quarta-feira, 7 de julho de 2010

Joelmo e seu Concurso

Joelmo vivia a expectativa de sua vida. Era um rapaz sonhador, passional e sempre buscou algo melhor para ele em sua vida. Desejava, do âmago do seu ser, se tornar parecido com seu pai: um homem honesto, trabalhador e que vivia exclusivamente para a sua família. Sua mãe era a mulher mais feliz do mundo, sempre acarinhada por um homem bom e disponível para seus filhos. Incentivava-os a crescer, tanto em estudo quanto em caráter.


Nosso protagonista, então, seguiu o mesmo caminho. Teve algumas decepções em relações a escolhas profissionais, mas agora realmente tinha se aprumado na vida. Estava cursando direito e se preparava para um concurso público de segundo grau. A escolha veio depois de um concurso ter sido frustrado por motivos alheios a sua vontade. Desta vez, prometeu ele a si mesmo, desta vez iria dar certo.

Estudava dia e noite, deixando de lado amigos e família. Sacrificava-se para que pudesse alcançar uma oportunidade melhor: sentia-se velho, já com seus trinta anos. Questionava-se se podia ser a metade do homem que seu pai é. Sentia-se, de certo modo, pressionado por ter um exemplo tão correto e bondoso de ser humano dentro de casa. Resolveu, então, apostar em si mesmo, uma única vez.

Sabia que a decisão de estudar oito horas por dia, no mínimo, era radical. Tinha tomado esta atitude baseado na solidão que sentia em sua vida, uma sensação de estar vivendo a sua vida pela metade. Não mais queria se sentir incompleto, queria se tornar o protagonista de sua própria vida. Era raro isso acontecer em sua vida: normalmente, era vacilante e reticente em suas escolhas, sempre buscando caminhos difíceis e respostas fáceis.

Sua resposta, agora, não seria nada fácil. Seria dura, dando o seu sangue e todo o seu emocional para que pudesse prosseguir. Seus dias seriam cheios de intempéries, com direito a duvidar de si mesmo, de ser o seu próprio antagonista. Era ele quem, em primeiro e último lugar, seria quem poderia levar-lhe aos louros da glória ou ao poço sem fim da derrota. Viveria esta batalha interna a cada dia.

Cada folha que lesse, cada pequeno exercício resolvido... Tudo isto seria o balizador para sua vida. “Vou triunfar” – prometia-se a cada exercício feito, a cada dúvida. Chorava, por vezes, a solidão que os estudos traziam-lhe. Não se deixou abater no início: prosseguiu, com passos curtos e firmes, até que pudesse correr de novo. Acreditava em si mesmo e dali não haveria mais retorno.

Uma semana antes da prova, já exausto e bitolado em certo ponto, seu cérebro levou-lhe, de súbito, ao passado. A um namoro que teve com Carmina, uma linda e apaixonante adolescente. Eles tinhas quinze anos, sua primeira vez tinha sido com ela. Achava-a fascinante, e ela era. Ela também o achava assim. Ele a perdeu por não confiar nele mesmo. Lembrou-se que, em dado momento do relacionamento deles, ele havia cedido. Ela, então, pouco a pouco, foi deixando-o de lado. Chorou muito por isto.

De volta para o presente, sorriu. Um sorriso gostoso, daqueles de quando a ficha cai. Sempre deixou que as mulheres fizessem dele gato e sapato, mas tinha percebido o quão especial era: era um homem e tanto, apenas buscando o seu caminho profissional. Lembrou do quão especial todos achavam que ele era, inclusive seus mais próximos amigos. Admiravam o seu jeito espontâneo e meio moleque. Isto contrastava com a sua profundidade de ser humano e o quanto sabia tratar de modo adequado e aprazível outro ser humano.

Suspirou e sorriu de novo, espreguiçando-se. Lembrou rapidamente de todas as suas ex-amantes e decidiu, firme, que também levaria o seu relacionamento baseado na certeza do quão especial era. Não deixaria, contudo, do seu amor deixar de ser belo e puro; muito pelo contrário, continuaria sendo quem ele é. Só que, agora, quem em sua totalidade era: confiaria em si mesmo para tomar as atitudes, por mais complexas e dolorosas que fossem. Sabia que, no final, valeria a pena por saber a verdade.

