que tiveram? Sim, era. Supreendeu-se por usar o verbo no passado. Embalou as coisas que ela lhe dera e guardou; copiou os emails para um disco e os apagou de sua caixa, bem como todos os seus telefones foram anotados e guardados lá. Tudo iria ser jogado fora no momento certo, enquanto ele ainda deixava escorrer as últimas gotas de amor que tinha por ela. Dali para frente, tudo seria diferente. Seria mais sábio ao escolher suas parceiras.

domingo, 17 de outubro de 2010

Classificado

Quem almeja o que nunca teve, precisa fazer o que nunca fez. Esta frase não parava de ecoar na mente de Adalberto. Ele era de uma família de classe média e sempre postergava o seu sonho profissional, alternando de escolha de galho em galho. Poderia ser resumido como a Escolha de Sofia, pelo tempo que demorou para optar por algo. E quem lhe fez optar por uma decisão fora, ironicamente, Sophia. Uma mulher mais madura, como adorava as que fossem suas.


Ela era uma competente arquiteta que tinha se graduado por mérito próprio, esforçando-se sempre para poder dar uma boa vida para a sua tia, que a havia criado no lugar de seus falecidos pais. Encontraram-se em uma festa de casamento e conversaram durante um longo período. Trocaram telefones e, depois, as comunicações necessitavam ser cada vez mais breves, mais pessoais... Até que se apaixonaram e entregaram-se a este amor.

A única opção de Adalberto para tê-la integralmente era um concurso público. Era inteligente, porém pouco esforçado. Ela havia se tornado este combustível. Foram meses de estudos diários, horas desgastantes... Choro, desespero. Ataques de raiva e ataques de esperança. Alegria por estar acertando cada vez mais as questões. Brigas eventuais com Sophia por conta deste stress.

Mas tudo tinha valido a pena: ele havia recebido a notícia tão esperada. Classificado. Sabia que, pela quantidade de vagas, estava dentro. Tudo, então, misturou-se em uma euforia e uma sinfonia de sentimentos tão complexos que fora do riso ao choro e voltara várias vezes, com mesclas de gritos quase que primordiais. Sophia, aquela mulher que havia feito com que ele buscasse o melhor para ele e para ela, poderia ser agraciada com um pedido de casamento.

Pedido este que nunca aconteceu, ao menos não com este resultado de segurança de um futuro estável. Ela o havia abandonado. Sentia-se um aluno – um ser sem luz – pois a sua Sophia – conhecimento – o havia abandonado. Ela, que era o seu mundo, tinha lhe puxado o tapete emocional. Agora, ele tinha a estabilidade e a possibilidade de lhe proporcionar um futuro; sem ela.

Sentou-se, após este conclusão, no chão de seu quarto. Fora parabenizado por seus familiares e, agora, pretendia ficar só. Fez o que um homem vencido poderia fazer: soube perder. Respirou fundo, pensou nela e em todos os momentos felizes que passaram, nas brigas, em tudo... E apenas agradeceu. O amor que havia tido com ela era bonito demais para que, agora, ele não pudesse dizer: muito obrigado por tudo. E rezou para que este amor levasse até ela a notícia.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dos bons momentos...

Dizem que a vida inteira passa diante dos seus olhos quando você está para morrer. Não é só neste momento. Quando estamos perto de conquistar algo que sempre desejamos e a felicidade encontra-se logo ali ao lado. Talvez, neste momento, pensou Gilda, é onde podemos realmente nos encontrar com algo mais profundo. Neste momento quase sublime, ela, com quase trinta anos, poderia realmente ser descrita como uma mulher feliz.

Lembrou-se de tudo o que tinha lhe acontecido. Das dificuldades financeiras para se graduar na universidade e de como batalho para fazer sua pós-graduação para poder alcançar um lugar ainda melhor dentro da empresa em que estagiou. Veio à sua mente como o seu chefe tinha lhe sugerido que se fosse amante dele, poderia subir mais rápido. Fez o que poucas tiveram coragem: denunciou-o ao seu superior. Poderia ter sido demitida, poderia muita coisa ter acontecido... Mas ocorreu o que ela esperava: a justiça foi feita.