Abreu e seu dilema

Abreu era um jovem bem atípico para a sociedade moderna. Acreditava no amor e no ser humano. Gostava de pensar que as pessoas eram boas por natureza e que apenas quando se sentiam fracas, faziam mal a alguém. Poderíamos chamá-lo de sonhador. Um sonhador romântico, acrescentaria. Namorava apenas uma mulher de cada vez: preferia provar várias vezes a mesma do que uma vez várias. Este é o nosso nobre herói, em poucas palavras.

Abreu estava namorando Myllena. Ele, um romântico e ela, uma pessoa absolutamente racional. Era engraçado ver os dois juntos. Compartilhavam várias características em comum, destoando gravemente somente nesta. Enquanto ele lembrava as datas comemorativas, mandava-lhe flores e escrevia-lhe cartões, ela os recebia e, por vezes, até retribuía. Quando estavam sós, na intimidade, porém tudo se acertava. Estas intimidades eram poucas, dadas as vidas profissionais de cada um: ele, um engenheiro, ela, uma autora de romances.

Pode parecer estranho, mas era exatamente isto. Enquanto Myllena usava Abreu para suas inspirações em seus livros, Abreu a usava para poder sair dos cálculos de estruturas. Abreu gostava de sair para comemorar as datas, sempre sabendo que ela não lembraria. Mas Abreu estava ficando cansado: um dia inteiro havia tentado falar com ela, sem sucesso algum. Isto seria normal, ambos estavam, por vezes, acostumados a esta rotina. Ele, porém, percebia que algo estava se partindo.

Sentia, pouco a pouco, seu amor ir se escoando. Era como se ele doasse e não recebe uma outra via. Deixava, por muitas vezes, de lado para que esta situação não atrapalhasse o casal: contudo, estava começando a atrapalhar o seu cotidiano. Vivia preocupado, sem deixar transparecer. Naquela, noite, iria conversar com Myllena sobre tudo o que estava passando pela sua cabeça. Iria ser claro como um rio límpido, se tivesse tal coragem.

Ao pegá-la em sua casa, conversaram amenidades. Ele não conseguia disfarçar a sua ansiedade e ela percebia que algo estava errado. Após alguns minutos, houve aquela pausa constrangedora. O silêncio imperava no ar, denso como argamassa. Ela, apertando as suas pequenas e delicadas mãos uma contra a outra, fez a fatídica pergunta:

- " Aconteceu algum pra você estar chateado?"

Ele suspirou fundo, balançando a cabeça duas vezes de um lado para o outro e soltou o ar. Falou para ela tudo o que o estava angustiando, com parcimônia e calma. Dizia que se angustiava pela falta que ela fazia na sua vida: o fato de poucas vezes conseguirem dormir juntos, o fato de se falarem mais por telefone do que pessoalmente, o fato dela ter deixado de mandar os sms bonitos que mandava no início da relação. Ela ouvia tudo, com os olhos marejados.

Ao acabar de falar tudo, Abreu observou os olhos de Myllena encherem de água e, uma lágrima, escorrer do seu oho esquerdo. Ela olhava para ele com sofreguidão. Ele encostou o carro. Ela pegou na mão dele, como se fosse um tesouro precioso, algo que nunca antes ele havia encontrado em toda a sua vida. Ele se sentiu acalentado e culpado por tudo aquilo. Ele tentou contornar a situação puxando a conversa de novo:

- "Desculpe... " - dizia ele - "Eu não queria..."

Ela, gentilmente, colocou o dedo indicador de sua mão direita sobre os seus lábios.

- "Você disse tanto... E eu, sempre tão pouco. Desculpe por ser assim, mas tenho tanto medo de me machucar de novo. Você é muito especial, Abreu. Eu não mereço uma pessoa que tenha tamanha dedicação por mim. Sei que ando ocupada com o trabalho; este lançamento do livro é importante para mim. Você acha que também não penso em você? A grande vantagem minha é que cada personagem masculino que encanta as personagens femininas do meu livro são inspirados em você. Na sua doçura, na sua gentileza... Olha, adorei que tenha se aberto comigo assim, viu? Mas... Posso fazer uma sugestão?"

- "Pode." - disse ele, com remorso e esperança

- " Nunca deixe chegar a esse nível de angústia, viu? Isto é só coisa da sua cabeça, seu bobo. Aliás, a minha sugestão é a seguinte: vamos deixar de lado o jantar e ir comemorarmos o nosso aniversário de namoro em algum outro lugar mais particular? Sabe aquele corpete com cinta-liga que tanto gosta? Estou com ele hoje." -disse, passando as unhas de leve por cima de sua mão direita - "Que acha de ver se é verdade o que estou dizendo?" - disse, sorrindo a malícia dos amantes.

Abreu sorriu. Ficou aliviado que ela tenha aceitado tudo de uma maneira tão leve e de uma maneira tão gratificante para a relação dos dois. Deixou escorrer uma lágrima, também, tamanha a emoção. Beijou-a, nos lábios de leve e abraçou-a forte, expressando todo o carinho e amor que um homem pode ter pela sua mulher amada. Ficou poucos segundos que pareceram momentos infinitos de eternidade. Após isto, os dois inclinaram a cabeça, com os olhos entre-abertos, olhando-se em suas janelas da alma. Deram-se outro beijo e sorriram. Eram duas crianças para lá de felizes e entregues a sua própria fantasia romântica.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Joanice

Joanice, ou Jô como preferia ser chamada, estava passando por um momento muit difícil na sua vida. Tinha percebido que havia realizado escolhas na sua vida que estavam lhe trazendo muita dor. Sua profissão estava de pernas para o ar e a sua vida pessoal não poderia ser chamada muito bem de vida: não tinha nenhuma. Afundava-se em trabalho para poder esquecer o Cavalo de Tróia que tinha aceitado em sua vida no passado.

Chorava, vez por outra, mas somente por dentro. Desde que tinha ocorrido a abertura do Cavalo e sua cidade havia sido dominada, nem na hora que encerrou o relacionamento com o seu ex-marido. Ele havia contrariado todos os juramentos feitos diante do celebrante: "Amar e respeitar" - todos os outros ela suportaria. O que não suportou foi a traição velada que ele realizara: deixou-a de lado, aos poucos, como se fosse apenas um cd do qual gostamos muito e só vemos sua capa, nunca o tocamos.

Quando sua vida parecia se normalizar, com o trabalho tomando conta de sua vida, sua empresa decidiu lhe dar férias. Tinha duas acumuladas e não desejava pagar por elas. No primeiro dia, ficou dentro de casa, de um lado para o outro. Ligou a tevê, o rádio, tentava ler um livro e cozinhar: tudo ao mesmo tempo. Não queria ouvir a voz de sua própria consciência.

Alguns dias depois, encontrava-se triste. Ela lembra muito bem daquela quinta-feira de manhã. Era fria, com o sol se escondendo atrás das nuvens. Ela caminhava pela rua, procurando um bistrô para comer, quando parou em frente a uma loja de roupas. Olhava, distraidamente os sapatos, quando deu de frente para si mesma. Olhou dentro de seus olhos e, por incrível que pareça, lágrimas rolavam por sua face.

Envergonhada por isto, tentava se conter, sem sucesso. Buscou um templo religioso, qualquer que fosse, para poder ter um pouco de privacidade. Achou um. Sentou em seu banco, sem em momento algum, deixar de escorrer lágrimas por sua face. Estava triste, só não sabia exatamente com o quê. Tentava se recompor, numa vã possibilidade de re-enterrar todo o seu passado. O Inconsciente, porém, é caprichoso: nos avisa através de pequenos sintomas no corpo, tal como atopicidade ou gripe que algo não anda bem. Quando deixamos estes sintomas de lado, outros surgem - até o momento da Revelação.

Flashes passavam pela sua cabeça e ela não conseguia apertar o botão de pausa, para que pudesse lembrar das cenas. Ficou assim por, ao menos, uma hora. Após estar exausta de tanto chorar, algo aconteceu. Não como nas novelas ou em livros, com cores e formas ou até em filmes com cenas marcantes, luzes impressionantes... Ela se sentiu tocada por algo maior do que ela mesma, como se tivesse sido levada para uma montanha e visto a paisagem do seu passado.