Pela sua coragem, foi até alçada a um cargo mais elevado. Ela batalhou muito. Teve, contudo, algumas decepções amorosas, como todos. Um noivado que havia acabado por seu noivo ter tido um romance secreto com a sua prima - a qual era irmã de criação - este foi o que mais lhe impingiu dor. Ajudara-a em toda a sua criação e na capacitação profissional e ali era dera o cavalo de tróia inesperado. Segurou a onda e continuou seguindo em frente.

Encontrou Pedro Henrique em uma cafeteria, em uma segunda-feira cinza, típica da que é seguida de um feriado emendado. Ela havia derramado café em seu terno. Ele sorriu e limpou, com a ajuda dela. Pediu, ao menos, que ela lhe pagasse um café. Ela encabulou-se com aquilo tudo e pagou. Conversaram durante alguns minutos sobre amenidades. Trocaram algumas figurinhas da infância, falando sobre programas de tevê e brincadeiras que tinham. Ela despediu-se, atrasada para o trabalho.

Passaram a se encontrar casualmente ali e começaram uma bela amizade. Dois meses depois, o toque eventual na mão, os olhares de ambas as partes, a ansiedade para que se encontrassem denunciava que era bem mais do que isto. Pedro Henrique tomou coragem e convidou-a para jantar. Ela, ainda ruborizada, aceitou. Daquela noite em diante, passaram a namorar. Comemoram cada promoção que ela tinha, assim como quando ele passou para ser analista do Ministério Público da União. Foi neste dia em que a pediu em casamento.

Ela, depois de tudo o que havia passado, tinha certeza de algo: do relacionamento sincero, onde não havia mentiras. Ela confessou tudo o que havia acontecido com ela em sua vida - até um caso homossexual - e Pedro a havia entendido. Ele confessou que fora amante de uma mulher casada e ela também o havia perdoado.  De todas as tempestades que passaram juntos, de todos os reveses que enfrentaram... Ele sempre estava ali, um somente pelo outro. Magoaram-se, eventualmente, com coisas sem sentido. Faziam as pazes. Com ele, ela tinha algo do qual se orgulhava: ele era o seu Porto Seguro.

E lá estava ela: indo, no seu último momento de gestante, indo dar a luz ao Lucas. Somente chegou a este momento pela estrutura emocional que seu marido lhe oferecia. Passou as mãos na barriga, uma última vez, com a certeza de que aquela criança que logo estaria ali, era o fruto de uma felicidade sem igual. Respirou, uma vez mais fundo, antes de tomar o remédio para poder fazer a cesariana. E dali, dali a pouquinho mesmo... Realizaria o seu sonho de ser mãe.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fogo-de-Santelmo

Karla não tinha coragem para mandá-lo embora pessoalmente. Saberia que caso se encontrassem, não o conseguiria. Decidiu, então, usar da mesma maneira com que ele tanto a encantara: através de poesia. Não que ela fosse brilhante autora, apenas regozijava-se cada vez que era sua musa. Agora, a musa iria dizer para o poeta o que ele nunca gostaria de ler:

"Adeus
 Não lerei mais teus versos
 Nem teremos nossos corpos descobertos
 Isto, juro por Deus

 Rezo
 Para não te ver mais
 Nem chorar por ti demais
 Apenas isto peço

 Juro
 Quero recomeçar de novo
 Estar com outro povo
 Desejo outro amor puro

 Porém
 Sei que não terei tudo
 Nem o teu amante conteúdo
 Afinal, fui eu quem disse Amém

 Aborto
 Nosso futuro promissor
 Por algo sem sabor
 Tu que fostes meu porto

 Amo
 A ti constantemente
 Não sais de minha mente
 És, do meu coração, amo

 Soy loca
 De deseos por ti
 Por que dexaste tu partir?
 Por tan cosa poca"

E o poeta, entre lágrimas e soluços, buscou uma caneta e papel para lhe responder. Tentou responder com um poema, ao seu amor que estava partindo. Como poderia isto acontecer com algo tão sublime? Ela havia se tornado o seu mundo; e ele estaria disposto a colocar o mundo inteiro aos seus pés. E então, ele percebeu algo estarrecedor, algo que nem a conversa, o carinho, a amizade, os beijos, os toques, as carícias, o sexo ou os gozos tinham feito com ele. Ela havia-o tocado profundo demais, tão profundo, que levou embora suas palavras. Todas elas.