Com isto, aos poucos, foi conseguindo obter o controle de sua respiração de novo. Aos poucos, foi observando todos as mazelas que ela própria tinha deixado acontecer na sua vida. Ela ia, de pouco em pouco, separando o joio do trigo do passado. Percebeu que ela própria tinha feito tudo, até mais do que o necessário, para poder ter salvo o seu casamento. Balançou a cabeça, como que se estivesse afastando de sua própria cabeça de que a culpa seria exclusivamente sua.

Deu um sorriso de canto de boca e movimentou a cabeça, instintivamente, para cima. Abriu os olhos aos poucos e sentiu ainda mais paz no seu peito. E um pensamento veio em sua cabeça, de uma maneira repentina, mas concatenado: "Meu Deus, obrigada por todas as oportunidades que me deu para aprender. Eu me perdôo por tudo o que deixei que me causassem, mas a partir de agora, desejo caminhar com esta paz que eu sinto. Desejo mudar tudo, de agora em diante, passo-a-passo. E assim vou continuar porque sei que toda a dor para mudar, será compensada com o amor por mim mesma e, assim, poderei me abrir para o amor de outra pessoa."

Ficou ainda mais um tempo saboreando aquele doce gosto de satisfação em sua boca, aproveitou para limpar o rosto. Pegou seu espelho de bolsa e olhou-se, feliz. Passou o batom e sentiu-se mais viva, como se tivesse deixado uma bola de aço para trás. Ela libertou-se de sua própria prisão que havia construído para não se perceber como a mulher fascinante, inteligente, bem-humorada e bonita que era. Sentiu-se ainda mais bonita com tudo aquilo. Resolveu sair de lá e aproveitar o dia, como um pássaro que acabado de dar seu primeiro vôo para fora do ninho.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Prazer.

Estamos em nosso próprio universo, onde o tempo e o espaço em nada podem interferir. Neste nosso universo, onde só cabe a mim e a ti, podemos estar entregues um ao outro da maneira mais pura e bela. Observo-te, deitada, encantando-me com teu charme, fitando-me com teu olhar, desejosa que eu me aproxime. Tuas órbitas oculares me chamam para dançar, e eu, feliz e contente, humildemente ofereço-me para tal tento.


Toco o teu corpo de uma maneira carinhosa, o qual fica retesado com a mera aproximação da minha mão. Percebo o teu riso, de satisfação, um riso matreiro de uma mulher que irá ganhar o melhor presente que pode-se esperar de alguém: um amor sem restrições, sem pudores. Após percorrer teu corpo com a minha mão, encosto meus lábios em tua pele. Sinto os teus pelo se ouriçando, e escuto um leve arfar saindo de tua boca. Sem precisar olhar-te, percebo o prazer exalar de teus poros.

Deito-te, em nosso leito nupcial. Percorro cada local, com atenção e zelo, não importa o quão recôndito ou inóspito ele seja. Toda pequena parte do objeto de prazer que me é oferecido merece ser explorado da mesma maneira: apaixonadamente, com improvisações em tudo o que já foi feito, apenas para poder aumentar a tensão que já é quase insuportável entre nós dois separados um do outro.

Ao terminar isto, toco os meus lábios nos teus e a minha língua encontra a tua. Se queríamos dançar, agora só esta parte dos nossos corpos conseguem saciar esta sede. Da saliva, dos músculos se encontrando, do fervor, de tudo aquilo em que até Cronos perderia a noção de tempo e Morfeu nunca pensou em imaginar algo do gênero, surpreendo-te.

Adentro o teu inferno com firmeza. Ao iniciar este processo, vejo que faço você sair do Purgatório da nossa vida cotidiana e alcançar um pedaço do céu. Estamos juntos, ligados por uma ponte do prazer que não tem prazo para terminar. Exercemos nossas habilidades de tentarmos unir nossos corpos sem pressa.

Variamos nossos lugares de amantes e o modo como podemos fazer o nosso pequeno ritual. Enquanto as areias do tempo humano escorrem, tocamos nossas almas com a mesma delicadeza que de um sorriso que nos é dado. Isto, porém, também é insuficiente para podermos satisfazer nossos impulsos. Trocamos juras de amor, sussurramos palavras excitantes e também tentamos falar coisa que não conseguimos, balbuciamos meras palavras tamnha é a volúpia ali instituída e aumentada.

Após um pedido teu, feito entre dentes, quase que lânguido pelo esgotamento de energia, fazemos aquilo que tanto gosta. Coloco-te, de uma certa maneira, em submissão. Deste jeito, o nosso amor pode fluir de maneira ainda mais incontida. Faço tudo aquilo que se é permitido fazer com a pessoa amada. A tua retribuição são os já conhecidos e, ainda assim, surpreendentes jeitos de mostrar-te o prazer que lhe proporciono. A isto, também não resisto, e derramo-me em ti.

Não que seja o fim de tudo... Isto é apenas o início, o aquecimento de nosso amor. Acarinhamo-nos, um ainda preso ao outro, sentindo apenas que o mundo parou. Sorrimo-nos, com a inocência de duas crianças. Apreciamo-nos, como uma obra-prima composta por um gênio. Ali, naquele espaço, no nosso espaço, podemos ser aquilo tudo que temos medo de ser fora dali: nós mesmos. Aceitamo-nos como somos, tudo aquilo que somos. E isto só da margem para mais e mais prazer.

domingo, 4 de julho de 2010

Ataíde e Patriccia

Ataíde tinha acordado cansado naquela manhã de domingo típica de um inverno. Ao levantar-se de sua cama, olhou para o lado e percebeu que sua amada não estava mais ao seu lado. Demorou, aos poucos, tanto pelo sono quanto por não querer lembrar, que ela havia viajado para um Congresso de Medicina. Imediatamente a isto, veio em sua cabeça a discussão que eles tiveram antes dela viajar.


Não havia tido ofensas por nenhuma das partes; sempre se respeitavam. Mais do que isto, chamavam a si mesmos de amantes, mesmo com um relativo tempo de relacionamento. Mais do que isto: prometeram sempre, um ao outro, sempre serem amantes, não importando qual passo da relação mais a frente seria tomado.

Aí residia a questão do relacionamento deles. Ele, um promissor estudante de direito e concurseiro e ela uma médica já realizada na sua profissão. Ele tinha cinco anos a menos do que ela; não que isto importasse um para o outro: importava para ela a vontade que tinha de ser mãe. Ataíde, por sua vez, conversava com Patriccia sobre isto, vez por outra, quando o inconsciente dela trazia a questão à tona. Sexo, amor, companheirismo e conversa eram a base do relacionamento deles, variando de posição dependendo da necessidade do casal.

Eles prometeram não se falar neste ínterim. Queriam aprofundar o relacionamento, levá-lo um passo a diante. Isto, porém, deveria ser dado baseado na falta que o amor de um pelo outro causasse, não simplesmente por uma mera necessidade de se ter alguém – não que fosse o caso – mas Ataíde queria ter certeza de que Patriccia iria tomar sua decisão pautada exatamente sobre este critério: o da felicidade pessoal dela, em primeiro lugar.

Ele, então, decidiu caminhar naquela manhã. Tinha por hábito fazer isto quando precisava juntar os quebra-cabeças de sua vida. Tomou um suco e foi andar. O vento frio, misturado com a luz do sol o fez lembrar dela. Nada que fosse muito diferente, tudo fazia lembrar dela. Ao caminhar, percebeu a marca que ainda tinha em seu braço que ela havia feito fazia uma semana.

Era o polegar dela. Ela o havia marcado em uma tórrida noite de amor, em um descontrole causado pelo prazer que ele proporcionou a ela; um dos inúmeros daquela bela tarde em que comemorou o seu aniversário com ela. Ela, tímida após sempre repetir o mesmo ato, se desculpava. Ele, sorrindo como uma alvorada, dizia que adorava o descontrole dela pelo simples fato de se entregar totalmente a ele, sem pudores.

Algo que ele nunca disse é que o fato de marcá-lo era apenas mais uma maneira dele tê-la em seu dia. Além da mente, tomado pelas doces e inteligentes palavras, o coração era dela também, especialmente o Ventrículo Esquerdo. Mas quanto mais, melhor, pensava Ataíde. O seu próprio corpo era o templo de amor dela e ele gostava que a sua deusa, musa inspiradora, deixasse claro que ali era somente o reduto dela.