Gilmar, então, deixou cair a caneta sobre o papel. Olhou, para suas mãos incapazes de produzir qualquer coisa e colocou-as em sua face. Eclipsou-se o seu mundo. Voltou-se, então, para o seu mundo interno. Observou o vazio existencial e a angústia que ela havia deixado. Ela havia levado uma parte de seu coração com ele. Ele, ainda sem qualquer traço de originalidade, remeteu-se à Bíblia e, parafraseando-a, pensou:

"E Ela disse:
 -Faça-se o silêncio.
 E o silêncio fora feito."

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Da vida

Jocilane estava atenta ao celular. Observava-o algumas vezes por dia, mais do que o normal. Verificava o volume, se estava funcionando. Não o desligava com medo de perder a ligação: colocava-o sempre para carregar e verificava se estava na área de cobertura. Sua preocupação estendia-se ao serviço de bate-papo e ao seu e-mail. Passou a verificá-lo mais do que as habituais duas vezes por dia. Frequentava as páginas do escritor que lhe causava tamanha confusão.

Ela tinha pedido para que ele fosse embora. Só que ela não acreditava que ele fosse. E ele foi. Agora, se encontrava mais perdida do que estava antes: seu status quo não mais lhe agradava. O seu cotidiano passava a ser mais do que enfadonho; em certas horas, chegou a amaldiçoá-lo por tê-la conhecido, por ter mostrado para ela a felicidade de um verdadeiro casal - um amor completo, companheiro e sincero. A honestidade era a base do relacionamento deles.

Mais uma vez, seu comportamento impulsivo havia precidido qualquer análise racional. Arrependia-se gradativamente daquela atitude, ainda mais pelas amostras do seu contemplar. Sentia-se pequena, chorava copiosamente. O CD com as músicas que ele havia gravado tocava em seu rádio. Ela não conseguia tirar de lá. Lia, vez por outra, os cartões de amor enviados por ele. Seus olhos, inchados, desejavam ter uma pequena última visão dele.

Não, isto ela não queria. Sabia exatamente o que aconteceria se o visse: ela amoleceria, desejaria-o de maneira mais intensa e ardente do que antes. Ela se entregaria de corpo novamente para aquele homem. O que ela não conseguia era puxar a sua alma de volta. Estava enlaçada com a dele, de uma maneira tão bonita que até o mero sofrimento da distância não poderia fazê-la esquecer. Ao dormir, lembrava dele. Procurava-o para abraçar durante a noite. Acordava, vez por outra, com a sua mão direita, desejando que estivesse ali. Lágrimas minavam pela sua face e ela perdia o sono.

Ao acordar, lançava seu olhar pelo quarto, procurava qualquer coisa: uma mochila, uma peça de roupa, uma meia jogando no chão... Nem mais para discutir sobre a sua falta de organização ele estava mais lá. O que ela comia perdia o sabor, o dia parecia mais cinza... Tudo aquilo que ele lhe dava, havia partido: um imenso peso era o seu coração, ele que outrora saltitava a cada mensagem, a cada ligação. Sem falar nos encontros: o beijo, a paixão desenfreada, o coito...

Sentia-se presa a seu status e deseja estar com ele. Achava-se imprópria para tal, duvidava de sua própria capacidade para conseguir isso. Procurou, então, resignar-se com esta situação. A saudade era sua maior inimiga, mas com o tempo... Com o tempo ela não passaria. Ela a acompanharia por toda sua vida ao saber o que tinha perdido. Ao lacrimejar, olhou mais uma vez para o seu celular. Apertou-o com força, como se sua vida disso dependesse. E começou a discar os números, mesmo sem ter certeza do que deveria fazer... Apenas sabia que precisava dele. E de força, para tomar a atitude que deveria tomar.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Argemiro

Argemiro era o responsável por cuidar de estrelas do Setor 7BNNB - 0099; o nosso sintema solar. Seu trabalho era fazer com que elas brilhassem o mais nítido possível. Ria dos humanos cientistas, pois com todo o seu avanço, haviam deixado de reparar em como elas eram bonitas e o quanto deu esperanças para todos os homens, em outras eras. Mas esta aqui é uma Era Cinza, pensou, onde as esperanças se esvaem pelos dedos como areia no deserto e se perdem misturadas aos grãos da incerteza.