Abriu um sorriso de canto de boca, típico que ela fazia quando ficava tímida após confissões amorosas realizadas por ele. Parou a caminhada, olhou para cima e desejou que ela pudesse ler os seus pensamentos de alguma maneira. Alguma maneira que não conseguisse burlar a regra estipulada por eles (nunca foram bons nisso, a ansiedade de ambos sempre debelava estas regras sobre afastamento e futuro do casal).

Ele queria ter uma forma de magia, de canto, de poesia que pudesse dar a ela a certeza do quão especial e importante ela era na sua vida. Por isto, a colocava em primeiro lugar no relacionamento deles, porque ela também o colocava. Ele, sorrindo com aquele amor imenso que tinham um pelo outro, resolveu esperar. Iria ser paciente como os sábios e lembrou-se de duas coisas muito importantes que aprendera em sua meninice.

A primeira é que lembrou de um ditado que dizia que um homem estava decidindo que estrada tomar para que pudesse resolver a maior questão de sua vida.Resolveu, então, tomar o caminho menos usado, o mais ousado. Foi difícil no início, mas ele percebeu que era o melhor caminho para ele, pois os desafios encontrados recompensavam-no com tesouros ainda maiores a serem descobertos.

A segunda delas é que o amor é como um pássaro, devendo deixá-lo livre para que possa voltar ao seu ninho. Ela era sua pequena borboleta, que trazia-lhe a esperança de que cada dia seria melhor do que o anterior. Valia a pena esperar por ela, mesmo que fosse um éon de espera. A eternidade seria pouco para que ele pudesse desfrutar do que ela poderia oferecer para ele, através da sua própria escolha de felicidade. Paciente, sorriu de novo, com esperança no que poderia acontecer.

sábado, 3 de julho de 2010

Manuel Arthur e Antônia

Manuel Arthur era um sujeito um tanto quanto composto. Em seu parco entendimento lingüístico, preferia ter nascido apenas com um nome, para que pudesse ser mais simples. Ora ele agia como Manuel, ora ele agia como Arthur. Por uma destas coincidências do destino, trabalhava na área de relatórios revisionais e críticas. Seu trabalho consistia em, basicamente, apenas apontar erros e qualidades. Porém, como em quase tudo em sua vida, ficava indeciso e nunca fazia um fechamento, apontando um direcionamento.


No campo do amor, então, teríamos que falar que ele tratava a si mesmo como um verbo intransitivo, incapaz de se relacionar com o seu objeto direto de desejo, invariavelmente nem mesmo caindo no campo do amor platônico. Achava-se por demais simplório em suas concepções de vida: trabalhar para sustentar sua família, ser fiel a sua esposa e também amá-la intensamente. Adicionaríamos a ela, o seu desejo intrínseco de ter filhos. Para ele, era simplório para toda e qualquer mulher um homem destes.

Estranhos e curiosos são os caminhos de nossa vida. Estranho e curioso também seria o de nosso intrépido anti-herói. Em uma destas segundas-feiras, em que não esperamos nada do trabalho, foi realizada uma avaliação 360 graus no seu setor de trabalho. Manuel, claro, não pestanejou e classificou tudo como sempre costumava: buscando anular uma característica boa a uma característica ruim, a fim de retratar que todos eram neutros.

Uma semana após este fato, foi chamado pela chefia de Recursos Humanos. Só havia ido lá por dois motivos: ser contratado e assinar suas férias. Temia, com isto, que sua avaliação foi tão mal realizada que sua demissão seria o caminho. Respirou fundo e, sentindo-se mais uma vez um agente da passiva, como se sentiu em relação a toda a sua vida, caminhou até a recepção dos Recursos Humanos. Esperou, pacientemente, pois a secretária havia informado que a diretoria ainda deveria chegar.

Quando a diretoria chegou, ele a viu somente representada na figura mais bela da mais bela das mulheres que ele já havia visto em toda a sua vida (sim, com mais figuras de repetição e sentimentos superlativos que este pobre narrador poderia ter). Sua tez era branca, harmonizada com a cor de cacau que fluía de suas madeixas. Seus olhos eram negros como a noite e enigmáticos como o oceano iluminado pela lua. Suas curvas somente poderiam ser descritas como de uma bela região montanhosa e perfeita. Tudo isto estava envolto em um belho vestido lilás, com um sapato marrom e uma bolsa da mesma cor.

Sentiu-se menor ainda por ter uma mulher como aquela perto dele. Ela entrou em sua sala. Esperou alguns minutos e o chamou através da secretaria. Manuel tremia feito uma vara verde, mas decidiu respirar fundo e tentar se tornar um sujeito de sua própria vida. Mas, desta vez, ele desejava que pudesse ser um sujeito ativo, cheio de predicativos.

Ao sentar-se, a diretora (chamava-se Antônia) perguntou para ele o motivo de ter feito uma avaliação tão meticulosamente equilibrada. Sentiu um nó na garganta e tentou abrir os lábios. Não conseguiu. Respirou fundo e lembrou-se de sua aula de português. Lembrava que o presente era o lugar do sujeito e deveria usar isto para basear suas escolhas. O passado iria ocorrer assim que ele falasse e, do futuro, nada podia esperar, somente um futuro daquele mesmo presente que ele estava construindo naquele momento.

Com isto, discursou de maneira magnífica sobre como poderia ser bom analisar as coisas de maneira tão analíticas. Admitiu, contudo, pequenos erros e os atribuiu ao stress que gerava fazer avaliações. Revelou, ainda, que estava desejoso por poder contribuir mais para a empresa e que também desejava algo maior para sua vida do que passar dez anos no mesmo setor.

Antônia espantou-se, nunca alguém havia sido tão sincero e tão aberto. Admirou-o por isto. Começaram a conversar sobre amenidades também, uma longa conversa. Um saborosa conversa sobre preferências musicais, gostos por vinhos, literatura e por uma infinidade de assuntos. Riram-se e divertiram-se muito deles mesmos. Até que entraram em um assunto delicado.

Sim, caros leitores, a vida amorosa. Conversaram muito. Ela admitiu que sempre se sentia uma agente da passiva, deixando-se levar por homens que nunca a mereceram. Ele, por sua vez, admitiu que sentia-se também agente da passiva, com algumas vezes tendo se sentido um mero verbo de ligação para o sujeito principal da oração amorosa: a outra mulher que, de vez em quando, ficavam com ele.

Os dois, após um pausa de identificação e timidez típica de duas pessoas que se identificaram, resolveram continuar a conversa no almoço. E depois, em um outro almoço. Começaram a se encontrar tanto e de tantas maneiras que sua história de amor começou a ser escrita pelos dois, mas de uma maneira tão bonita e tão sincera que tornavam-se cada vez mais desejosos um do outro.Cada um, ao seu tempo, tinha virado o sujeito principal e ativo de suas vidas, porém, decidiram compartilhar todos os seus verbos de modo recíproco e não mais receptivo. Amaram-se e casaram-se. E, quando se travava de objetos diretos, poderíamos dizer que “eles tiveram quatro filhos”.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Akino e Bee

Akio era um pequeno goblin. Era verde, tinha olhos negros e sua baixa estatura, vez por outra, o fazia motivo de chacota por outras criaturas daquela pequena floresta. Ele era um goblin de bom coração: gostava da natureza e preservava suas boas amizades. Gostava de cativar as outras pequenas criaturas mágicas que tanto tornavam sua vida feliz. Tinha ele se acostumado a viver como um bom vivant e pouco se importava com o amanhã; ele nunca havia lido o conto da cigarra e da formiga.


Um dia, uma pequena graça ocorreu no seu dia. Ele encontrou um pequeno filhote de unicórnio fêmea, a qual chamou de Bee. Ela havia se tornado a razão de todo o seu viver. A princípio, ele era um pouco raquítica e era meio desengonçada enquanto criança. Aos poucos, o seu tratador e seu melhor amigo forneceu carinho e boa alimentação para que ela se desenvolvesse.