Em seus passeios, além de ornamentar as estrelas e dar-lhes luz, gostava de observar os seres da Terra, como um pequeno passatempo. Ficou particularmente encantado com uma cientista. O que o fascinou não era apenas o seu intelecto, mas o que tinha por dentro - uma doçura e compaixão com o ser humano - e os seus medos - achar que estava ficando velha e sua insegurança em relação a sua felicidade. Ela era como um motor industrial, desses que trabalham vários dias seguidos.

Observava que ela tentava ser feliz no seu cotidiano: procurava se relacionar com seus amigos no trabalho, procurava ter namoros e cuidar dos pais. Ah, e tinha cães. Matilde gostava da paz e da quietude que aqueles animais tinham por ela, sabendo que eles sempre poderiam ser fiéis a ela. Neste quesito, precisava demais da conta da segurança. Deixou alguns namoros para trás por vários motivos, mas o principal era o da segurança.

Ou como ela o camuflava. Argemiro percebeu a aproximação de Thobias, um rapaz que tinha tocado o seu coração. Ela permitiu que ele o fizesse, na verdade. O nosso observador até ficou exultante - ela agora poderia dar-se o prazer de ser feliz, de poder se entregar a um amor verdadeiro e com ele estabelecer laços. Laços que Argemiro tinha com Astelfa - mas que por causa do árduo trabalho, apenas se viam de éon em éon. Na verdade, a aproximação dos dois lembrava a sua amada. Matilde a lembrava dela.

Após terem se afetuado, se amado e formado uma egrégora entre eles, Matilde se assustou deveras com isto. Imaginava se podia ser feliz ao seu lado, o que deveria fazer... E se ele descobrisse algo de que não gostasse? E se ele pudesse magoá-la? Outros poderiam tê-la magoada, mas ele... Ele era especial demais para fazer isto com ela. Foi deste ponto em diante que tudo se degringolou. Ela pediu que ele saísse de sua vida.

Ele saiu. Sentido, machucado, magoado... Assim como ela também estava. Na verdade, ela estava até em um estado pior: ela não tinha tido a coragem de lutar pela felicidade de ambos, deixou que o medo a levasse pelo caminho escuro da negação. Argemiro aproximou-se da Terra, ficando sob aquele local. Nesta hora, permitiu-se ser humano de novo e escorreu uma única lágrima de sua essência; rezando por eles, fez-se uma chuva. Uma chuva meio esverdeada de esperança e meio cinza da dor do não-realizado. Matilde fez o mesmo, assim como Tobias.

Das metades

O nosso herói era um jovem adulto sonhador. Seus comportamentos sempre alegres e carismáticos atraíam várias pessoas; e pensar que, quando adolescente, era tímido e sofria de baixa estima. Tinha se tornado um adulto mais confiante e um pouco menos inseguro. Buscava ainda a tão esperada transição profissional, para que pudesse desabrochar para poder sair da casa de seus pais.

Godofredo conheceu Bethania em uma sala de bate-papo virtual. Ela, de vez em nunca entrava, resolveu naquele primeiro dia da primavera entrar. Ele, solteiro, estava ali apenas para curtir uma noite de um modo despretencioso. Entrosaram-se. Resolveram, após muita conversa e telefonemas, se encontrarem para jantar. Ela nunca havia saído com alguém totalmente desconhecido da internet e ansiava por uma coisa boa e nova na sua vida. Ele estava ainda curando-se de um antigo amor.

A conversa foi longa e boa. Os beijos, calorosos e apaixonantes. O sexo que seguiu foi indescritível. Ela saiu de lá querendo mais dele, assim como ele dela. Ela era sempre reticente com relação ao futuro dos dois, apenas vez por outra fazia um plano. Apesar de ter épocas em que ela completamente surtava e declarava o amor dos dois aos quatro ventos. Ele, um eterno romântico, apreciava e a acarinhava como ela nunca havia sido.