Passavam dias inteiros juntos, Akio escrevia para ela poemas e sonetos. Tudo o que ele tinha, dedicava a ela, até as horas do seu sono. Gostava de velar o sono de Bee, acariciando as suas crinas negras e deslizando a sua mão pela face daquele unicórnio fêmea. Unicórnios crescem não só a base de alimentação, mas principalmente de amor. Akio ansiava para que Bee crescesse rápido, para que pudessem se aventurar para além da pequena floresta. A pequeneza dela havia, pouco a pouco, infectado o pequeno goblin; sentia-se menor do que ele próprio, fato que Bee sempre tentava negar, devolvendo-lhe o afeto dado por ele.

Porém, em uma certa noite, Bee fora vítima de uma grave moléstia. Seu chifre, fonte de todo o seu poder mágico que já se mostrava imenso, começou a apresentar uma coloração estranha. Akio ficou preocupado; conhecia pouco sobre unicórnios e menos ainda sobre as doenças que os acometia. Ficou preocupado. Procurou, então, entre as criaturas mágicas, como poderia fazer para salvar a sua companheira de longa data.

Foi orientado por uma Pixie que deveria procurar um velho mago que morava ao Leste da floresta. Uma travessia de três dias. Ele arregimentou suas próprias forças e arrumou uma pequena mochila com mantimentos para a viagem. Uma lança para defendê-los de alguma outra criatura que pudesse atacá-los. Assim, com esperança de que tudo desse certo e medo do que poderia dar errado, ele partiu em sua busca.

A travessia, em si, nem fora tão perigosa. Ao chega na velha choupana do mago, Akio teve uma surpresa. Era uma aprendiz do antigo mago que estava lá. Ela explicou para ele que o ancião havia ido atender um pedido do rei dos anões e por isto não estava ali presente. Um nó firmou-se na sua garganta, que foi medianamente dissolvida com as palavras suaves da doce aprendiz.

-“Escute com atenção, pequeno goblin...” – fez isto enquanto olhava cuidadosamente o chifre de Bee – “Este unicórnio tem um laço muito especial com você. Ter chegado até aqui não foi o mais complicado, mas o que vem a seguir o é. Deverá ir na montanha mais alta do pico nevado e encontrar uma erva vermelha, em formato de coração. É dela que precisarei para cuidar de sua amada companheira. Está pronto para isto?”

Um calafrio percorreu a espinha de Akio. Ele nunca havia feito nada tão perigoso e, por seu descuido, Bee havia contraído esta grave moléstia. Ele não sabia o que fazer, nem se deveria confiar na aprendiz. Decidiu, por bem, deixar Bee para que ela cuidasse. Sabia que ela não agüentaria a viagem que poderia possibilitar a sua reabilitação. Tinha medos e angústias, todas refletidas nos seus pequenos joelhos que tremiam.

Perguntou a aprendiz, com os olhos cheios de lágrima, se ela poderia administrar a situação até que ele obtivesse o fôlego necessário para que pudesse prosseguir em sua tão arriscada jornada. A aprendiz sorriu, disse que ele deveria confiar nele mesmo e que iria fazer de tudo para que Bee ficasse viva para que pudesse receber o bálsamo. O pequeno goblin, então, olhou para Bee.

Contemplou todos os seus medos, o medo de perdê-la, o medo de não se sentir merecedor de um ser mágico tão especial. Estava destruído por dentro, arrasado por todos os sentimentos desesperançosos que se pode haver. Chorava copiosamente a dor de poder perder alguém tão especial. Enquanto suas lágrimas se derramavam, algumas escorreram pelo chifre afligido pelas chagas. Algo aconteceu.

Seu sofrimento e angústia pelo amor que possuía por Bee deram uma outra cor ao chifre. Originalmente era branco e havia ficado negro com as chagas; agora, havia tornado-se cinza. A aprendiz o congratulou por demonstrar seu amor verdadeiro e que, pelas lágrimas derramadas, ele havia conseguido o tempo necessário para realizar a sua empreitada. E que, dali por diante, deveria provar que era merecedor do vínculo de amor que havia estabelecido com Bee.

Ele encheu seu peito de esperança de novo. Havia sido renovada toda a sua força para que pudesse trilhar este caminho novo, esta nova aventura, para que pudesse restaurar tudo o que o unicórnio era para ele. Sabia que precisaria voltar o mais rápido que pudesse com o bálsamo, para que o unicórnio finalmente pudesse se desenvolver em sua máxima plenitude, desabrochando uma magia nunca antes vista naquele século.
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