Bethania sabia que tinha algo bom e puro, especial demais para ser verdade. Mas era. O amor de filmes que ela havia, a paixão desmedida e a sinceridade que eles tinham um para com o outro apenas a tornava mais mulher, mais bem-aceita; contou-lhe todos os seus segredos. Assim como as pequenas coisas do dia-a-dia, as pesquenas inseguranças; tudo era tratado por ele com um amor inenarrável. Ela, por sua vez, fazia de tudo para locupletá-lo. Era sábia a decisão de ficar com ele.

Godofredo, por sua vez, percebia a iminência de se estabelecer. Embora fosse tudo o que ela precisava, ele necessitava de um emprego. Havia conseguido um; ficou exultante. Deixou uma pequena controvérsia passar para que pudesse falar com ela. Com isto, poderiam casar e ter os filhos que desejavam. Toda vez que falava com ela, deixava passar a oportunidade apenas para que ele pudesse contar no momento apropriado. Porém, o momento apropriado nunca chegou.

Ela impediu que isto acontecesse. Pediu para que ele fosse embora da vida dela. Aturdido, perdeu o chão. Queria falar com ela, conversar. Ela negou. Ele não sabia se por ser especial demais, ela o estava mandando embora. Como poderia, se fosse por isso? Como podemos mandar a nossa felicidade embora? Ele não sabia. Uma infinidade de perguntas rodeavam seu coração e nenhuma com resposta. A única resposta era: ela não mais o queria.

Ele, resignado, aceitou. Não tinha mais forças para lutar por alguém que o rejeitava. Doía perder alguém que fora especial, mas doía ainda mais o desejo dela para que ele saísse de sua vida. Ele imaginou todo o futuro planejado pelos dois, todos os quereres, tudo o que amavam um no outro descer ralo abaixo. Ela própria tinha tomado esta atitude.

Debulhou-se em lágrimas. Parecia um adolescente ao perder o seu primeiro amor. Não sabia se ela fazia o mesmo; com certeza não, pensou. Ela tomou a atitude de uma maneira fria e controlada, como se já o quisesse fazer há muito. Cogitou, então, que tudo o que prometeram um para o outro fosse apenas ilusão, um desejo transitório de um pedaço de esperança, o qual ela precisava para sub-existir naquele momento de sua vida. E, como já o tinha, poderia descartá-lo.

Dobrou seu corpo no chuveiro e tentou conter os soluços de sua dor. Sorriu. Não sabia porque, mas sorriu. Um pequeno, de canto de boca. Estava feliz por sua dor ter sido sincera, por ele ter se doado de uma maneira tão honesta e pura, de ter sido quem sempre foi: uma pessoa proba e especial. Fazia questão de ser assim. Era de coração aberto que tinha começado aquela relação e fora assim que terminara. Sorriu, de novo.

Afinal, sabia o quanto era especial. Não naquele momento de dor... Mas sabia que realmente era um ótimo partido para ser posto de lado. No futuro, ele saberia disto. E não mais se importaria se Bethania se arrependeria do fato. O pedido foi feito por ela. Ainda a amava, mas o que poderia fazer com tamanho sentimento que lhe tomava? Não poderia insistir, bater naquela porta fechada... Bethania a havia trancado com um cadeado, intransponível para todo e qualquer Godofredo que ousasse chegar perto. Havia até colocado cinco cães para guardar aquela prisão sentimental na qual estava.

A ele, apenas restara o fato de ser feliz com outra pessoa. Alguém que pudesse aceitar ser feliz com ele, de uma maneira integral, romântica e para toda vida. Alguém que quisesse ser a mãe de seus filhos, em um relacionamento onde ela não precisasse mentir, apenas ser ela mesma. E ser amada por ser quem ela é. Isto assusta, pois passa pelo princípio de auto-aceitação. Godofredo ria de suas cogitações, algumas pareciam absurdas. Como não podemos ousar ser felizes com alguém que nos ama pelo que somos e nos respeita? Resolveu, apenas, dizer para si mesmo: "Vida que segue...".

sábado, 9 de outubro de 2010

Tirinhas De Datas Comemorativas

Dia das Bruxas
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